
Texto: Gabriela Ribeiro. Revisão: Cleber Pereira
O curta-metragem de Pally Siqueira e Laura Fragoso começa com uma cena pitoresca e desconfortável. Uma menina que parece pré-pubescente troca o absorvente de forma precária, entre as folhas secas do sertão, usando um pedaço de pão e uma linha de costura para improvisar um absorvente interno. Demora até entendermos que aquela menina não é uma criança, mas uma mulher de cerca de 18 anos ou mais. O plano inicial induz ao erro ao cortar sua cabeça para fora do enquadramento e insistir em um corpo ainda sem marcadores femininos evidentes. Ela e sua amiga, da mesma idade, passam os dias cavando e descavando buracos para arrancar alguns trocados de quem cruza aquela estrada. Exploradas, famintas, humilhadas e sem perspectiva de futuro, não demora para que Rosa, personagem principal interpretada por uma das diretoras, aceite um programa com um homem que oferece a possibilidade de “fazer um extra”.
Alguns diálogos são excessivamente expositivos, como a fala proferida pelo misógino declarado, assim que Rosa entra no carro: “Se eu tivesse uma filha puta, eu matava.” O que parecia a continuação de uma narrativa de poverty porn à la Mondo Cane, se transforma rapidamente em uma cena de vingança digna da franquia Doce Vingança. Rosa passa a vocalizar, de forma igualmente literal, a repulsa masculina diante do sangue da menstruação e a excitação sexual provocada pela violência. Ela chama o agressor de porco, o obriga a engolir o absorvente usado, gesto que remete diretamente à Anatomia do Inferno, de Catherine Breillat, e rouba sua carteira e seu celular. O homem foge aterrorizado.
O filme possui potencial, isso é inegável. Propõe uma versão sertaneja de MeninaMá.com, algo raro dentro do cinema brasileiro recente. O problema não está na premissa, mas no uso pouco interessante do tempo. O problema central de Tapando Buracos é acreditar que intensidade temática substitui rigor narrativo. Sangue, miséria, misoginia e vingança não são automaticamente cinema potente. Sem controle formal, viram barulho. O curta quer denunciar pobreza, machismo, racismo, violência sexual e ignorância estrutural ao mesmo tempo, e acaba diluindo o impacto de cada uma dessas frentes. Falta confiar nas imagens e menos na legenda falada pelos personagens. Falta silêncio. Falta tempo morto que incomode em vez de reiterar o óbvio.
O curta também se propõe a oferecer um desfecho que parece resolver problemas que as próprias personagens reconhecem como estruturais. O plano final das duas caminhando em direção ao horizonte, felizes por terem conseguido um celular e alguns trocados, soa idealista no melhor dos casos e ingenuamente conciliador, no pior. A protagonista, Rosa, não amadurece. Ela se transforma em um cartaz ambulante de revolta. O rape revenge funciona como catarse imediata, mas não como consequência orgânica da narrativa. O filme não fracassa por falta de coragem, mas por excesso de ansiedade. Quer ser denúncia, gênero, manifesto e poesia suja do sertão ao mesmo tempo. Poderia ser tudo isso se escolhesse melhor onde apertar e onde soltar. O curta não precisa gritar tanto. A ferida que ele aponta já está aberta.
Ainda assim, Tapando Buracos possui espinha dorsal, vontade e iniciativa. Talvez eu seja suspeita ao dizer isso por ter apreço por final girls histéricas, cobertas de sangue, que triunfam após sobreviver por pouco à violência que as molda. Nesse sentido, o curta é paradoxalmente mais honesto e mais autoral do que a maioria dos filmes da mostra. Espero ansiosamente pelo próximo trabalho das realizadoras. Há ali uma possível dupla de herdeiras ilegítimas de Coralie Fargeat e Julia Ducournau, desde que as cineastas abandonem a tentação de ser Sebastião Salgado e a insistência, curiosamente masculina, em explicar tudo e controlar a forma como o filme deve ser percebido. Quando abrirem mão de gerar consenso e de receber aplausos pelo que o filme representa, e passarem a aceitar que o filme seja julgado pelo que ele é, acredito que estarão no mesmo patamar de cineastas femininas que fizeram a diferença. Para isso, será preciso abandonar o falicismo, superar a estética da miséria de Vidas Secas e adotar um olhar não menos grotesco, mas menos totalizante, algo mais próximo de uma Diane Arbus do agreste. As realizadoras já beberam da fonte dos homens. O próximo passo é superá-los. Afinal, quando estamos em guerra, não é de praxe beber o sangue dos nossos inimigos?
Por Gabriela Ribeiro, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano
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