
Texto: Matheus Olegário. Revisão: Cleber Pereira
A trilha sonora de Movimento Perpétuo parece ser tirada de um épico de ficção científica. É arrasante, impactante, chamativa, barulhenta, gostosa de se ouvir e tem a missão de conectar o estilo de documentário com os elementos mais fantasiosos do filme. Parece ter sido feita com cuidado, muitas referências e vontade de marcar o primeiro longa arapiraquense – e consegue – é o ápice, aqui. Uma pena que o que se vê em tela não chegue a 1% da empolgação e vivacidade daquilo que se ouve. Visto que os apontamentos aqui são justamente o que faltam na imagem, que procura abraçar o esquisito, mas com pouca criatividade em todas as camadas da obra.
Documentário, ficção e metalinguagem se misturam no filme. Do primeiro, parece que foi selecionado o que há de mais sem graça no gênero: personagens posando para câmera em paisagem, diálogos montados, planos pouco expressivos, e o pior de todos: o excesso (ou vício, talvez) de câmera detalhe estática em elementos do cenário com o intuito de ambientar o espectador de forma “íntima”, mas que parece uma apresentação de slides, daquelas que a equipe de arte faz para mostrar ao diretor. Esses costumes do estilo documental usados aqui, atrapalham quando o filme parece querer ir por um lado mais fantasioso. Como por exemplo, na cena em que o seu Edvaldo, por algum motivo, pega uma lanterna, ou na que o Mago Véio usa a guitarra. São momentos que dão a impressão de “vem aí”, mas continuam engessados e inexpressivos.
Embora esses dois gêneros possam se atropelar nas imagens, narrativamente o arco do cometa se conecta bem com a história do protagonista, que até então só conseguiu mostrar um pouco de seu carisma, ao dar mais nuances e sentimento para ele, o que a parte puramente documental não conseguiu fazer. O mesmo não se pode dizer dos outros personagens (Mago Véio e Letícia), que foram colocados naquele cenário por motivos até agora desconhecidos. Foi dito pelo diretor que o cometa verde foi adicionado depois à história, mas o que parece mesmo ser um anexo é a parte que vai para a metalinguagem, que quer a todo custo adicionar mais uma camada para o filme, sem sucesso.
O clímax aqui é a cena do cometa verde de inteligência artificial, que rende momentos interessantes, como essa figura no peito de Edvaldo e o final dele. Mas a falta de ambientação prejudica o impacto, a interação dos personagens com o objeto espacial está resumida a eles parados numa mata escuríssima olhando para cima. Enquanto isso, a trilha chega em seu momento mais alto e grandioso. Em outras situações poderia se dizer que ela absorve a atenção da cena (e do filme) para ela, mas aqui não há muito do que absorver, então apenas brilha sozinha.
Por Matheus Olegário, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano
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