Crítica: Dalvinhas (dir. Arilene de Castro)

Texto: Nara Virginia Almeida da Silva. Revisão: Larissa Lisboa

Em Piaçabuçu, a Ilha do Gondim transborda vida. Para as Dalvinhas, o lugar parece funcionar como um portal que as transporta para momentos felizes ao lado de Dalva. Os relatos de pessoas que tiveram suas trajetórias transformadas por ela são emocionantes; são tantas vozes e palavras de afeto que o espectador logo se vê ansioso para descobrir quem é, afinal, essa figura tão amada.

O documentário é, essencialmente, sobre legado e irmandade. Trata da falta, da saudade e de como as boas ações de uma única pessoa podem gerar resultados poderosos. Vicentina Dalva Lyra de Castro, a Dalvinha, era professora e uma referência cultural fundamental. Criadora do projeto “Olha o Chico”, ela coordenava movimentos de arte e cultura em defesa do Rio São Francisco até falecer, em 2020, em decorrência de um câncer de mama.

A obra abre com uma narração acolhedora e intimista—uma carta para Dalva. Este é o recurso perfeito para estabelecer a carga emocional do filme. Outro ponto alto são as cenas em que as mulheres dançam de mãos dadas ao som de cantigas escritas pela própria Dalva. É uma escolha estética poderosa que, embora tocante, poderia ter sido ainda mais explorada e estendida, assim como as imagens da ilha que Dalva tanto sonhou em morar.

A estratégia de não revelar de imediato o rosto ou a identidade completa de Dalva é inteligente: permite que o público use a imaginação para ligar esse mosaico humano através de fragmentos de memórias e relatos. 

A importância de documentários como Dalvinhas reside no registro de histórias de mulheres que, mesmo longe dos holofotes, deixam marcas permanentes. As duas cenas finais são particularmente marcantes: primeiro, as mulheres sujam seus corpos com barro enquanto um poema sobre a força feminina é recitado ao fundo. Em seguida, elas se abraçam e trocam borboletas de papel, um gesto delicado em homenagem à Dalva, que amava borboletas.

Embora o desfecho pudesse ter se beneficiado de um acervo maior de fotos e vídeos reais da homenageada. O documentário cumpre um papel. Ele serve como um protesto para aqueles que ignoram o poder transformador da educação. Destacar as mulheres que conviveram com ela é a prova definitiva de que o legado de Dalvinha está em boas mãos.

Este texto foi escrito como exercício da disciplina Oficina de Produção Audiovisual (UFAL), ministrada pela professora Gabriela Palmeira.

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