
Texto: Ari Denisson. Revisão: Cleber Pereira
O último dia da mostra competitiva da Sururu ganhou o nome de Rede N’Água, e faz sentido: filmes de mar, de praia, litoral norte, sobretudo. Aparentemente essa região, isto é, tudo o que está ao norte do Hotel Jatiúca, mexe com a sensibilidade e as memórias de muitos realizadores da terra. O filme de abertura, Alice (dir. Gabriel Novis), é exuberante em recursos, tanto formais quanto narrativos, remete-nos a videoclipes da era de ouro da MTV. O apelo às memórias da personagem principal do documentário, quase como se estivesse mergulhando no cérebro dela, usa de algumas imagens previsíveis, como a parte em que ela submerge após a notícia da morte do pai, ou mesmo ela recebendo-a das duas parentes, aparecendo de forma etérea, numa espécie de cortina que divide mundo exterior e mundo interior. Algumas dessas imagens talvez ganhassem mais potência sem o voiceover explicando-as o tempo todo, embora a voz em si de Alice nos soe suave e aconchegante.
Sobre a reprodução embaçada de um carretel de notícias listando, ano após ano, o recorde perene do Brasil como campeão mundial de assassinatos de pessoas trans: é de se perguntar se, em vez de uma bem-intencionada conscientização, isso não soa como uma estaca a mais no coração de pessoas trans que eventualmente tenham procurado o filme para se verem na tela com alguma qualidade e mais uma vez terem de ser lembradas de que não são corpos bem-vindos na sociedade em que vivemos. Mas é uma representação comovente do cotidiano de uma pessoa que teve que abandonar hobbies por causa do público tóxico que costuma frequentá-los e, principalmente, uma pessoa que vive, acima de tudo.
Guia (dir. Tarcísio Ferreira) é lindo, e provocativo. O filme vem por padrão com tradução em Libras e audiodescrição, ou seja, somos levados a fruir o filme tendo que assimilar os elementos geralmente destinados apenas às pessoas com deficiência. Ao acompanharmos a história real de um casal com deficiência visual de um povoado de Arapiraca e sua filha com miopia vendo o mundo pela câmera que havia sido de seu pai quando este enxergava, e descrevendo tudo o que vê para eles, somos levados a pensar sobre diferentes significados de ver. Somos chamados à atenção também para o desafio que é para o/a audiodescritor/a descrever um objeto estético multissensorial que é um filme de modo a que pessoas cegas ou de baixa visão possam apreciá-lo à sua própria maneira. Destaque para a cena da árvore no canteiro central de uma rua do povoado Canaã, onde a pequena Nínive anda junto com sua mãe, com o olho no visor da filmadora, e da família vendo o mar ao final.
Coisa de Guria (dir. Gisela Lima Conti) é uma elaboração simples a partir de diferentes modos de olhar uma fotografia de infância. A escolha do título já nos provoca enquanto espectadores não gaúchos. É curto, porém longo, se pensarmos na relação entre texto narrado e as possibilidades que a diretora encontra para explorar essa fotografia que é tomada como ponto de partida para essa reminiscência da infância.
Deyse Ex-Machina (dir. Jasmelino de Paiva) destoa dos demais filmes da mostra do dia, não só por se passar fora da praia, mas por ser mais frenético que os demais. É leve e despretensioso enquanto narrativa, porém é uma avalanche de imagens. O diálogo com formas cinematográficas mais massificadas é bastante evidente. Percorremos junto com a protagonista, viciada em cigarro e jogo do bicho, o Mercado da Produção e algumas partes do Centro e do Farol que, embora sejam ancestrais no que diz respeito à ocupação da cidade, tornaram-se para muitos habitantes contemporâneos mistérios a serem desvendados, com a desvalorização do Centro e a busca por refúgio climático e securitário nos shopping centers. A protagonista nos prende do início ao fim em sua relação relutante com a sorte e com o vício.
Por Ari Denisson, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano
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