
Figura 1, Fonte: Imagem divulgação de Noite Neurótica (2018)
Texto: Leonardo Hutamárty. Revisão: Renilson Ramos
A filmografia de Murate Azevedo, ainda que inteiramente marcada por falta de orçamento, de elencos de não-atores e procedimentos próprios de produções formulaicas, apresenta um universo autoral livre, marginal e singular. Antes de esmiuçar o filme em questão, há que analisar duas obras antecessoras, que compõem a sua trilogia (não oficializada) — A Casa 8 (Dir. Murate Azevedo, 2014), O Perigo Mora Logo Ali (Dir. Murate Azevedo, 2016) e Noite Neurótica (Dir. Murate Azevedo, 2018) —, para compreender a culminância de seu caminho autoral através da presença de certos elementos.
A trilogia expõe uma reflexão sobre a absurdidade, o humor ácido, a instabilidade e a esculhambação, tanto na constituição formal quanto conteudista de cada curta. Com um olhar que perpassa as três obras, percebe-se um fio condutor que articula a exploração da desordem e da improvisação, de pessoas conversando em uma mesa como alicerce narrativo, bem como de uma mise-en-scène que privilegia o desequilíbrio, a estranheza e a tensão cômica. Mas esta crítica irá se ater ao derradeiro curta da trilogia.
Em Noite Neurótica é quando o diretor consolida esse universo, usando elementos da linguagem audiovisual para construir uma unidade estilística que reflete as tensões e neuroses dos seus personagens. Ainda que seja uma comédia dramática, sua mise-en-scène, isto é, o conjunto de elementos numa unidade de sentido, explora a irracionalidade da condição humana pela narrativa e a expressividade e o desalinho pela decupagem (tradução do roteiro em planos), como estratégias de linguagem para representar o conceito psicológico de neurose (ou seja, a desordem de sentidos e movimentos). Daí, rompe com a suspensão da descrença em prol de uma experiência sensorial que supera a lógica convencional, decorrendo a sua declaração estilística.
Figura 2, Fonte: Captura de tela de A Casa 8 (2014)
A trilogia se inicia com A Casa 8, um experimento de terror e comédia trash, onde o diretor inaugura seu universo autoral, esboçando certa estética da desordem e do improviso, que remete ao Cinema Marginal. No filme — com caracterizações histriônicas e uma produção esculhambada, com falhas de continuidade (a exemplo, risadas vazadas) —, três amigos bêbados apostam em uma partida de baralho sobre a mesa, e aquele que perde deve entrar em uma casa mal-assombrada. A narrativa é esse misto de horror e farsa: exageros em todos os elementos, sobretudo, em referências culturais, em piadas, bebedeiras e humor físico. A câmera sempre na mão, em P&B, com planos repletos de sombras e movimentos agressivos (“histéricos”), além da atmosfera onírica e do som descompassado, criam uma sensação de mal-estar que transita entre o grotesco e o lúdico.
Apesar da esculhambação na caracterização, nas escolhas de montagem e com a presença de elementos absurdos — a trilha sonora histérica e o uso de narração em off retirada da dublagem de Ed Wood, 1994, de Tim Burton —, ao final tudo isso se altera, ganhando um ar místico/psicodélico, quando o personagem de Natécio Alves entra na casa mal-assombrada e encontra um fantasma alçando voo. São essas escolhas estilísticas que indicam um distanciamento do realismo em proveito de uma ambiguidade: ora o caos, ora o refinamento cênico e estético. De modo que a obra é uma experiência experimental que brinca com o espectador, borrando a linha entre o sobrenatural e a alucinação instigada pelo álcool, além de nos apresentar uma abordagem que valoriza o inacabado e o improviso como matéria-prima.
Figura 3, Fonte: Captura de tela de O Perigo Mora Logo Ali (2016)
Já em O Perigo Mora Logo Ali, lançado dois anos após ? como um prelúdio de A Casa 8, explorando a origem da lenda da casa mal-assombrada ?, Murate aprimora o equilíbrio entre o contrassenso e a ironia, reforçando o aspecto lúdico e autocrítico da peça cinematográfica. Aqui, a absurdidade é elevada pela fotografia, também em P&B (cuja plasticidade se altera), pela caracterização — quando Luã Gabriel e Diego Luciano sacodem a cabeça ao som de Xuxa, ou quando o personagem de Murate bebe cachaça a bico e língua — pelo desdobramento confuso da decupagem, e pela narrativa, que circunscreve um rapaz azarado (cuja vida já é uma “ladeira abaixo”). O personagem de Murate se queixa da vida, assume as derrotas e os fracassos (doenças, abandono de relacionamento, dificuldades financeiras) com acidez e ironia, enquanto se embriaga com os amigos sobre uma mesa. Ao fazer um ritual secreto no meio do mato (um despacho), para solucionar seus problemas, ele desencadeia eventos que culminam na maldição da casa 8. A obra se apoia em planos fechados e numa montagem que estimula a atenção do espectador para os exageros dos personagens.
A estética trash é proeminente, com falhas de montagem, planos e enquadramentos descompostos, e atuações que beiram o Teatro do Absurdo (pelo exagero). A insanidade é o eixo central, permeada pelo humor corrosivo e esculhambado que ironiza a condição humana. É nessa falta de polidez (que preenche o quadro) que o filme encontra sua unidade estilística: o humor e a crítica ao delírio conspiratório são estabelecidos por meio do uso desconcertante da linguagem. Em razão dos desalinhos técnicos e de roteiro, o filme ganha seu valor. São as caracterizações, especialmente a de Diego Luciano, e a presença do dispositivo na dimensão cênica — as escolhas de segmentação da montagem, a atmosfera nostálgica das animações infantis, a “dança da embriaguez” por José Pinto, e a referência à morte — que enriquecem a leitura neurótica e trágico-cômica da obra.
Figura 4, Fonte: Captura de tela de Noite Neurótica (2018)
Noite Neurótica surge, então, como a culminação dessa declaração estilística. Apesar de ser mais coeso, em razão da montagem, e realizado com mais recursos técnicos, isto é, com menor despojamento formal, Murate leva adiante a ideia de um novo curta caracterizado por movimentos desequilibrados de câmera, luz dura e direta, além de efeitos visuais (de baratas e gabirus) propositalmente artificiais. O roteiro se passa no Réveillon de 1999 para 2000, explorando um acontecimento inusitado numa noite marcada pelo delírio conspiratório. A neurose do título, embora aparentemente deslocada da narrativa, encontra na unidade estilística seu lugar de declaração: a câmera inquieta, com planos expressivos e desajustados, a iluminação cheia de sombras, além de efeitos visuais pouco críveis (o rato enorme sobre a mesa) amplificam a percepção de um estado mental desordenado e alucinatório.
João Henrique (Murate Azevedo) é a típica figura de um conspiracionista, um burguês que bate à porta de seu inquilino Pedro (Diego Luciano), em meio à celebração da virada do milênio, e dialogam (sobre uma mesa) a respeito da vida e de teorias do fim do mundo (Y2K, manga com leite). Há uma atmosfera aconchegante, pacífica e cativante — nos intervalos silenciosos da montagem nos três filmes, ou nas cenas em que José Pinto assiste Pica-Pau na casa 8 (em O Perigo Mora Logo Ali). A neurose não é tratada literalmente pelos personagens, mas sempre articulada como representação a partir do dispositivo. Nesse sentido, Murate busca suscitar, através da linguagem, uma estética caricatural da instabilidade psíquica dos personagens. E o filme constrói uma tensão crescente, usando o contrassenso como motor narrativo e cômico (e como crítica ao conspiracionismo delirante), para superar o realismo por meio de uma caracterização descompromissada com o pacto ficcional clássico.
A escolha por uma fotografia marcada por fortes sombras e contrastes, que remete à tradição do film noir, não apenas cria uma atmosfera de paranoia como também intensifica a percepção de desordem geral que permeia a minitrama. Os efeitos visuais (CGI), por Lucas Santana, embora amador, contribuem para esse ambiente de “surrealismo”, adicionando ao cenário elementos que se fundem às ideias absurdas e crescentes de João Henrique. E a paranoia deste personagem vira tragédia à medida que se desdobra a narrativa, culminando em um desfecho absurdo e surpreendente, ao mesmo tempo que cômico e inevitável. A mise-en-scène parece convidar o espectador a mergulhar numa neurose performática a partir da absurdidade. Ou seja, a instabilidade formal, que alicerça a atmosfera de desconforto e humor ácido, estimula e falseia a percepção.
Para mais, a montagem buscou enfatizar esse caráter neurótico mediante cortes secos e frenéticos, sobretudo na introdução do filme. A decupagem sobre a trilha sonora, com a sinfonia In the Hall of the Mountain King, em mixagem com Strangers in the Night, de Sinatra, contribui para um ambiente de tensão sensorial e comicidade, elevando a sensação de descontrole que caracteriza o protagonista. A irracionalidade, mais que elemento cômico, funciona aqui como uma estratégia para expor as fissuras da vida situacional, a fragilidade das relações e a tensão entre o controle e o descontrole.
Ao considerar o último filme da trilogia aqui supracitado, é possível compreender o projeto de Murate como um olhar sobre o caos — estético, narrativo e existencial — e sua capacidade de gerar uma experiência audiovisual que desafia a sua própria ideia de cinema (do filme formulaico). A morte de João por ingerir veneno, ao final, amarra com ironia o percurso trágico da narrativa, reforçando a ideia de que a crença cega em ideias de teor absurdo, quando levada ao extremo, gera sua autodestruição. Daí, a mise-en-scène se concretiza com a neurose que consome o personagem, fechando com coerência o ciclo de caos e nonsense que o diretor pretendeu encenar.
Noite Neurótica, portanto, marca um avanço expressivo na filmografia de Murate Azevedo, enfatizando o seu compromisso com a experimentação da linguagem. É um filme que, mesmo com suas falhas técnicas, evidencia um domínio sabido da narrativa audiovisual e um flerte bem-sucedido com a absurdidade como conceito crítico e humorado. A linguagem fílmica amadurecida, aliada a uma proposta estética já consolidada, revela um cineasta inventivo, exercitando com audácia a liberdade e a autenticidade artística.
Com a trilogia, Murate não só reafirma sua identidade autoral, mas propõe um convite ao espectador: aceitar o desequilíbrio, o erro e a imperfeição, enquanto abraça o improviso e a comicidade mordaz. Esses elementos fazem do curta em questão não apenas a culminação de um trajeto, mas uma obra rica em camadas — um filme que se permite conduzir e ser conduzido pela própria neurose. Por isso, suas obras se abrem a múltiplas leituras, onde a neurose que transcorre a trilogia transforma o cinema em um objeto de loucura descarregada (sem catarse), onde o absurdo, o surreal, o humor ácido ou esculhambado e a tensão dramática coexistem para reelaborar o caos e as fissuras da condição humana.



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