
Texto: Matheus Costa. Revisão: Larissa Lisboa
Enquanto jovem negro da parte alta de Maceió, uma questão primordial que me atravessa — e que tento responder neste texto — é: qual é o lugar reservado à juventude negra na cidade de Maceió? E, se esse lugar nos é negado, o que podemos (ou devemos) fazer diante disso? Para tensionar essas perguntas, parto do curta-metragem Samuel Foi Trabalhar (2024) como fonte de reflexão e mobilizo a metáfora do migrante nu, desenvolvida por Bona (2020), como forma de pensar sobre como o corpo negro é visto, atravessado e situado no espaço urbano.
Em Bona (2020), os negros escravizados são apresentados como migrantes nus — mulheres, homens e crianças reduzidos à “vida nua”, isto é, uma existência estritamente biológica, desprovida de direitos, de reconhecimento ontológico (Fanon, 2020) e de estatuto político (Mbembe, 2018). Mobilizo essa metáfora como uma lente de leitura da realidade contemporânea para pensar, no presente, qual é o lugar reservado à juventude negra em Maceió — ou, ainda, o que revela a persistência dessa não-inscrição plena da juventude negra na sociedade. Acredito que essa persistência está diretamente relacionada às contradições históricas não resolvidas do período colonial, atualizadas pelas estruturas da colonialidade que ainda organizam o presente.
A escravidão moderna se caracteriza pela integração ao capitalismo mercantil, pela mecanização e pelo controle rigoroso do trabalho subordinado, tendo o negro sido seu elemento crucial (Mbembe, 2018). Isso significa dizer que, diferentemente de outros modelos históricos de escravidão, a escravidão moderna instituiu uma exploração sistemática e racializada, que estrutura até hoje as relações sociais e econômicas, sendo o corpo negro o elemento matriz do qual as plantações sugaram sua força e vitalidade. Embora atualmente não vivamos mais na escravidão moderna, ainda convivemos com concepções, pensamentos, representações e discursos estruturados por ela.
Essa encruzilhada é materializada na narrativa do curta-metragem de Janderson Felipe e Lucas Litrento, que oferece um espaço para refletir sobre as tensões e os desafios enfrentados pela juventude negra na cidade de Maceió. Segundo estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o rendimento mensal médio das pessoas negras é cerca de 40% inferior ao dos trabalhadores não negros. De acordo com a
Agência Brasil, em 2023, jovens negras entre 18 e 29 anos apresentaram uma taxa de desemprego três vezes maior do que a dos homens brancos.
Andrea Zardana, líder: “Agora você é o símbolo da nossa empresa”
A psicóloga Cida Bento é uma das principais pensadoras brasileiras a articular a questão racial com o mundo do trabalho. Seu conceito de pacto narcísico da branquitude refere-se a um acordo não verbal entre pessoas brancas, voltado à autopreservação, à proteção de interesses grupais e à manutenção de pessoas brancas em cargos de poder e posições de superioridade dentro das instituições brasileiras.
No curta-metragem, esse pacto pode ser observado na figura de Andrea Zardana, herdeira de uma empresa de construção civil onde Samuel trabalha. Em seu discurso, Andrea mobiliza a retórica do mérito individual e enfatiza a importância da empresa não apenas para a história da cidade de Maceió, mas também para a vida dos seus funcionários e suas famílias. Sua fala reforça uma narrativa empresarial que apaga as desigualdades raciais estruturais, deslocando o foco das responsabilidades históricas para uma suposta harmonia social fundada no esforço e na gratidão — elementos típicos da racionalidade meritocrática que sustenta o pacto da branquitude.
A juventude negra e periférica de Maceió encontra-se no entre-lugar tensionado entre Samuel, com suas vivências de precariedade e exclusão, e Andrea, representante de uma elite que sustenta os privilégios da branquitude sob o discurso da meritocracia. Semelhante a plantations, no trabalho assalariado podemos observar que os senhores, grandes empresários, sugam a energia e força vital da juventude para obter mais lucro.
A pensadora e intelectual Lélia Gonzalez, no texto A juventude negra brasileira e a questão do desemprego, afirma: “em um país onde, em termos de mercado de trabalho, a procura é maior do que a oferta e onde existe uma divisão racial do trabalho, a situação da juventude negra é, obviamente, a do setor mais atingido pelo desemprego aberto ou disfarçado” (2020, p. 48). A análise de Gonzalez revela que as condições de exclusão da juventude negra não são acidentais ou transitórias, mas estruturais e historicamente determinadas — heranças coloniais atualizadas pelas lógicas da branquitude e do capital.
Você me vê ou só o que carrego?
O artista e empreendedor negro por trás do projeto A Coisa Ficou Preta (@acoisaficoupreta, no Instagram) realiza potentes intervenções pretas nos muros brancos da cidade de Maceió. Por meio de uma linguagem visual que articula grafite, frases de impacto e referências à ancestralidade negra, o artista inscreve nas paredes da cidade mensagens que convocam à memória, à resistência e à valorização da negritude.
Na série intitulada “Você me vê ou só o que carrego?”, o artista realiza uma crítica contundente à invisibilização dos trabalhadores negros nos espaços urbanos. As obras retratam figuras como uma babá, um moto uber e um garçom — todos sem rosto, representados apenas por seus uniformes e gestos de serviço.
A ausência de rostos explicita o processo de desumanização e apagamento simbólico a que esses sujeitos são submetidos cotidianamente. Ao perguntar “você me vê ou só o que carrego?”, o artista denuncia a forma como essas pessoas são percebidas não como corpos dotados de história, subjetividade e desejo, mas como funções utilitárias a serviço dos outros uma lógica moldada por heranças coloniais, racistas e capitalistas. Ou seja, são corpos tratados como migrantes nus: desprovidos de rosto, de memória, de pertencimento.
No curta-metragem, observamos uma simbiose entre Samuel e o seu trabalho: o mascote da empresa. A partir da assinatura da carteira, Samuel não apenas assume a função ele se transforma no mascote. Mesmo quando sai do emprego, deixando o uniforme para trás, o mascote não sai dele. A imagem revela, com sutileza e crítica, como o trabalho captura não apenas o corpo, mas também a subjetividade.
Em 1950, Frantz Fanon afirmou que “a verdadeira desalienação do negro requer um reconhecimento imediato das realidades econômicas e sociais” (Fanon, 2020, p. 25). Essa afirmação continua profundamente atual. Ainda hoje, o trabalho opera como um dos principais vetores de alienação da juventude negra, sobretudo nas periferias. Vivemos uma realidade em que se trabalha para sobreviver — e não para viver plenamente.
Samuel não se reconhece no uniforme, na fantasia que oculta seu rosto e sua individualidade. Mas se reconhece no corpo cansado, depois de passar o dia inteiro dançando e pulando sob o sol escaldante. É no cansaço, na dor, na dificuldade de voltar para casa, que ele se reencontra consigo. É nesse lugar que se inscreve historicamente a juventude negra e periférica de Maceió — e do Brasil.
No livro Por que fazemos o que fazemos, Mario Sergio Cortella argumenta que, na pós-modernidade, as pessoas buscam um trabalho com o qual possam se identificar, que carregue um sentido e permita alguma forma de autoria. Segundo o autor, “o trabalho alienado é aquele que eu faço e que não pertence a mim e eu também não pertenço a ele. Nem o que eu faço é minha propriedade, nem eu sou propriedade de mim mesmo. O trabalho alienado é aquele que é estranho a mim” (Cortella, 2016, p. 17).
Essa reflexão é particularmente relevante quando observamos a trajetória de Samuel no curta-metragem. Ao assumir o papel de mascote, ele se vê engolido por um trabalho que não lhe pertence — e ao qual ele também não pertence. A fantasia o despersonaliza, e a subjetividade se dissolve sob o peso da função. É nesse ponto que a crítica de Cortella ilumina a experiência de Samuel: não há autoria, não há sentido; há apenas o corpo a serviço de uma lógica que o estranha.
Hoje é a gravação do meu cd
Em conformidade com Bona (2020, p. 30), “é antes de tudo por meio do ritmo que o négre traça uma linha de fuga”. É a partir do ritmo que se torna possível entrar em um estado de transe, pois “o fraseado rítmico opera distorções nos próprios corpos e no espaço-tempo” (Bona, 2020, p. 30). Nesse sentido, o reggae, no curta-metragem, apresenta-se como uma linha de fuga — uma possibilidade de transcendência da condição material de Samuel. É por meio do movimento do corpo e da vibração das melodias que o jovem não apenas elabora sua experiência, mas também encontra formas de resistir e, em alguma medida, superar sua realidade concreta.
Babylon representa qualquer sistema de predação, exploração e alienação. Para Bona (2020), Babylon é compreendida como um sistema de vampiros, pois o que o vampiro persegue é o humano: ele suga o trabalhador vivo, alimentando-se de sua energia, força e vitalidade. Em sua leitura sobre a criação da comunidade Rastafári, Bona (2020) entende esse movimento como um gesto de marronagem — uma forma de constituir uma comunidade furtiva, forjada à margem da sociedade colonial.
O reggae, nesse sentido — surgido na década de 1960, na Jamaica — torna-se, para além de um gênero musical, um gesto de marronagem para as comunidades periféricas. Por meio dele, torna-se possível entrar em estados de transe, comunhão e desenvolver linhas de fuga diante das violências cotidianas.
No curta-metragem, Samuel é convidado para “debochar legal” em uma discotecagem que também será a gravação do DJ Thuppá. Nesse momento, a simbiose entre Samuel e o mascote da empresa encontra ressonância no ritmo suave do melo. É como se, através da música, corpo e personagem vibrassem em sintonia, revelando não apenas a captura subjetiva operada pelo trabalho, mas também uma brecha — uma possibilidade de fuga — aberta pelo ritmo, pelo riso e pelo deboche. No entanto, essa brecha ainda não é suficiente para romper a simbiose. É preciso mais: uma hermenêutica da vida, uma política do sensível — é preciso do encontro.
Corpo negro, corpo, corpo get out
De acordo com Lélia Gonzalez (2020, p. 46), na perspectiva predominante entre os policiais brasileiros, “todo negro é um marginal até prova em contrário”. Historicamente, no Brasil, observa-se uma sistemática incompreensão — ou mesmo recusa — em reconhecer as dimensões políticas e éticas da violência exercida por sujeitos negros. Intelectuais de referência, como Hannah Arendt, chegaram a acusar Frantz Fanon de “glorificar” ou “romantizar” a violência, desconsiderando o contexto colonial e a desumanização estrutural que atravessa os corpos negros (Fanon, 2020). No entanto, para Fanon, a violência é antes uma resposta à violência original do colonialismo — uma forma de reinscrever a dignidade e a agência onde antes havia apenas opressão e silêncio forçado.
Recentemente, tive a oportunidade de assistir Magazine Dreams (2023), filme protagonizado por Jonathan Majors no papel de Kilian Maddox. A narrativa acompanha um jovem negro que sonha em estampar a capa de uma revista de fisiculturismo, enquanto lida com comportamentos antissociais e o consumo abusivo de esteroides. O que mais me chamou a atenção foi a forma autoral e sensível com que o diretor Elijah Bynum nos conduz a uma reflexão crítica sobre o lugar que o corpo masculino negro ocupa no imaginário social contemporâneo — um corpo frequentemente animalizado, hipervirilizado e associado à violência.
Apesar de acompanharmos as diversas violências sofridas pelo jovem — o abuso sexual, a violência física e a morte da mãe —, podemos cair na armadilha de compreender o corpo de Kilian Maddox como violento, embora não haja um único momento em que ele perpetre qualquer ato de violência. O que mais me interessa neste filme é a forma como ele revela as violências sofridas pelo corpo negro masculino e a incapacidade de compreendê-las
como atos e gestos violentos. Essa dinâmica pode ser sistematizada pelo conceito de “banalidade do mal”, proposto por Hannah Arendt, segundo o qual a violência torna-se um fenômeno cotidiano e normalizado, muitas vezes invisibilizado ou naturalizado pela sociedade.
No entanto, este conceito não é entendido aqui como universal, justamente porque parte da compreensão de que alguns corpos — especialmente os corpos negros — não têm sequer o direito de serem reconhecidos como aqueles que sofrem violência. São vistos apenas como agentes da violência, e não como suas vítimas. Ou seja, o sofrimento que atravessa esses corpos é constantemente deslegitimado, apagado ou invertido, reforçando estigmas históricos e racistas que associam negritude à ameaça e à brutalidade (Mbembe, 2018; Fanon, 2020).
No curta-metragem, Samuel foi trabalhar — isso se revela em seu sonho, na simbiose entre ele e o mascote da empresa, e na ausência de dinheiro até mesmo para pegar o transporte público. Os diretores Janderson Felipe e Lucas Litrento nos conduzem a uma atenção sensível às violências cotidianas que, em muitos casos, são banalizadas e naturalizadas. Em uma das cenas, vemos que Samuel não iria almoçar, mesmo após um dia inteiro sob o sol escaldante da praia de Maceió, vestindo uma fantasia pesada e abafada.
Em seus sonhos, emergem o medo da violência e a perseguição policial — elementos que atravessam não apenas a imaginação de Samuel, mas também a realidade cotidiana de tantos jovens negros nas periferias urbanas. O sonho não é alívio, mas a continuidade da opressão: mesmo adormecido, o corpo permanece em estado de alerta. Ambos os filmes (Samuel foi trabalhar e Magazine Dreams) indicam essa continuidade ao evidenciar como os corpos negros não são legitimados como sujeitos de sofrimento. Em vez disso, são sistematicamente associados à violência, como se apenas a produzissem, e não também a experimentassem em sua carne.
Ritos de conclusão
Neste texto, busquei responder a uma questão que me atravessa enquanto jovem negro da parte alta de Maceió, a partir do meu contato com o curta-metragem Samuel foi trabalhar. O filme me mobilizou não apenas como espectador, mas como alguém que reconhece, nas imagens projetadas, o reflexo de experiências concretas, cotidianas e estruturais.
Ao olhar para Samuel, vejo não apenas um personagem, mas uma encarnação das violências normalizadas, dos apagamentos simbólicos e das resistências silenciosas que marcam a existência de tantos de nós. Vejo também a continuidade da metáfora do migrante nu — aquele que caminha exposto, vulnerável, desprotegido pelas estruturas sociais, mas que, ainda assim, insiste em seguir, criando brechas, ritmos e fugas possíveis mesmo diante do insuportável.
A COISA FICOU PRETA. Maceió, AL. Disponível em: https://www.instagram.com/acoisaficoupreta/. Acesso em: 4 jun. 2025.
AGÊNCIA BRASIL. Taxa de desemprego de mulheres negras é o dobro da de homens brancos. Brasília, 23 mar. 2023. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/economia/noticia/2023-03/taxa-de-desemprego-de-mulheres-negras-e
-o-dobro-da-de-homens-brancos. Acesso em: 4 jun. 2025.
BENTO, Cida. O pacto da branquitude. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
BONA, Dénétém Touam. Cosmopoéticas do refúgio. Tradução de Milena P. Duchiade. Florianópolis: Cultura e Barbárie, 2020.
CORTELLA, Mario Sergio. Por que fazemos o que fazemos?. São Paulo: Planeta, 2016.
DIEESE. As mulheres no mercado de trabalho formal. Seção Especial, n. 1, mar. 2024. Disponível em: https://www.dieese.org.br/secoesespeciais/2024/secaoEspecialMulheresMar24.html. Acesso em: 4 jun. 2025.
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento; colaboração de Raquel Camargo. São Paulo: Ubu Editora, 2020.
GONZALEZ, Lélia. Por um feminismo afro-latino-americano: ensaios, intervenções e diálogos. Organização de Flávia Rios e Márcia Lima. 1. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2020.
MAGAZINE DREAMS. Direção: Elijah Bynum. Produção: Jennifer Fox, Dan Gilroy, Jeffrey Soros, Simon Horsman. Estados Unidos: Los Angeles Media Fund, 2023. 1 filme (124 min).
MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. Tradução de Sebastião Nascimento. São Paulo: n-1 edições, 2018.
SAMUEL FOI TRABALHAR. Direção: Janderson Felipe e Lucas Litrento. Produção executiva: Alessandra Moretti. Direção de produção: Pedro Krull. Brasil: Céu Vermelho Fogo Filmes / Estranha Força, 2024. 1 curta-metragem (18 min).

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