
Texto: Tiago Lima. Revisão: Cleber Pereira
“A luz do luar e canções de amor
Nunca sairão da moda”
As Time Goes By – Dooley Wilson (tradução livre)
A segunda sessão competitiva de curtas da 16° Mostra Sururu exibiu dois curtas que apresentam algumas das discussões mais frescas e substanciais sobre a produção de cinema em Alagoas: Logger (2025) e Crônicas sobre os Cinemas de Bairro (2025). Neles, os trabalhos similares em independência nas direções de Paulo Silver e Beatriz Vilela, respectivamente, abarcam experiências diferentes na produção dessa arte para trazerem à tona formas de como o próprio cinema reconhece a humanidade que lhe tem contato, desgastada, mas ainda sensibilizada. O curta de Silver consiste num registro altamente estetizado de seu próprio bloqueio criativo durante a concepção do filme “Nzumbi”, enquanto desenvolve um roteiro autoral. Já o de Vilela produz, com temperos de saudade, um documento de memórias fotografadas e oralizadas sobre os cinemas de rua em meio à cidade de Maceió e à condição decrépita, se não redirecionada, de seus ambientes.
Cada curta tem uma consciência altamente reflexiva sobre o ato de produzir e sentir o cinema e elabora sobre a sua própria condição em ambientações específicas. Logger pormenoriza a condição discreta de um operário nos bastidores das produções alagoanas contemporâneas, e pode ser encarada por isso como um mimo para os “iniciados” mesmo que esse não seja seu interesse principal. Os “cameos” dos produtores culturais nesse “star system” são mais um entre inúmeros detalhes perceptíveis numa imagética de tocaia, que espia os indivíduos e suas atitudes sempre pelas frestas de onde estão e do que fazem, e que tenciona, por consequência, as noções do visível e do não visível, do que pode ou não pode criar signos. Enquanto isso, as Crônicas abrangem retalhos de vidas anônimas expostas ao trabalho dos cinemas de rua da capital alagoana na última metade do século passado, contactando uma experiência cuja consciência nas condições do cinema na cidade está mais estabelecida, por dar conta de um passado e não de um “aqui-e-agora”. A sensibilidade presente na obra depende de um balanço imagético entre o agradável, apresentado com as fotos e as histórias contadas, e o desagradável, demonstrado pelo registro apagado e mal conservado dos lugares onde essas memórias se passaram.
Uma intersecção entre os dois curtas existe na importância de um sentido de cansaço em como eles dispõem o que se tem para dizer e para sentir nos trabalhos. O cansaço em Logger depende de um consumo repetitivo de tempo e de energia, além das chances angustiantemente sutis de expressar a individualidade de Paulo nas suas condições. Sua presença é pouco transparente, consumida tanto pelo ofício quanto pela fadiga em meio às telas, os fios e os sons que exigem sempre estímulos externos. Inclusive, a única sequência que parece partir de uma sensibilidade interna acontece quando Paulo é filmado em imagens negativas com stills da usina e do plano das gravações em fade, e o peso dela vem de surgir no pico criativo que o personagem gostaria de ter, mas não consegue, em uma constância mais sólida. O cansaço das Crônicas, por outro lado, depende de perceber a condição de um lazer como descarrilada sem que haja o poder para mudar essa situação. Se as individualidades representadas demonstram prazer e vigor, é por conta do deslumbre que o cinema traz como obra feita, mas se elas também estão sujeitas à tristeza, é pela desesperança em decodificar o cinema atualmente, restrito pela fragilidade da classe e pelo desinteresse político.
Pensados conjuntamente, esses trabalhos foram os mais preocupados em se posicionarem na condição do cinema alagoano desde seus conceitos e a ênfase que eles trazem aos marcos humanos dessa arte e dessa regionalização. Sejam eles individuais ou coletivos, tradicionais ou irreverentes em estética, admirados ou fatigados em vários aspectos, eles transmitem ideias representativas para a cinematografia e a cinefilia local. Eles desenvolvem um nó bonito entre si, além de firmeza e fertilidade para a terra.
Por Tiago Lima, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano
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