A montagem cinematográfica no filme “Carpina, 11 de Setembro”, de Mery Lemos

Texto: Laís Falcão. Revisão: Beatriz Vilela

Carpina, 11 de setembro, de Mery Lemos, é um filme sobre os desfiles da emancipação de Carpina – um município na Zona da Mata de Pernambuco, no Nordeste do Brasil-, que acontecem anualmente, no dia 11 de setembro. Nesse filme, a montagem cinematográfica é o elemento central.

A primeira parte do curta-metragem alterna imagens, fotografias e recortes de jornais dos desfiles. Nessa sequência, as bandas de fanfarras e marciais antigas em fotografias preto e branco cria um efeito de semelhança com as atuais imagens dessas bandas em colorido: corpos disciplinados, todos homens, rígidos, sérios, marchando enfileirados, e somos remetidas às origens militares dessas bandas nos quartéis. Quando alternada com imagens de pessoas trans jovens com a cabeça erguida, de um garoto negro com o cabelo descolorido e óculos escuros prateados, sapatos coloridos, gera um sentido de contraste entre elas.

A trilha e os efeitos sonoros também fazem referência aos militares e as bandas de fanfarras e marciais, inclusive entoando o coral “a nossa pátria do coração”, e servem para reforçar a escolha política da montagem. A música e alternância de imagens aceleram entre imagens dos pés marchando, aumenta também o ruído, a tensão, até estrondar com o som de baquetas caindo no chão. É quando, na sequência, aparecem em letras garrafais a palavra “emancipar” e seu sentido: “tornar-se independente, libertar-se, eximir-se do pátrio poder”, como um manifesto político.

Então começa a segunda parte do curta, com os desfiles das escolas públicas, usando trajes coloridos, jovens e crianças desfilam, mas também dançam, rebolam pelas ruas, dão espacate, sorriem. Entre eles, mulheres, pessoas LGBTQIAPN+, corpos não-binários, queer, trans, travestis, drags, que representam liberdade. Em seguida, um reforço dos significados da palavra emancipar, depois finaliza com a bandeira de carpina na mão de uma criança.

A escolha das partes do filme, sua sequência e transições com as palavras, fez eu me lembrar de O Encouraçado Potemkin, um filme soviético clássico do cinema, de 1925, e o livro A Forma do Filme (Editora Zahar, 2002), ambos de Sergei Eisenstein, e do livro de mesmo nome de Neal Bascomb, muitas vezes utilizados como leituras introdutórias para entender os elementos cinematográficos do cinema. Isso porque Carpina também pode ser pensado a partir da montagem dialética de Eisenstein, que utilizando contraste de cenas e a montagem métrica (manipulação da duração das tomadas), gera impacto emocional nos espectadores e veicula mensagens políticas.

E a mensagem política que fica ao assistir Carpina é que corpos e pessoas dissidentes se expressando livremente também podem e devem ocupar espaços de destaque no desfile de emancipação de Carpina, e que eles também celebram e parecem se orgulhar de serem carpinenses.

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