
Texto: Tiago Lima. Revisão: Cleber Pereira
“Um cara normal se juntou com o mal, afinal
O sangue escorre na cédula que faz seu funeral”
Banditismo – Saci
Entre os seis curtas exibidos e debatidos na primeira sessão da Mostra Competitiva, destaco aqui o quão instigantes são dois deles, ambos de ficção: Tumulto (2025) e Ajude os Menor (2025). Os dois possuem sensibilidades baseadas nos cânones de gêneros tipicamente estadunidenses, filmes slasher (além dos de adolescentes no colegial) e filmes de faroeste, e cada um procura incorporar suas respectivas tradições a questões relacionadas à vidas em contextos diferentes de região, de gênero e de classe. Dessa forma, as produções conseguem ser produtivas ao promoverem sentidos associáveis por seus contrastes e similaridades.
Os inícios dos curtas literalmente servem como um bom princípio para se estabelecerem relações entre eles porque geram curiosidade e empolgação com seus estímulos. Os letreiros que decoram as mínimas informações alternadas por transição e a música em tom de ragtime em Tumulto, remetem conceitualmente aos curtas animados da Disney, da Warner ou produções mais assumidamente polêmicas, como It’s Always Sunny in Philadelphia, e antecipam uma experiência diversa pela graça que ela pode ter, pelo quão bobo, besta ou desagradável alguém é capaz de ser registrado pela câmera. O primeiro plano de Ajude os Menor, captando em preto e branco um horizonte vasto num terreno de areia onde um entregador de delivery “cavalga” de moto, também induz uma experiência diversa no que ela e seus personagens têm de imponente e solene. Mas a subversão posterior desses princípios, comum aos dois curtas, depende de como são tensionadas as expectativas das situações e dos chavões em cada um dos miolos nas produções.
O curta de Yuri Melo se ambienta nos cômodos de uma casa num momento onde ela está mais colorida e mais entulhada que o normal: um rolê provisório de garotas com um garoto de penetra, e nada parece disposto a ficar mais ameno, independentemente do risco à vida que isso cause. Os elementos de cena e fotografia já mencionados, a montagem psicodélica e sardônica com animações do Mickey, o hedonismo e o desgosto entre as personagens querem achar encanto a partir do quão “desencantadora” toda a situação é, como gostar de um salgadinho sabendo que se perde anos de vida pondo ele na sua boca.
Por outro lado, o curta de Janderson Felipe e Lucas Litrento lida com a ambiência tensa entre homens de classes opostas: 3 operários e um entregador; o gerente e o genro do proprietário de uma construção de apartamentos residenciais, cada um com suas armas, figuradas ou materiais, e de olho na hora certa para puxarem os gatilhos. A palavra de ordem da ameaça reina em terrenos estéticos, ao incorporar a intimidação típica de uma terra com leis brutas na atmosfera da música e da fotografia, além do terreno político ser muito bem considerado em um contexto de capital litorânea e brasileira, onde a construção de um possível bem-estar social, sintetizado nos apartamentos, ainda está dependente de uma luta de classes ideologicamente antagônicas e inconciliáveis, evidente na animosidade entre as personagens.
Os dois curtas constroem seus mundos lidando com instituições de violência, mas com complexidades diferentes uma da outra. A arma do crime de Tumulto é uma garrafa de Corona em vidro, quando se espera ser uma faca, do mesmo modo que a tensão do curta depende de quebrar uma pretensa ética que dignifica a existência de alguém, porque estilhaçar agressivamente a cabeça de um ficante é tão brutal quanto esfaqueá-lo no coração. A arma do crime de Ajude os Menor é uma tinta em spray, quando se espera ser uma arma, do mesmo modo que a tensão do curta depende de complexificar uma resistência política, porque pichar uma picape é tão transgressor quanto matar seu dono em um impasse de tiroteio. De toda maneira, essas abordagens partem das possibilidades constantes em estetizar a violência presentes nos gêneros que sustentam as produções, e do quão enraizada toda essa cultura está no Ocidente por produções dos Estados Unidos, mas além das diferenças estéticas, há diferenças de senso político onde Ajude os Menor consegue superar Tumulto pelo campo de visão entre as obras. Quando Tumulto retrata seu crime dentro de uma residência, sua subversão depende de uma ética relacional pautada simplesmente por um consumo relativamente homogêneo entre as personagens. E em contraste, quando Ajude os Menor retrata seu crime na construção de uma residência, sua subversão depende de uma distinção mais evidente em como as personagens não apenas consomem, mas também vivem no mundo. É por conta das questões de Ajude os Menor que as questões de Tumulto existem, e isso torna o primeiro mais radical em sua sensibilidade.
A contribuição que as duas produções trouxeram à última edição da Mostra Sururu, além de serem muito charmosas e chamativas, está em revelar as conduções do cinema alagoano com rotas mais comuns no cinema do exterior, mas que ainda servem como fonte de ideias representativas e empolgantes. O tipo de reinvenção que eles trazem soa como a culminância de rituais antropofágicos que absorvem qualidades distintas e benéficas para a cultura alagoana na medida que elas permitem uniões mais genuínas. Não apenas sociais, econômicas e filosóficas, como escreveu Oswald de Andrade, mas estéticas também.
Por Tiago Lima, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano
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