
Texto: Maria Antônia Diniz. Revisão: Larissa Lisboa.
Há filmes que gritam. Outros que sussurram. Tente usar a roupa que eu estou usando, de Alicia Ferreira, opta pelo silêncio. Um silêncio escuro, quase insuportável, que se infiltra entre os planos parados, nas pausas dos diálogos, nas luzes que falham em iluminar — como se o filme também não soubesse exatamente o que fazer com tanta dor mal resolvida.
No centro da trama está Beatriz, ou Bia, e o seu gesto: gravar uma denúncia contra Paula, ex-namorada branca e professora universitária, acusando-a de racismo e abuso. Mas Tente usar a roupa que eu estou usando não está interessado em nos entregar certezas — nem sobre o que houve, nem sobre quem tem razão. O que importa é o que reverbera. E reverbera fundo. Amanda, atual namorada de Bia e orientanda de Paula, aparece em cena e o que se desdobra ali é menos um confronto e mais um esgarçamento de vínculos, afetos e mágoas.
A câmera se move pouco. E essa imobilidade não é casual. Lembra o ritmo de Fantasmas (2010) de André Novais Oliveira, em que o mundo segue acontecendo, mas os personagens não acompanham. Alicia Ferreira escolhe planos longos, em que o tempo se arrasta junto com a angústia das personagens. Os cortes são precisos, calculados, e nunca servem para alívio: são apenas novas camadas do mesmo abismo.
A fotografia trabalha em oposição clara: Bia está sempre envolta em tons frios, azulados, cinzentos. Sua presença é esmaecida, quase fantasmagórica — como se estivesse presa num tempo que já acabou. Amanda, por outro lado, surge aquecida, viva, presente. Esse contraste visual não só marca suas diferenças subjetivas, como também explicita o desequilíbrio na relação. A cor é narrativa.
A iluminação é escassa. Tudo é sombrio, emoldurado por sombras e fachos de luz que não alcançam o rosto inteiro. Em Nada (2017) de Gabriel Martins, há uma melancolia confusa entranhada em cada detalhe: um quadro pendurado, uma cama desfeita, uma foto antiga — onde talvez ainda houvesse futuro. Mas aqui o saudosismo não é ternura: é inquietação, é desconforto. O passado não consola, apenas pesa.
O som segue esse mesmo caminho. Pouca trilha, muito silêncio. Os ruídos diegéticos (a notificação do celular, a porta batendo, o cigarro sendo riscado sem sucesso) ganham protagonismo. Há uma contenção sonora que amplifica o que é não dito. Não há catarse, não há violinos tristes anunciando o drama. A dor é seca, direta, cotidiana.
A atuação acompanha essa contenção. As intérpretes de Bia e Amanda não exageram. Se emocionam sem explodir. Há um cansaço nas falas, como se repetir aquilo tudo — as mágoas, os ciúmes, os ressentimentos — já fosse um roteiro velho. A atriz que interpreta Amanda, em especial, entrega olhares que falam por parágrafos inteiros. É nesse embate contido, nessa tentativa de não ferir mais, que o filme cresce. Lembra muito A Pior Pessoa do Mundo (2021), de Joachim Trier: não pelas formas, mas pelas inquietações. Como seguir com alguém quando nem nós sabemos onde estamos? Como amar alguém que ainda se arrasta pelos escombros de antigas dores?
O gesto de Beatriz é político, sim, mas também profundamente íntimo. Não por acaso, sua fala mais forte não está no vídeo que grava, mas na confissão: ela já sabia da denúncia anterior contra Paula, mas preferiu ignorar. A revelação ressoa não apenas como hipocrisia, mas como confissão de culpa, de omissão, de autossabotagem. Amanda se comove, mas não se ilude. E quando vai embora, deixa um bilhete — que o filme escolheu não revelar. Porque o que mais importa já ficou: o que Bia fez com aquilo que recebeu.
Tente usar a roupa que eu estou usando é um filme sobre desencontro, sobre o momento em que o pedido de desculpa chega tarde demais. É sobre o que fica quando o outro vai embora. Alicia Ferreira constrói um espaço fílmico em que o afeto apodrece em câmera lenta, e é justamente nesse apodrecimento que a narrativa encontra sua força. Doloroso, inquieto, sem saída. Um retrato íntimo da falha em amar — e da impossibilidade de se redimir só.
Leave a Reply