Crítica: Tapando Buracos, Bolacheiras e O Primo Holandês

Texto: Ari Denisson. Revisão: Cleber Pereira

Não é fácil denunciar opressões históricas por meio da arte. Ao menos, não de uma maneira realmente impactante. E o segundo dia da Mostra Sururu nos apresentou várias possibilidades nesse sentido. Começamos com Tapando Buracos (dir. Pally e Laura Fragoso), onde as diretoras lançam um libelo pela dignidade menstrual. Somos logo de cara apresentados a uma sertaneja “arretada”, de faca na mão, no sépia do sertão, tentando conter sua menstruação com miolo de pão (que ela abre com a faca em vez da própria mão). É uma das cenas mais impactantes do filme, junto ao final, onde o pão aparece, digamos, “renascido”. Não soa verossímil, no entanto, uma jovem que não tinha dinheiro nem pra comprar um absorvente dizer pro motorista estuprador Deus-Pátria-Família algo como “a gente sabe que esse mundo é dos homens”. Agora, “vai-te embora, que eu te capo aqui mesmo”, essa sim, sozinha já diria muito! Inclusive o motorista é um personagem sobre o qual aprendemos mais com direção de arte do que com suas falas propriamente ditas: bandeirinha do Brasil na janela, bíblia evangélica sobre o painel, um adesivo “Os fortes creem em Deus” no mesmo painel… Não foi preciso colocar uma fala do tipo “Viva Bolsonaro!”, ou mesmo elas falando “olha lá, aposto que é um hipócrita de extrema-direita” para chegarmos à conclusão de que ele é um hipócrita de extrema-direita! Junto a ele, o dj deveria ser também uma das representações de como o patriarcado estraga os homens, mas ele é tão inofensivo… A outra jovem, mais suscetível às pequenas “tentações” do sistema (uma delas o próprio dj cafajeste e seu som de “blutufe”; outra é o tão sonhado “cerular”), soa um pouco mais verossímil, tanto como personagem como enquanto texto. Falando em texto, é a excessiva confiança nele que diminui o impacto da história, como se ela não pudesse ser compreendida e sentida sem as falas literais sobre o fenômeno aqui ressaltado.

O meio da sessão consegue falar de opressão e resistência feminina num formato de doc tradicional, porém, explorando algumas possibilidades cômicas. Em Bolacheiras (dir. Luiza Leal), a museóloga Carmen Lúcia Dantas e a empreendedora cultural e figura icônica da noite maceioense, são personagens convidadas a traçar os caminhos rumo a uma possível origem desse termo, originalmente depreciativo, que designava as mulheres lésbicas, e que só se usava em Alagoas. A diretora Luiza Leal, uma pessoa que adota Alagoas como seu lar, inquieta-se com a palavra e decide mergulhar nessa aventura em busca de uma boa história. Ambas as personagens são espirituosas o suficiente para que ela ponha uma câmera diante delas e veja a mágica acontecer. Interessante notar como duas vivências lésbicas da maturidade são confrontadas: Carmen Lúcia é uma mulher branca, vinda da academia, e pode-se perguntar com perplexidade como é que as pessoas condenam o amor entre duas mulheres, considerando o recrudescimento de uma lgbtfobia desavergonhada em nosso país. Já Rosa é uma mulher negra, e o testemunho da violência entre pessoas próximas, em cuja defesa ela relata ter ido, por vezes, enfrentando a polícia em tempos de repressão ditatorial, e as quais, em outras vezes, decide acolher em sua residência. No entanto, como duas sobreviventes, ambas podem, enfim, permitirem-se contar essa história com certa leveza e brejeirice. Mas não podem contá-la toda: uma das primeiras “bolacheiras” seria uma mulher distinta, da alta, e não poderia ter sua orientação sexual exposta dessa maneira. Então a história circula furtiva, num segredo de “fanchonaria”. E é inevitável soltar um riso coletivo e reconfortante ao ver Carmen Lúcia ser inquirida se é também ela uma bolacheira, e ela responder “Sou bolacheira, convicta!”. A cena pós-créditos, com ela falando quão gostosas são duas bolachas com manteiga e juntando as mãos (como duas bolachas batendo, uma na outra), termina de nos matar de rir. o documentário nos mostra como a fofoca pode funcionar como uma estratégia de sobrevivência num contexto em que nem tudo pode ser dito ou feito publicamente.

O Primo Holandês (dir. Nuno Lindoso) encerra a mostra do dia fazendo duas coisas que o cinema daqui tem muita dificuldade em fazer bem: denunciar opressões visíveis na nossa sociedade e desenvolver bem uma narrativa ficcional. O filme se situa no momento em que o antigo lixão da cidade, no bairro praiano da Jacarecica, é desativado e dá início a uma disputa fundiária, na qual entram as então catadoras, que viriam a formar a Coopvila. A cena em que elas aparecem derrubando o muro do lote que reivindicam tem bastante força. Todos os personagens soam verossímeis, e a obsessão dos supostos laços de sangue com a Europa dentro do nosso arremedo de branquitude é trabalhada de maneira bem convincente. A cena em que o protagonista está com a namorada em seu “novo lar” — o lote que ele precisa ocupar para ajudar o primo, é uma das melhores: a transição de emoções por que ela passa ao descobrir a fria em que seu amado entrou não é fácil de reproduzir, considerando o tempo relativamente curto dessa cena. O filme é um planeta de cores: o protagonista preto é chamado pelo primo branco para ser laranja de uma tramoia imobiliária — e não deixa de ser irônico que a cor nacional da Holanda, cuja ancestralidade é alegada pelo primo playboy, tenha virado sinônimo de fraude por aqui. O final estabelece um diálogo circular com o início, sendo que o que acontece no início à luz do dia, na cena final se dá na escuridão da noite.

Por Ari Denisson, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano

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