
Texto e imagens: Laryssa Andrade. Revisão: Larissa Lisboa.
O terceiro dia da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano, realizada no Arte Pajuçara, reafirmou o tema Trama Alagoana como um campo vivo de encontros, tensões e fabulações possíveis sobre o cinema feito no estado. A programação da sexta-feira (12/12) se desenhou como um percurso que começou pela pesquisa, atravessou experimentações paralelas e culminou na mostra competitiva de curtas, evidenciando diferentes modos de pensar, produzir e sentir as imagens em Alagoas.
Abrindo o dia, a mesa Cinema & Pesquisa reuniu Beatriz Vilela, Marcelo Ikeda, Tatiana Magalhães e Roseane Monteiro em uma conversa que destacou a pesquisa como prática indissociável da criação cinematográfica. Durante o encontro, cada pesquisador compartilhou perspectivas sobre como os filmes nos atravessam e o que podemos fazer a partir deles. Entre metodologias, vivências acadêmicas e experiências sensíveis, o debate apontou para a importância de pensar o cinema para além do produto final, valorizando também o papel das políticas públicas na criação e organização de dados, em livros digitais e impressos, e na salvaguarda das imagens por meio de projetos cineclubistas e de formação de público. Nesse contexto, foram lembradas obras fundamentais como Pelos caminhos do cinema alagoano contemporâneo (2025), organizado por Beatriz Vilela, Maria Viviane de Melo e Roseane Monteiro, e Cinemas de rua (2025), de Beatriz Vilela, ambos lançados durante a 11?ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, e frutos de vivências e investigações que ajudam a compreender como as imagens alagoanas se constroem, circulam e se perpetuam. A mesa reforçou, assim, a importância das mostras e das salas de cinema como espaços de pensamento crítico e de memória.
Na sequência, a Mostra Paralela de Curtas, sessão Verso da Trama, ampliou o entendimento sobre a proposta curatorial desta edição. Os filmes Baka Kariri-Xocó (dir. André Leão, 2025), Feira de Ibateguara (dir. Luana Verçulino, 2024), Deficiena (dir. Bruca Teixeira, 2025), Álbum do Bebê (dir. Vitória de Alencar, 2025), Todos os Homens da Magazine (dir. Otávio Santana, 2025) e Márcia e a Cabeça do Divino (dir. Dário Jr., 2025) revelaram uma diversidade de temas, formatos e olhares que transitam entre o documental, o híbrido e a ficção. Juntos, compõem um mosaico de territórios, memórias, corpos e narrativas que insistem em existir e ser vistas. A apresentação e o debate, mediados por Marina Bonifácio, reforçaram a importância desses espaços de escuta, onde os filmes seguem reverberando para além da tela.
Os filmes evidenciaram o lugar e o outro como símbolos centrais das narrativas. Baka Kariri-Xocó, Feira de Ibateguara e Márcia e a Cabeça do Divino evocam a territorialidade como eixo das tramas, onde o reconhecimento dos espaços e das pessoas se dá como forma de estar no mundo, destacando culturas, cantos e caminhos. Em Álbum do Bebê, a autoficção evidencia o gesto materno do registro escrito e fotográfico, ressaltando o que a imagem pode significar ao permanecer viva trinta anos depois. Deficiena propõe novas perspectivas para histórias, corpos e modos de existir a partir da vivência de pessoas com deficiência. Com uma direção de arte sensível, o filme aguça nossos sentidos para perceber como cores, sons e espaços sublinham as existências, trazendo uma mensagem urgente sobre (e para) a vida. Já a ficção Todos os Homens da Magazine se constrói de forma sarcástica ao abordar casas de jogos e suas consequências, refletindo sobre a hipocrisia que atravessa figuras e o universo das bets.
À noite, a Mostra Competitiva de Curtas, sessão Terra Sem Nó, reuniu seis obras que tensionam diferentes registros do cinema contemporâneo produzido no estado. Tapando Buracos (dir. Pally e Laura Fragoso, 2025), Logger (dir. Paulo Silver, 2025), Bolacheiras (dir. Luiza Leal, 2024), Santo Errado (dir. Daniel Ricardo, 2025), Crônicas Sobre os Cinemas de Bairro (dir. Beatriz Vilela, 2025) e O Primo Holandês (dir. Nuno Lindoso, 2025) abordam, cada um à sua maneira, questões que atravessam o cotidiano, a memória, o trabalho, a cidade e as relações humanas. O conjunto da sessão evidenciou um cinema atento às contradições do presente, capaz de articular crítica e sensibilidade, observação e invenção.
As narrativas sobre si se destacaram em Logger, Bolacheiras e Crônicas Sobre os Cinemas de Bairro. Paulo Silver retorna à Mostra Sururu anos depois, registrando seu entorno e o cotidiano cinematográfico em um ritmo próprio, já reconhecível em obras autorais como Tipóia (2018) e Retina (2015). Parafraseando Roseane Monteiro na mesa realizada mais cedo, “a gente se olha, se reconhece”, parece sintetizar a curadoria da noite: se Paulo parte de si, de sua esposa Larissa, de sua mãe Jande e de seus amigos para (re)conhecer o seu mundo, Luiza Leal evidencia que ser bolacheira transita entre o político e o histórico, a partir das histórias e afetos protagonizados por Rosa Mossoró e Cármen Lucia Dantas, figuras essenciais para leituras queer e feministas da memória urbana e cultural maceioense. Beatriz Vilela, por sua vez, nos conduz por caminhos urbanos a partir de vozes e relatos íntimos que resgatam os cinemas de bairro, aliados a um cuidadoso trabalho curatorial de arquivos fotográficos sobre uma Maceió e seus cinemas, reiterando algo que não deve ser esquecido: o cinema é cultura, o cinema é memória.
Do lado ficcional, mas atento aos muitos nós do real, Tapando Buracos escancara temas como a pobreza menstrual e a ausência de uma cobertura digna e efetiva, mesmo diante da existência de programas sociais voltados ao tema. O direito à moradia aparece em O Primo Holandês, de Nuno Lindoso, com a participação essencial de moradores da Vila Emater, especialmente das trabalhadoras da Cooperativa dos Catadores da Vila Emater (Coopvila), que compartilham suas lutas por dignidade frente às injustiças cotidianas. Em Santo Errado, de Daniel Ricardo, a ficção se mistura à fé e ao desejo em uma trama envolvente, onde o feitiço parece encontrar quem assiste.
Encerrando o terceiro dia, a Mostra Sururu reafirma seu papel como lugar permanente de articulação entre exibição e encontro, onde as muitas camadas do cinema alagoano se cruzam e se fortalecem mutuamente. A “trama” proposta pelo tema da edição se apresenta como um tecido em constante construção, feito de fios diversos: as pesquisas, os filmes, os debates que seguem se entrelaçando a cada novo ano.


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