Crítica: Areias que Falam (de Arilene de Castro)

Revisão: Nilton Resende

Após oito anos do lançamento de Areias que Falam (lançado em 04/06/2009), de Arilene de Castro, também oito anos após tê-lo visto pela primeira vez, na primeira edição da Mostra Sururu de Cinema Alagoano (20/10/2009), reassisti ao filme a partir do desejo de refletir sobre a representatividade feminina no audiovisual alagoano.

O edital DocTv teve início em 2003 como Programa de Fomento à Produção e Teledifusão do Documentário Brasileiro, que em Alagoas foi realizado pelo Instituto Zumbi dos Palmares, através da TV Educativa de Alagoas, em parceria com a Associação Brasileira de Documentaristas em Alagoas e com o apoio do Banco do Nordeste até 2009. Cinco projetos foram contemplados nas quatro edições do DocTv. Arilene foi a única diretora contemplada, em meio a outros três diretores contemplados (Werner Salles Bagetti, Hermano Figueiredo e Silóe Amorim). A lista dos filmes realizados através do DocTv está disponível na página dedicada a editais do Estado.

Para mim, Areias que Falam havia sido o primeiro filme realizado por uma diretora alagoana através de um edital. Mas, depois tive conhecimento de que o primeiro filme realizado por uma diretora alagoana através de um edital foi Borboletas, também um documentário, de Vicentina Dalva Lyra de Castro (irmã de Arilene), realizado através do edital Revelando os Brasis. Tomei conhecimento do Revelando os Brasis em 2007, mas só assisti ao Borboletas neste ano.

Areias é um documentário que apresenta os moradores de Pixaim, povoado Quilombola construído sobre morros de areia no litoral sul de Alagoas, nas proximidades da Foz do Rio São Francisco, no município de Piaçabuçu, em Alagoas. Quando assisti pela primeira vez, não consegui apreciar muito a sua construção pois não estava disposta a me permitir mergulhar na jornada do filme, com um número grande de personagens e muitos assuntos abordados a partir da memória dos moradores.

Ao reassistir e estar hoje mais disposta a refletir sobre o filme, fiquei encantada com a diversidade apresentada através dos muitos personagens que implicam numa narrativa plural do documentário, um desafio para a construção de um filme de média duração, pela variação de ritmo e dificuldade de consonância entre as temáticas apresentadas. Estórias que perpassam a sobrevivência num povoado pouco populoso, rodeado de areia, que não permite mais o plantio de arroz que foi sustento de muitos, onde há quem não compreenda os que ainda por lá habitam, mas há os que de lá não desejam sair, e que articulam sua moradia de acordo com a variação de formação dos morros, implicando no desfazer e refazer das casas.

Arilene, com uma grande admiração pelo lugar e pelos seus entrevistados, reflete de uma forma determinada a experiência vivida na construção do filme e possibilita o conhecer e o reconhecer de Pixaim através dos homens e das mulheres, das areias e de suas estórias.

Reassistir a Areias a partir do desejo de refletir sobre a representatividade feminina no audiovisual alagoano implica em reconhecer o desafio que Arilene encarou em 2009 ao dirigir uma equipe de um média metragem com quase duas dezenas de personagens entrevistados, entre homens e mulheres, e me dá a consciência de que ainda há muito o que se falar sobre essa vivência e tantas outras. Deixo aqui o convite para que assistam a Areias que Falam e para que comentem sobre ele.

Convite  feito também para que acompanhem outras produções de Arilene, que, também contemplada na 3ª edição do Prêmio de Incentivo à Produção Audiovisual em Alagoas, realizou Guerreiros em 2014; em 2016, dirigiu O Juremeiro de Xangô, aprovado no edital Curta Afirmativo 2014: protagonismo de cineastas afro-brasileiros na produção audiovisual pela Secretaria do Audiovisual e Ministério da Cultura.

Sobre Larissa Lisboa

Graduada em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo pela Universidade Federal de Alagoas (2008), especialista em Tecnologias Web para negócios (ebusiness), pela Fejal – CESMAC (2010), atualmente é analista em audiovisual do SESC Alagoas. Tem experiência em produção de ações formativas, mostras e documentários, e em curadoria de filmes; na análise e gestão de conteúdo online; e na catalogação de vídeos, com ênfase na produção audiovisual alagoana.
Idealizadora e coordenadora do Alagoar (site sobre o audiovisual alagoano) e Diário Refletido (comunidade fotográfica).

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