Crítica: Ajude os Menor (dir. Janderson Felipe e Lucas Litrento)

Texto: Gabriela Ribeiro. Revisão: Cleber Pereira

O curta-metragem de Lucas Litrento e Janderson Felipe assume uma proposta americanizada: um faroeste em meio à construção civil e uma tensão velada (ou nem tão velada assim) crescente entre dois personagens masculinos. Mas de “americanizado” parece haver apenas o tom de faroeste e a trilha sonora, que mesmo sem letra continua irreconhecível e inassimilável como um épico de Clint Eastwood. O filme é atravessado por um espírito Johnny, get your gun às avessas: não há glória possível na arma, nem redenção no confronto. A iconografia do faroeste está toda ali, mas privada de heroísmo e de escapismo barato. O gatilho existe, mas o mito não.

O curta explicita um desconforto histórico quanto à classe e às desigualdades sociais, evidenciado pelo personagem de um engenheiro supervisor da obra, claramente favorecido pelo dono da construtora, seu “sogrão”. O filme também recusa a escolha televisiva da branquitude hegemônica nordestina, porque até o nepobaby é racializado. Em Alagoas, privilégio não exige olho verde; exige sobrenome. Todos os personagens são verossímeis e as atuações são realistas, mesmo considerando o estilo exorbitante do faroeste. A ambição – ou revolta justa – dos ajudantes de pedreiro se volta para o supervisor, cuja esposa dondoca está de caso com um deles.

É nesse ponto que surge o diálogo sobre o tamanho da pistola: quando um colega diz “a sua arma parece de brinquedo, é muito pequena”, a resposta psicanalítica, edipiana e quase cômica vem de imediato: “a dele, o engenheiro, também é pequena”. O filme deixa claro que o conflito é uma disputa fálica sem metáfora. Não é sobre calibre, é sobre masculinidade e expressões de poder mediadas pelo gênero. A arma é pequena porque o horizonte é pequeno. A impotência não é anatômica; é social. Para a masculinidade subalterna, só o que resta é performar violência simbólica quando lhe falta acesso à violência estrutural.

O ritmo e o conflito aproximam o filme dos trabalhos de Kleber Mendonça Filho, especialmente O Som ao Redor e Bacurau. Mas se ali a escolha de Kleber, roubada de Haneke, é tratar personagens populares com distanciamento místico que os vilaniza, aqui observamos o contrário: vemos o ponto de vista daqueles que normalmente servem de ameaça silenciosa na narrativa. E, ao contrário dos delírios de Robin Hood que perpassam Bacurau, onde a violência coletiva vira catarse, mito e utopia, Ajude os Menor recusa qualquer fantasia justiceira. Os “menor” sabem como o jogo funciona e não estão interessados em explodir o tabuleiro. Todo mundo sabe que o tabuleiro pertence ao “dotô”.

Não há banho de sangue, não há vingança tarantinesca, não há libertação redentora. A violência aqui não resolve nada porque ela é onipresente. A violência é a única constante social. E o que seria espetáculo nos filmes de Tarantino, aqui seria apenas estatística. O curta expõe o sistema de castas alagoano, mas parece reconhecer, talvez inconscientemente, que não existe saída ou mobilidade social real. Essa recusa em fabricar heróis é justamente o que torna o curta mais maduro do que quase tudo que o cinema político nacional tenta fazer.

O final em aberto oferece dignidade e autoria aos dois personagens que vão embora rumo ao horizonte em motocicletas velozes, embalados por música de faroeste. Quase dá para ouvir Girl, you’ll be a woman soon! ou, mais adequadamente, “menor, você vai virar homem em breve!”. 

O filme se encerra com a elegância de quem se recusa a encarnar estereótipos, sucinto demais para ser um filme-denúncia clássico, consciente demais para ser mais um faroeste de uma pistola só. 

Por Gabriela Ribeiro, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano

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