
Texto: Carine Andressa e Esmeralda Flor. Revisão: Larissa Lisboa
O curta-metragem Cartas à Tia Marcelina narra a trajetória de uma das figuras mais proeminentes das religiões de matriz africana em Alagoas: a iyalorixá Tia Marcelina. Vítima da intolerância religiosa, a mãe de santo foi perseguida e viu seu terreiro ser destruído no violento episódio de 1912, conhecido como o “Quebra de Xangô”. O documentário busca situar o espectador nessa cronologia, ao mesmo tempo em que homenageia e escancara o legado e o impacto de sua resistência.
Trata-se de uma obra especialmente desafiadora, visto que a temática que cerca Tia Marcelina está intrinsecamente ligada às diversas frentes de militância. Ainda assim, o documentário consegue conectar com perfeição a dimensão religiosa através de nomes como os de Mãe Jeane, Pai Maciel e Pai Célio, mantém a fidelidade histórica com a participação do Professor Danilo Marques. E entrelaça a trama à luta antirracista por meio das falas contundentes da também professora, Alycia Ribeiro. Assim, todas as entrevistas convergem para falar de Tia Marcelina, que, embora ausente fisicamente, age como força invisível e ponto de intersecção de todas as falas, sejam elas religiosas, históricas e políticas.
A narrativa construída por meio dessas múltiplas perspectivas deixa clara a centralidade da mulher na história do povo negro de Alagoas. A frente de um terreiro estrategicamente situado no coração de Maceió, Tia Marcelina ocupava o papel de liderança religiosa. Sua presença no centro da capital conferia visibilidade ao culto e a transformava em um pilar de resistência que consolidou-se como símbolo da luta afro-alagoana.
As entrevistas são intercaladas com cenas de dança que se consolidam como o ponto alto do filme. Afinal, nem é preciso saber que o diretor, João Igor Macena, é estudante em Dança pela UFAL para ter certeza de que houve um trabalho meticuloso e técnico por trás dos movimentos coreografados. Trazendo sensibilidade e beleza, os takes contam com dançarinos caracterizados como orixás, posicionados em cenários ligados aos mitos das divindades ou em pontos históricos de Maceió. A iluminação e as escolhas de narração nessas cenas também propiciam a conexão entre o telespectador e o contexto espiritual.
No entanto, apesar do enriquecimento da pesquisa e da seleção adequada de personagens, o curta deixa a desejar em pequenos detalhes de acabamento. Para um filme de apenas 25 minutos, há um excesso de entrevistados e falas, o que por vezes prejudica a fluidez. A equipe parece ter pecado nas minúcias da edição, já que algumas entrevistas apresentam cortes secos onde se percebe que o convidado ainda não havia finalizado sua linha de raciocínio. Histórias como a de Tia Marcelina tocam em tantos pontos sensíveis e complexos que tentar fazer tudo caber em menos de meia hora pode, inevitavelmente, resultar nesse tipo de atropelo.
A despeito dos detalhes técnicos mencionados no parágrafo anterior, o curta é extremamente envolvente e cumpre com excelência a sua função de denúncia. As cenas de dança – ora sobrepostas pelos relatos dos entrevistados ora servindo como um “respiro” – conseguem transmitir a força da história que está sendo contada de forma poderosa no documentário. Essa potência se manifesta na capacidade da
obra de atuar como ferramenta de conscientização, incitando questionamentos necessários, especialmente em falas que apontam como “esses políticos nunca estão na linha de frente da luta antirracista” ou quando o papel político é reforçado por Pai Maciel, ao lembrar que “um decreto pode ser tirado; o que a gente precisa é de lei”.
O documentário também mobiliza dados estatísticos que sustentam as falas dos entrevistados. Os números alarmantes sobre a violência contra a população negra em Alagoas e os registros de intolerância religiosa funcionam como evidências que ratificam a urgência do tema. Entre o silenciamento de políticos que omitem seus vínculos com o axé e a tentativa histórica de “embranquecer” uma Alagoas que, em suas raízes, sempre foi preta, o filme escancara que a herança de preconceito deixada pelo Quebra ainda pulsa no estado.
Essa resistência histórica, detalhada no curta, encontra seu desdobramento contemporâneo no Xangô Rezado Alto. O movimento, que o documentário contextualiza em sua reta final, é uma celebração anual em Maceió que transforma a memória do Quebra de 1912 em um ato público de afirmação. Ao registrar as conexões entre o passado de Tia Marcelina e os cortejos que hoje ocupam o bairro histórico de Jaraguá, a obra demonstra como o projeto une fé e apresentações culturais em um ato de reafirmação política da identidade afro-alagoana.
Por fim, Cartas à Tia Marcelina entrega ao público a mensagem que a própria iyalorixá defendeu durante toda a sua vida: o culto afro resiste e será rezado em voz alta. Mesmo após a vida, Tia Marcelina continua espalhando sua mensagem de força e permanência.
Este texto foi escrito como exercício da disciplina Oficina de Produção Audiovisual (UFAL), ministrada pela professora Gabriela Palmeira.
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