
Texto: Nara Almeida. Revisão: Cleber Pereira
Em Alagoas, ou melhor, no Brasil, é difícil encontrar filmes em que haja pelo menos uma atriz trans, ou que abordem questões da travestilidade contrariando estereótipos. O filme Ainda escuto o céu embaixo d’água, uma direção coletiva das alunas do primeiro Ateliê Xica Manicongo. Criado por Marina Bonifácio e Samantha Araújo, o espaço é voltado à produção cinematográfica com pessoas trans e é um marco simbólico para o começo de um cinema alagoano potente, que permite que essas pessoas falem por si e para além de suas cicatrizes.
A primeira cena é forte: vemos um grupo de mulheres de branco no rio, ao redor de outra que boia, um ritual que claramente referencia religiões de matriz africana, já que todas as atrizes são negras.
A cena seguinte mostra uma reunião entre amigas em que uma delas está totalmente imersa em seus pensamentos, com o olhar vago, alheia às brincadeiras e conversas das companheiras. No entanto, a mudança de diálogos é forçada e desnecessariamente brusca; de uma frase incomum como “não estou conseguindo sonhar”, é mais incomum ainda que surjam respostas diretas e reflexivas. Conversas assim, na vida real, demandam tempo para uma reação genuína.
O tema central é o sonho ou o sentimento de vazio que impede de sonhar. Uma frase marcante de uma das personagens, ao aconselhar a amiga, evidencia que os diálogos são improvisados. Entre algumas falas confusas, outras são potentes e refletem sentimentos reais: “ser uma mulher trans já é, por si, a realização de um sonho.”
É palpável a força de vontade e a sensação de realização na interpretação das atrizes – e também diretoras – que entregam o melhor que podem. A espada-de-são-jorge é incorporada de maneira certeira; sua simbologia de força, coragem e proteção complementa a narrativa. A cena em que elas lutam, dançam e parecem felizes consigo mesmas é, sem dúvidas, a mais marcante do curta, que fecha com a recitação de um poema que reverbera na sala inteira uma força que poderia ser mais aproveitada do que os diálogos vazios da cena anterior.
A narrativa das “trans-cestrais” poderia ser a riqueza e o diferencial do filme, mas infelizmente foi reduzida a uma mera participação na cena final, em que a personagem que tem dificuldade de sonhar é conduzida por elas, como uma simbologia positiva de superação e possibilidade de futuro promissor. A celebração de mulheres trans que ultrapassam a expectativa de vida determinada é acolhedora e inteligente. Se mergulhasse nessa temática, destacando essas figuras ao longo da narrativa e lhes atribuindo falas, o resultado seria um curta mais sensível e memorável.
Assim como São Jorge derrotou o dragão, as mulheres trans, com a luz das mais velhas no horizonte, conseguirão atravessar os momentos difíceis e ir longe.
Por Nara Almeida, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano
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