Crítica: Tapando Buracos (dir. Pally e Laura Fragoso)

Texto: Érica Pontes Teodoro. Revisão: Cleber Pereira

Tapando Buracos inicia com a câmera acompanhando a personagem andando de costas, primeiro mostrando seus passos e, aos poucos, vai revelando seu ombro. Por enquanto, não se preocupa em lhe atribuir uma identidade ou um sentido imediato à sua ação, apenas provoca um olhar de curiosidade sobre aquela personagem que é apenas um corpo. Ainda sem mostrar seu rosto, vemos a personagem abaixada, apoiada em seus pés. Com as pernas abertas, ela modela um miolo de pão e coloca dentro de si. O espectador lança seu olhar que invade a intimidade dessa protagonista, uma garota que parece não querer ser desvendada, mas que aparentemente não tem alternativa a não ser aceitar essa presença que persegue seu corpo.

Nos momentos seguintes, esse olhar que incomoda, persegue e aprisiona não vem mais de um voyeur invisível, mas sim dos homens do filme. Apesar das imagens mostrarem uma protagonista que não quer se submeter a esse olhar, muito menos se justificar, o texto parece traí-la com diálogos que desacreditam da capacidade narrativa do que é colocado em tela ou da inteligência do espectador em compreender esses outros elementos além da fala expositiva.

O potencial da imagem tem um de seus auges quando a protagonista, Rosa, aceita entrar num dos carros que passam pela estrada em que ela trabalha. É quando a violência fica mais latente, quando a câmera reforça ainda mais essa sensação de aprisionamento: não a vemos mais centralizada através dos vidros do veículo, mas sim por dentro dele, enclausurada agora pelo teto do carro e seus vidros fechados, junto ao corpo do motorista. Vivendo em um espaço em que tudo que lhe é apresentado é violência, especialmente pelo processo de se tornar mulher, a personagem parece não ter alternativa possível além de irromper pela revolta, de se apropriar da violência como única forma de existir naquele espaço.

É uma pena que os diálogos excessivos não consigam acompanhar a força narrativa do que é colocado ali, com um discurso muito expositivo e que nessa cena nem sequer acompanhe a linguagem utilizada ao longo de todo o filme. Se inicialmente a ambientação não convence por ter seus holofotes em uma protagonista caricata que parece não existir naquele espaço e, além disso, ainda envolver a obra em uma estética da miséria; nos momentos finais, a estranheza vem do oposto. Os diálogos incomodam por parecer emular as produções sudestinas no que há de pior ao retratar personagens nordestinos e carentes, mas de repente a protagonista dispara um (longo) discurso pronto que mais parece uma postagem escrita de uma ávida fã de Mulheres que correm com os lobos. Não é uma virada de chave na percepção sobre a protagonista, é apenas mal feito, dissonante e tenta tanto gritar uma mensagem que acaba retirando muito de seu potencial, que conseguiria ser bem melhor aproveitado usando menos.

A relação das personagens com o processo de ser mulher e o que significa ser vista/desejada pode ser percebida a partir de Janaína, irmã de Rosa. Janaína interage com um homem que mora no mesmo espaço em que elas, e sua relação com ele agrega bastante ao que o filme tenta trazer também com sua protagonista. Apesar de Janaína demonstrar interesse pelo personagem, até certo ponto, suas interações parecem o tempo todo uma experiência conflituosa. O mesmo olhar que “admira”, que deseja, é o mesmo que também a oprime, a enclausura e que parece não estar lá muito interessado em sua agência. A atuação de Gabriela Cravicanela tem sucesso em trazer essas nuances. Nem o espectador nem a personagem têm certeza se a vontade dela é um “sim” ou um “não”, pois como sustentar um possível desejo quando seu objeto é incapaz de humanizá-la como mulher? Ainda sobre a atuação, é possível perceber que Gabriela Cravicanela consegue (com muito esforço) se safar da pobreza do texto que quase ridiculariza sua personagem, o que não é necessariamente algo positivo para o filme, pois contrasta ainda mais com a atuação da protagonista. Essa, por sua vez, reforça ainda mais a artificialidade do que é dito e dá ao curta um ar de caricatura.

 A sensibilidade da narrativa ao pensar o feminino até encanta, com lampejos de inspiração encontrados nas imagens criadas, mas são sabotados pelo texto que implora para ser compreendido por completo, sem espaços para nuances. Tapando Buracos termina com um sabor agridoce que, apesar de suas falhas, ainda nos instiga para as próximas produções da dupla de diretoras Pally Siqueira e Laura Fragoso, especialmente pensando em uma abordagem feminista que não tem medo de soar desconfortável.

Por Érica Pontes Teodoro, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano

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