[Cobertura] Nas águas do último dia da 16ª Mostra Sururu

Texto e imagens: Laryssa Andrade. Revisão: Larissa Lisboa.

O quarto e último dia da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano aconteceu no sábado (13/12) com a exibição de videoclipes e curtas-metragens. Ao longo da programação, a imagem se colocou a serviço do som e o som, por sua vez, revelou histórias, afetos e territórios que constroem a cena musical alagoana contemporânea. Entre as mostras competitivas de clipes e a sessão noturna de curtas, o dia evidenciou esse mar de imagens e a importância do fazer coletivo nas produções locais, reafirmando o cinema como espaço permanente de celebração.

A tarde começou com a Mostra Competitiva de Clipes, na sessão Trama de Clipes 1, reunindo obras que destacam a musicalidade alagoana em diálogo direto com suas origens e narrativas pessoais. Clipes como Campineiro (Mestre Gama, 2024), A Rua é o Corre (Huná, 2025), Carta Aberta (Allê, o SANTO, 2025), Eu Ñ Quero Reggae Com VC (Janu, 2025), Da Janela pro Quintal (Nigros, 2025), Máquina do Tempo (Risel, 2025) e Mar Ia (Vitor Pirralho, 2024) apresentaram diferentes linguagens visuais e sonoras, transitando entre o popular, o urbano, o íntimo e o ancestral. As obras evidenciaram a música como extensão da vida cotidiana, do território e das experiências individuais e coletivas, criando imagens que não apenas ilustram canções, mas constroem sentidos próprios a partir delas.

“Quando a gente escreve uma canção, a gente dá um pedaço da gente.” A fala do artista penedense Allê, autor do videoclipe Carta Aberta, sintetizou o espírito da primeira parte do debate vespertino da Mostra Sururu. Realizadores falaram sobre seus processos criativos e destacaram a importância das leis de incentivo para a construção e a visibilidade das músicas, além do olhar coletivo dos diversos profissionais envolvidos nas obras apresentadas. Esse caminho também evidenciou como as políticas públicas funcionam como sementes para festivais, oficinas e formações que impulsionam artistas a lançarem suas ideias na cena local.

Na sessão Trama de Clipes 2, exibida no fim da tarde, a diversidade estética e temática seguiu se expandindo. Clipes como Meu Canto Nesse Mundo (Eduardo Pereira, 2025), Semente (Mel Nascimento, 2024), Pra Quando (Lugar Algum, 2025), É Como o Céu Quando Você Me Toca (Maria Clara Tenório, 2025), Carrego (Quiçáça, 2025), Inescrupuloso (Pisico, 2025) e Toada a Galope (Mago Véio, 2025) reforçaram a canção como espaço de afirmação de identidades, afetos e pertencimentos. A relação entre som e imagem se apresentou de forma múltipla: ora mais performática, ora mais narrativa ou sensorial, sempre atravessada por referências aos lugares de origem, às vivências e às histórias que moldam essas produções.

Do estúdio às comunidades, os videoclipes motivaram a plateia a questionar sobre o que os realizadores desejaram transmitir por meio de suas visualidades. “Ver a música entendendo-a como imagem” foi uma das respostas que emergiram, abrindo diálogos sobre estéticas técnico-afetivas, sensações nostálgicas expressas em planos, cores e ritmos, marcando a troca entre público e produção neste ano musical da Sururu.

À noite, a Mostra Competitiva de Curtas, na sessão Rede N’Água, reuniu seis filmes que dialogam diretamente com temas como memória, identidade, infância, trabalho e território. Alice (dir. Gabriel Novis, 2025), Guia (dir. Tarcísio Ferreira, 2025), Maninho (dir. Aloisio Correia, 2025), Coisa de Guria (dir. Gisela Lima Conti, 2025), Deyse Ex Machina (dir. Jasmelino de Paiva, 2025) e O Mapa em que Estão os Meus Pés (dir. Luciano Pedro Jr., 2025) compuseram uma sessão marcada por narrativas sensíveis e olhares atentos às relações humanas e aos espaços que habitamos, navegando entre o documental e a ficção em modos singulares de crítica e invenção.

Personagens, direção e produção se entrelaçaram em águas metafóricas: dentro, sobre e diante do mundo. A sessão se iniciou com Alice, de Gabriel Novis, que retrata a trajetória da multiartista trans alagoana em seu encontro com o mar, atravessado também pelo reencontro consigo mesma e pela morte do pai. Sensível, poético e imenso, o filme se expande como as águas que o atravessam.

Em O Mapa em que Estão os Meus Pés, Luciano Pedro Jr. refaz o trajeto percorrido por seu avô. O diretor compartilhou durante o debate que o filme, inicialmente pensado como um documentário tradicional, logo se transformou em uma carta — escrita apenas após o processo de filmagem. Esse gesto familiar evidencia como cada obra provoca sentidos particulares em quem assiste. “Como a sociedade encara os desejos da pessoa idosa?”, questionou Luciano, fazendo do percurso filmado um convite para refletirmos também sobre nossos próprios caminhos. Caminhos que se estendem em Coisa de Guria, quando Gisela Lima Conti, a partir de uma fotografia de infância, discorre sobre seu cotidiano escolar, seus amigos e sua família, entregando uma autoficção inteira de si. Como uma única imagem pode dizer tanto sobre quem somos? Saí da sessão me perguntando, feliz e certa, da grandiosidade do cinema em provocar e mover.

Esse compromisso de incentivo também atravessa Guia, que narra a história de uma família marcada pela perda visual e pela luta de um casal para garantir à filha, diagnosticada com miopia, o acesso à cirurgia de correção com implante de lentes. O filme se constrói a partir do ponto de vista da criança, que, com a câmera em mãos, tateia seu mundo em planos que vão do céu ao chão, das frutas à casa e, novamente, ao mar. A obra ganha ainda mais força ao ser exibida no dia de Santa Luzia, padroeira da visão, e no Dia Mundial da Pessoa com Deficiência Visual, evocando a certeza de que há um olhar que nasce do coração.

As ficções Maninho e Deyse Ex Machina apresentam movimentos narrativos distintos, mas se destacam igualmente pela invenção. Enquanto o primeiro constrói uma sensação de suspensão do tempo, um tempo que demora a passar, em planos longos, abertos, quase incômodos, porém contemplativos, Deyse Ex Machina acompanha um único dia da protagonista: o ritmo acelerado, a angústia, o trabalho, os tropeços e, por fim, aquilo que ainda ilumina, em câmera lenta.

Nos despedimos das exibições da 16ª Mostra Sururu percebendo as canções e as imagens em movimento como linguagens que se unem para contar histórias nossas e do outro. Vimos um conjunto de produções diversas e profundamente conectadas às suas origens, do agreste ao sertão, do sertão à capital. Essa é, afinal, a nossa verdadeira trama.

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