Crítica: Sessão Maresia Emaranhada (16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano)

Texto: Matheus Olegário. Revisão: Cleber Pereira

Dia 11 de dezembro de 2025, ocorreu a sessão Maresia Emaranhada, na Mostra Sururu. A seleção de filmes para esse dia parecia ser um tanto heterogênea, considerando os já conhecidos em Maceió e a sinopse dos inéditos. Mas eles se encontram na forma sincera, transparente e direta em que contam suas respectivas (e sim, bem diferentes) histórias. 

Esses são os fatores que mais encantam na cena inicial de Ainda escuto o céu embaixo d’água (dir. Alice Lovelace, Céuuva, Kalina Flor, Lua de Kendra, Marina Bonifácio, Morgana Neves, Nara dos Santos, Pérola Negra e Samantha de Araújo). Ela se concentra numa mesa de bar/quintal onde as personagens conversam sobre seus sonhos enquanto travestis. São falas que não têm receio de apenas colocar pra fora o que pensam e estão sentindo, enquanto o “comum” seria realizar diversos rodeios para isso. Ainda é posto a todas terem seu momento de fala, uma de cada vez, e apesar de artificial, demonstra que o filme abraçou essa forma direta e criou sua própria organicidade. E além desses sentimentos externalizados, nas cenas seguintes há um transporte para o interior, ao criar imagens marcantes que se relacionam com espiritualidade e sonhos. Embora inicialmente perca força narrativa para dar espaço a performance corporal, seu impacto é recuperado com o forte poema recitado.

Já os documentários Manto Jaguriçá (dir. Celso Brandão e Aldemir Barros) e Maceió é Massacrada (dir. Vivian Drielli), se apresentam de cara como o que realmente são: uma denúncia. No primeiro, há um discurso forte e emocional por meio das palavras, com as falas do protagonista passando por diversas camadas, nuances e sentimentos, mas que as imagens em tela nem sempre as acompanham de fato. Há algumas fotografias que enchem os olhos, com paisagens bonitas, expressivas e até lúdicas, mas são subutilizadas. O momento mais marcante é quando o personagem realiza seu protesto diretamente para a câmera, enquanto a direção não esconde o microfone ou a câmera. Aqui, a obra mostra a sua força política enquanto cinema, ao demonstrar uma sinceridade para além de falas. Já no outro documentário-denúncia da noite, há um grande interesse em seguir, ainda mais, o modelo formal do gênero: com imagens de arquivo, vídeos de jornais e moradores, mapas desenhados, entrevistas e até a não-limitação a uma só temática. Mas sua qualidade está quando as personalidades dos realizadores se sobressaem perante tudo isso, como a relação e o carinho com a pixação, os óculos estilizados na conversa sobre crimes ambientais, e o deboche na montagem ao intercalar certas entrevistas (em que os entrevistados não devem nem saber no que entraram). Nesses momentos, o filme, além de se tornar mais envolvente, mostra sua alma.

Já nas ficções, Tumulto (dir. Yuri Melo) segue o caminho da artificialidade estética junto com as explícitas inspirações em filmes de terror adolescente americanos sem medo algum. Embora a narrativa crie mais tensões do que conclusões de fato, a caracterização, fotografia e direção fazem pulsar o frescor e juventude de sua equipe, e a vontade de explorar o gênero em terras alagoanas de forma cada vez mais diferente do estrangeiro. Nesse caminho, Ajude os Menor (dir. Lucas Litrento e Janderson Felipe) também usa e abusa da estilização do faroeste em contexto local: entradas triunfantes, trilha sonora chamativa e closes nos rostos para construir a tensão que a qualquer momento pode explodir. Com esses elementos saltando a tela e escancarando suas reais referências já nos primeiros minutos, o filme mostra que não tem receio de andar na linha entre homenagem e paródia, e é isso, somado ao carisma dos personagens e diálogos alinhados com a realidade, que o torna tão rico. Enquanto os filmes dos outros parágrafos são sinceros e diretos em suas narrativas e “mensagens”, a sinceridade de Ajude os Menor está na forma e estilo de contar suas histórias, ao explicitar suas “fontes” e incorporá-las.

Por Matheus Olegário, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano

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