Para os maceioenses: a Maceió dos olhos do nosso cinema

Foto: “Há algo errado no paraíso”/Divulgação

A VI Mostra Sururu de Cinema Alagoano, que começa hoje (17), já se apresenta como uma das edições mais politizadas do evento. Isso porque, além de promover atividades de interação entre realizadores, com o objetivo de incentivar o debate sobre o Audiovisual e a sua representatividade local enquanto categoria profissional, a mostra vai exibir uma quantidade recorde de documentários, que reúnem diversas críticas às realidades sociais da capital alagoana, a aniversariante do mês.

A cientista social Nadja Rocha, que participou da curadoria dos filmes desta edição da Sururu, revela que especialmente os documentários selecionados para esta edição comemorativa aos duzentos anos de Maceió, quando reunidos, constituem uma reflexão sobre a cidade com diferentes olhares sobre os problemas vivenciados em bairros distintos e por seus moradores.

“Reunidos, os filmes compõem um discurso repleto de críticas, questionamentos, dúvidas e ludicidade. Estarão na tela as periferias, o bairro elitizado, os usuários de bicicleta e os que lutam contra a especulação imobiliária, entre outros”, explicou a curadora.

Dos cerca de cinquenta filmes inscritos, vinte foram selecionados pela curadoria formada pela cientista social e pelos realizadores e fotógrafos Michel Rios e Alice Jardim. São treze documentários, cinco ficções e dois experimentais que competirão por premiações em diferentes categorias técnicas.

Para a coordenadora de produção do evento, Nina Magalhães, a grande quantidade de documentários produzidos neste ano em Alagoas mostra diferentes aspectos sociais e culturais e reflete tanto a resistência dos realizadores num ano sem investimentos em audiovisual quanto a capacidade política desse segmento artístico, que mostra por meio da arte as belezas alagoanas e a força da nossa gente, mas também os inúmeros problemas sociais existentes aqui e a necessidade da atenção e da ação popular em relação a eles.

“Sabemos que um dos motivos para a produção de tantos documentários é a ausência dos editais de incentivo ao Audiovisual para a produção em 2015, pois com pouco ou quase nenhum recurso é mais viável fazer um documentário do que uma ficção. Mas acredito que isso também se deve ao ano muito conturbado que tivemos e que trouxe à tona muitas discussões sobre os mais variados temas, despertando nos realizadores o interesse na criação desses trabalhos de registro e denúncia”, ressaltou a produtora.

Um desses trabalhos é o “Monstro que nada”, documentário que satiriza as responsabilidades da sociedade maceioense em relação à cidade. O filme, que utiliza o riacho Salgadinho como espelho provocador dessa reflexão social, foi dirigido coletivamente por alunos do Ateliê Sesc de Cinema 2015 e é porta de entrada para o Cinema para a maior parte dos seus realizadores. Fabio Cassiano, codiretor do documentário, falou com propriedade sobre a criação coletiva:

“Apropriar-nos da realidade que nos cerca, perceber os problemas sociais, ecológicos, morais e políticos que existem em Maceió, foi o meio que usamos para expor os absurdos sociais. O Riacho Salgadinho é um desses ‘monstros’ sociais, nascidos a partir do descaso. Não falamos apenas dessa grande mancha que corta a cidade, mas de tantas outras que persistem e com as quais convivemos como se nada houvesse de errado”, justificou o diretor estreante.

A presença da produção documental no evento ganha ainda mais força com as exibições de “Jangada de Pau”, de Rafhael Barbosa, “Relicários de Zumba”, de Vera Rocha, e “Horas Vagas”, de Celso Brandão. Os filmes foram convidados pela organização e devem enriquecer as perspectivas críticas do evento.

Esses diversos olhares sobre Alagoas e sua capital terão seus discursos fortalecidos pelas atividades da mostra voltadas à discussão e à construção de novos rumos para o Audiovisual local. Além dos debates tradicionalmente realizados durante o evento, esta edição incorporou a última reunião setorial do segmento neste ano, que vai construir o calendário de atividades de 2016 e discutir a representatividade do setor. A VI Sururu vai promover ainda uma roda de conversa sobre o Audiovisual Nordestino Pós Arranjos Regionais, com a participação dos convidados Nara Normande, André Dib e Erica Lima, que compõem o júri oficial da mostra.

Como afirma a introdução do documentário “Tempo de Cinema”, de Rafhael Barbosa, “fazer cinema em Alagoas é um ato político”. A sexta edição da Mostra Sururu vai, certamente, traduzir com perfeição essa frase para o público e para todos os profissionais que desejam lutar pelo nosso Audiovisual e pelo nosso estado.

Mostra Sururu

Criada em 2009, a Mostra Sururu de Cinema Alagoano vem desempenhando um papel cada vez mais relevante para o estado de Alagoas. Principal janela para os curtas-metragens locais, no decorrer dos anos o evento contribuiu de maneira significativa para o crescimento do setor, estimulando, entre outras ações, o surgimento de novas produções, a consolidação do trabalho de profissionais iniciantes, o diálogo entre integrantes da cadeia produtiva do Audiovisual e a construção de um panorama do cinema alagoano contemporâneo.

A sexta edição da mostra será realizada entre os dias 17 e 20 de dezembro, no Centro Cultural Arte Pajuçara, em Maceió. A programação completa do evento pode ser vista aqui. Saiba mais sobre as produções selecionadas para a VI Sururu na página da mostra, no nosso catálogo.

Por Amanda Duarte (Audiovisual Alagoas)

Sobre Amanda Duarte
Colaboradora.