Cinema, Fé e Resistência: A Jornada de ‘Cartas à Tia Marcelina’ pelas Alagoas

Texto: João Igor Macena. Imagens: Divulgação.

Em Alagoas, fazer cinema é um ato de teimosia; fazer cinema que toca nas feridas do racismo religioso é um ato de sobrevivência. O documentário “Cartas à Tia Marcelina” não é apenas um filme; tornou-se, ao longo de sua trajetória de circulação, um dispositivo etnográfico que revelou tanto as belezas quanto as chagas sociais do estado.

Em uma das primeiras exibições, compartilhamos com o público que o filme foi feito quase sem recursos, que somente se concretizou devido a uma coletividade que acreditou na importância dessa narrativa. Conseguimos alguns equipamentos emprestados, pedimos ajuda aos amigos, fizemos uma “cotinha” para custear o básico do básico, fizemos do mínimo que tínhamos o máximo que podíamos na época. Ao final do relato, um dos espectadores nos disse que isso que estávamos fazendo era cinema de guerrilha. De fato, tratar sobre o episódio do Quebra de Xangô de 1912, num contexto tão conservador quanto o do nosso estado, é uma guerra… epistemológica, cultural, de acesso… Mas nenhum obstáculo poderia calar o anseio de colocar esse filme no mundo, de mostrar às pessoas a potência e o referencial de uma mulher como Tia Marcelina, à frente do seu tempo. Ela sim fez guerrilha, num período onde mulheres não tinham sequer direitos básicos, foi uma mulher preta que resolveu mexer no vespeiro colonial alagoano, desestabilizando uma elite. Mesma elite que hoje, 114 anos depois, ainda mantém seus herdeiros nas estruturas políticas do estado.

Nascido despretensiosamente como trabalho em grupo de conclusão de uma disciplina eletiva de audiovisual na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) ministrada pela professora Ana Flávia Ferraz, a obra ultrapassou os muros da academia para se tornar um espelho de um Brasil que insiste em negar suas raízes. Na própria universidade, onde as artes ainda não são levadas a sério, o conhecimento e produção (muitas vezes ancestral) dos artistas não são valorizados como ciência, poder criar este filme foi uma oportunidade de também projetar as iniciativas dos estudantes das artes. Tanto que, atualmente, ficamos felizes em saber que a disciplina onde ele nasceu hoje abriga vários estudantes e pesquisadores que, assim como nós, se iniciaram no audiovisual para contar suas narrativas. E poder ver como desdobramento da disciplina a primeira edição do EX Festival – Festival de Cinema Experimental do curso de Teatro da UFAL em 2025. Penso que nós somos parte desse avanço e dessas conquistas, nós que fizemos o primeiro filme na primeira turma desta disciplina, hoje vemos os frutos nas turmas que vieram em seguida.

O que começou como um exercício acadêmico de cinema independente carregava, desde o roteiro, a semente da inquietação. Para mim, era importante que não fosse um filme de luto, mas sim de luta, de empoderamento, de colocar a oralidade como centro da narrativa, o que se difere das produções existentes até então sobre o tema, pelo menos aqui em Alagoas, onde sempre havia um olhar enviesado sobre a história preta, um olhar esbranquiçado, que deixava muitas vezes de fora a força e a resistência existentes em todo o processo histórico da população negra no estado. Nós nunca abaixamos a cabeça. Tia Marcelina nos lembra o poder de nos mantermos firmes em meio às adversidades, de que, apesar das violências, o nosso saber é ancestral, não morre, não podem tirar isso de nós, mesmo quando tentam nos tirar até a dignidade. O filme, que resgata memórias e ancestralidades ligadas às matrizes africanas, encontrou sua primeira barreira não na produção — apesar da falta de recursos, tudo parecia fluir nas encruzilhadas de Exu; conseguimos construir uma rede de pessoas que fizeram o possível para essa produção existir —, mas na exibição, foi quando começamos a entender que ainda haveria dificuldades a serem superadas.

Ao tentar levar a obra para escolas, festivais locais e espaços públicos convencionais, nos deparamos algumas vezes com nãos velados. Curadores, diretores de escolas e gestores de espaços públicos, muitas vezes alegando “temática sensível” e outras desculpas esfarrapadas, reproduziram o racismo estrutural e a intolerância religiosa que o próprio filme denuncia.

Não é apenas sobre negar uma tela para exibição; é sobre a recusa em olhar para a própria história. Em Alagoas, o silêncio pós-1912 (ano do histórico Quebra de Xangô) ainda ecoa nos corredores das instituições, nas avenidas dessa cidade que se afunda lentamente na ganância de uma elite que vende nosso território e negocia nossas vidas.

Se as portas oficiais se fecharam, as janelas da resistência se abriram. A circulação de “Cartas à Tia Marcelina” desenhou um mapa alternativo de distribuição, guiado pela militância e pela educação antirracista. Estreamos nacionalmente na VIII MDOC-SP em dezembro de 2024, mas somente em 2 de fevereiro de 2025 estreamos aqui, no dia do evento do Xangô rezado alto, que nesse ano, infelizmente, não teve o apoio técnico do poder público e teve que ser organizado pelas próprias lideranças de terreiros. Numa data tão simbólica quanto essa, e mais uma vez atravessado pela luta dos movimentos sociais negros e de povos de terreiros, enfim começamos a nossa jornada de distribuição por Alagoas. Depois que já estávamos em circulação através do apoio e parceria de várias pessoas, foi que conquistamos editais da política cultural Aldir Blanc, que, sem dúvidas, possibilitou que levássemos o filme mais longe.

Através de parcerias com os Núcleos de Estudos Afro-Brasileiros e Indígenas (NEABIs) e com o Instituto do Negro de Alagoas (INEG), o filme rompeu o cerco. Foi exibido em mais de 15 municípios, distribuídos em vários estados, encontrando abrigo onde o cinema comercial raramente chega: Institutos Federais (IFs); terreiros de Candomblé e Umbanda; comunidades periféricas; centros comunitários, quilombos e aldeias. Fizemos questão de, manualmente e no boca a boca, ir levando esse filme para onde ele devia estar, junto do povo. Acreditamos no poder de conhecer a própria história, no poder de se ver nas telas, de ser possível a existência plural e diversa, mostrando também que as narrativas negras não são somente sobre a dor e o racismo, mas também sobre uma memória coletiva de fé, cultura, ciência, intelectualidade e educação.

Nesses espaços, a recepção do filme se transmutou. O que era “polêmico” para os conservadores, tornou-se “espelho” para a comunidade. Relatos emocionados de espectadores que viam na tela suas avós, suas crenças e suas dores validaram a importância da obra, além de podermos presenciar o legado de Tia Marcelina nos territórios, como a cozinha comunitária do assentamento do MTST Thereza de Benguela, o cortejo do maracatu do Afrocaeté e o mirante da lagoa. Todos levam o nome dela, como referência e homenagem, e também foram lugares onde exibimos o filme. Tivemos também nesse processo o reconhecimento de várias lideranças religiosas que destacaram a importância de fazer esse filme.

Foi uma experiência etnográfica de via de mão dupla: o filme observa a cultura, e a cultura se vê no filme. Arrisco a dizer que nesses lugares, junto dos grupos culturais, dos povos de terreiro, nas periferias e comunidades, foi onde o filme foi melhor recebido, onde a troca fluiu e as histórias convergiram, longe das lógicas eurocêntricas e limitantes da academia ou da indústria cultural de crítica e cinema. Junto das pessoas que tiveram ancestrais que viveram esse silenciamento em 1912, das pessoas que estavam dispostas a conhecer a história do seu estado e sobretudo a questioná-la, para que episódios como o que o filme relata jamais voltem a acontecer, pessoas que puderam ver um pouco de esperança e poesia através do filme e que nos devolveram em abraços, afeto e acolhida a cada lugar que passamos. Pelo menos essa é a impressão que tem ficado e que as pessoas compartilham conosco.

Enquanto enfrentávamos barreiras locais, principalmente na resistência de uma elite cultural conservadora e nichada (muitas vezes com práticas de valorizar apenas o nepotismo e o corporativismo e não a importância ou mesmo a qualidade das produções), o cinema independente provou seu valor artístico e social em palcos maiores. A qualidade técnica e a urgência narrativa de “Cartas à Tia Marcelina” renderam-lhe três prêmios significativos, incluindo o reconhecimento na prestigiada Mostra Ecofalante e no tradicional Circuito Penedo de Cinema.

Esses louros não serviram apenas como troféus de estante, mas como munição política. A projeção nacional do filme forçou um reconhecimento local que, de outra forma, talvez nunca viesse. O sucesso nos festivais legitimou nosso discurso e provou que o público anseia por narrativas que desafiem o status quo.

A trajetória de “Cartas à Tia Marcelina” torna-se facilmente um estudo de caso sobre o cenário cultural contemporâneo. Ela expõe a fragilidade das instituições públicas diante do racismo religioso, mas também ilumina a potência das redes comunitárias e estudantis.

O filme cumpriu seu papel etnográfico: documentou a memória de Tia Marcelina, mas, mais importante, documentou a reação da sociedade alagoana diante de si mesma. Entre o bloqueio preconceituoso e o aplauso emocionado da periferia, o cinema independente de Alagoas segue vivo, pulsante e, acima de tudo, necessário.

VIVA Tia Marcelina!

 

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