
Texto: Tiago Lima. Revisão: Cleber Pereira
“Ainda há pouco, era apenas uma estrela
Uma imensa tocha antes do mergulho
Agora vem à tona, sua ira é intensa
E você deseja saber se há algo que possa acalmá-la outra vez“
Força Verde – Zé Ramalho
Quando se assiste a um documentário ou qualquer mídia que registra o cotidiano de uma vida silvestre, existe uma impressão evidente do sentido geral ser apenas organizar informações técnicas que valem por si mesmas. Se algum veneno vai ser melhor identificado ou alguma espécie vai ser melhor conscientizada, isso depende do que uma pessoa consegue organizar de teoria e prática com o que esse tipo de documentário lhe informa. Movimento Perpétuo (2025) pode ser percebido numa lógica equivalente ao considerar o registro da obra, além de seu peso de primeiro longa produzido em Arapiraca, como uma mediação pouco direcionada no potencial cinematográfico dessa região, porque em termos sensíveis o filme é rico e produtivo na condição de um material bruto, não-lapidado, enquanto seu conteúdo depende muito de quem o assiste pelo seu risco agudo em se salvaguardar com sua estética.
A convergência de esforços da equipe (e até dos astros) sintoniza os elementos na obra sensual e holisticamente com a onipresença de inúmeros tons em verde, com a representação na montagem de um ritmo tão orgânicos quanto os gases de um cometa e momentos específicos na performance dos atores sociais que buscam reforçar a possível comunhão com a natureza biológica de um ambiente interiorano. Um adendo mais pontual das performances é válido por como ela demarca condições de gênero humanas por uma postura formal muito afeitas a dicotomias patriarcais. Os homens são postos em imagens provocativas pelo quão inspiradas elas estão por conceitos temáticos de compreender o que a vida possui de fugaz e deslumbrante, enquanto se as mulheres geram provocações com suas presenças, elas dependem de serem documentadas como parte de uma historiografia, com informações de vida desgastantes e injustas, um discurso de que as mulheres ainda são “terras férteis”. Como informação, essa conjuntura é feita em tons de empatia, mas também como um documentário de animais, quem precisa lidar com isso de fato é quem lhe assiste.
Não se demonstra ser muito conclusivo compreender os interesses do Movimento com o que os personagens dizem por si, pela diferença pouco coerente de condições das “espécimes”, mas seu conjunto evoca ideias instigantes na tentativa de se validar todo o trabalho. Movimento Perpétuo podia ser evidentemente sobre um indivíduo (o que o filme não é) e se é, evidentemente, sobre alguma coisa, é sobre um mundo captado apenas pelos relances de sua dimensão telúrica aparentemente complexa, e ineficiente nesse atributo na prática. Os comentários e intervenções relacionados ao progresso tecnológico da humanidade feitos pelas personagens e pela equipe que detém essas tecnologias são idealistas ao expressarem tanto o apreço quanto o desapego pela forma que esse progresso sublima a fragilidade da vida humana; por isso os equipamentos menos contemporâneos, como o livro, o rádio, a guitarra elétrica ou o computador registrados contribuem para essa “alma” e esse discurso do longa muito melhor do que as imagens de IA generativa produzidas na sequência do cometa. Diferentemente das outras tecnologias, a IA não parece representar uma herança de conhecimento humano bem direcionado ou delimitado, e colocá-la nesse mesmo coletivo é uma atitude audaciosa, se não perigosa, de fato.
Dessa forma, a melhor conclusão que ele traz sobre algo é que ele faz parte de várias existências: dos atores sociais, da equipe por trás do filme, das referências acumuladas de cada um, da emergência de uma cultura cinematográfica inédita. Se essa perspectiva parece indulgente, é porque o próprio filme aposta no impacto futuro dele, como quem preparou uma terra e quer colher mais frutos com ela, mesmo que sejam precisas umas boas estações para a colheita.
Por Tiago Lima, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano
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