“Virada na Jiraya”: raiva e alegria como força motriz

Por Cauê Assis

Paz sem voz, não é paz, é medo. Essa frase ficou ecoando depois que o curta-metragem, roteirizado e dirigido por Acássia Deliê, acabou. Em parte porque é de uma das músicas que marcou minha adolescência, mas também porque traduz bem a ideia central que estrutura o enredo. Virada na Jiraya conquistou o prêmio de melhor filme na 1ª Mostra Filé, realizada nos dias 21 e 22 de março de 2026, na Casa Sambacaitá, uma mostra dedicada a produções de ficção e obras híbridas realizadas por pessoas nascidas ou residentes em Alagoas.

O curta é um convite ao cultivo das alegrias e à organização da raiva. Esse é o eixo central do filme, colocado em rotação pela construção das personagens e pela forma como Maceió deixa de ser apenas cenário e, entre praças, escadarias, mirantes e jangadas, passa a compor imageticamente o fluxo de afetos. Talvez seja o movimento que conecta as suas personagens principais. Chris, entre pressões econômicas, o trabalho, a finalização dos estudos e as cobranças da mãe e do namorado, é movida pela saudade que sente do Parkour, mas também marcada por uma certa contenção, como se algo nela estivesse prestes a parar ou a explodir. Já Sol é luz em expansão, teima em circular de bike pelas ruas da cidade e em cultivar pequenos prazeres como dançar e tomar cerveja com pessoas amigas.

A troca de olhares entre as duas gera a expectativa do primeiro beijo, mas desvia de uma narrativa romantizada, porque não aposta na formação de um casal como resolução dos problemas, e sim no encontro como experiência em si, aquilo que faz surgir outras possibilidades. Em Sol, há então um lembrete quente e luminoso, que faz Chris sentir o quanto o medo e a tristeza paralisam e silenciam.

O filme tem um ritmo crescente. O título Virada na Jiraya aciona diretamente o campo simbólico do álbum homônimo de Flaira Ferro, especialmente a faixa “Faminta”, onde essa expressão aparece como afirmação de um estado de ebulição. Na canção, a raiva não é negada, mas organizada, “sou raiva e calma ao mesmo tempo”, tensionando contenção e explosão como forças que coexistem. Estar “virada na jiraya”, nesse sentido, não é perder o controle, mas transformar a raiva em combustível, uma energia que recusa a submissão. É justamente isso que o filme encena no ponto de virada de Chris: ao ser confrontada com as exigências abusivas do trabalho, ela não silencia nem cede. Ao saltar o balcão, tirar a farda e ir embora, seu corpo traduz essa passagem da contenção à ação. Assim, o título deixa de ser apenas referência e passa a operar como chave de leitura: Chris se vira na jiraya no momento em que sua raiva encontra forma e direção.

Se o álbum Virada na Jiraya, de Flaira Ferro, insiste em uma raiva que impulsiona a vida, que convive com o prazer, o desejo e a afirmação de si, o filme acompanha esse movimento ao fazê-la operar como força motriz. Nesse embalo, algo passa por “Suporto perder”, canção que também integra o álbum: “é chegado o tempo de ampliar a ciência sobre o que é ser feliz”. A aproximação entre Chris e Sol inaugura uma brecha, mas é o gesto de ruptura que a sustenta. Ao final, entre saltos e risos, o filme aposta na beleza do encontro e na composição de afetos que nos movem.

Sobre Cauê Assis
Cauê Assis é mestre em Psicologia (PPGP/UFAL), poeta, pesquisador, curioso…

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será divulgado


*