Crítica: Relicários de Zumba (dir. Vera Rocha de Oliveira)

Texto: Clara Lima e Marcia Cristina (maio, 2026). Revisão: Larissa Lisboa.

RELICÁRIOS DE ZUMBA (2014) Dir. Vera Rocha de Oliveira

Um relicário, tradicionalmente, é um objeto destinado à preservação de relíquias, sejam elas pessoais ou de impacto social. O documentário, Relicários de Zumba, de Vera Rocha de Oliveira, transpõe esse conceito para o filme ao executar a função simbólica de um relicário: preservar a memória e a trajetória artística do artista alagoano José Zumba, fazendo com que sua arte ultrapasse os limites do tempo e do esquecimento. Assim como as obras de Zumba funcionam como registros históricos e afetivos da cultura popular alagoana.

Com duração aproximada de 24 minutos, o filme propõe não apenas relatar a vida do artista, mas também evidenciar de que maneira sua obra construiu um papel de resistência ao engrandecer a imagem da população negra, projetando nela imponência, em contraposição à imagem de subserviência historicamente construída durante e após o período de escravização.

A obra se destaca dentro do cinema documental por utilizar uma linguagem poética e sensível, conduzindo o espectador, com clareza, a identidade retratada nas pinturas de Zumba. No decorrer do filme muitas de suas obras são apresentadas e surgem em diálogo com os depoimentos, criando uma narrativa visual que amplia a dimensão simbólica do documentário. As pinturas carregam simbolismos ligados à religiosidade, às tradições populares e à ancestralidade negra. Dessa forma, as telas não aparecem apenas como objetos artísticos, mas como instrumentos narrativos que ajudam a contar tanto a trajetória do artista quanto aspectos da cultura afro-alagoana. 

Por meio de depoimentos, pesquisadores, artistas e admiradores, constroem um discurso explicativo da obra de Mestre Zumba, sua dedicação a observação do cotidiano, a representação de uma Alagoas a partir das suas paisagens e expressões culturais, são bem descritos em termos técnicos e históricos. É questionado por esses se um trabalho como o de Zumba seria um dom ou talento que “apenas” se aprimorou a partir da prática, pois apesar de intuitivo o mesmo é carregado de técnicas e particularidades quase que acadêmicas, como afirma a professora Socorrinho Lamenha.

Ainda que todos depoimentos possuam grande importância para o filme, é apenas nas falas de Dona Júlia que o personagem principal dessa história aparece enquanto pessoa, pai e marido. Ouvir os relatos da viúva de Zumba, deu ao documentário um tom mais intimista e afetuoso. Casados por um período aproximado de 42 anos, constituíram uma família com seus 6 filhos e compartilharam uma vida simples. Dona Julia afirma que os filhos foram “criados na força do pincel” e relata as durezas enfrentadas por eles. Segundo ela, para não ver os filhos passarem fome, o pai vendia suas obras, até as melhores delas, por preços muito baixos, que não condiziam com o trabalho produzido.

A primeira cena do filme é narrada por Dona Júlia. Nela, a imagem de um homem sob o mar representa exatamente o tipo de sensibilidade e personagens presentes nas pinturas de Zumba, funcionando como uma introdução simbólica ao universo artístico construído pelo pintor. 

As dificuldades enfrentadas por Zumba em um contexto de invisibilidade cultural e reconhecimento tardio, dimensiona a marginalização que muitos artistas populares ainda enfrentam dentro da sociedade brasileira. Principalmente aqueles artistas que não vivem e não se propõe a retratar o eixo Sul/Sudeste, e que abordam a valorização da cultura afro-brasileira e outros grupos invisibilizados. Assim, o filme questiona por que tantos artistas permanecem fora dos espaços de valorização institucional e acadêmica, mesmo contribuindo significativamente para a identidade cultural brasileira.

Relicários de Zumba é um documentário extremamente relevante tanto para o cinema alagoano quanto para a valorização da cultura negra no Brasil. A escolha de utilizar depoimentos acompanhados das obras do artista cria uma atmosfera íntima e contemplativa. O espectador não apenas recebe informações sobre a vida de Zumba, mas também é levado a perceber a importância simbólica de sua arte. A fotografia e a montagem valorizam os detalhes das pinturas, permitindo que as telas transmitam emoções e contem histórias próprias. Outro aspecto positivo é o compromisso do documentário com a preservação cultural alagoana. Nesse sentido, o filme cumpre um papel importante ao destacar um artista local e reforçar a riqueza cultural do estado.

Não é necessário estudar a fundo a história de Alagoas para compreender que a formação social do estado está intrinsecamente ligada à resistência dos povos negros que foram trazidos à esta terra para serem escravizados. Ainda assim, a sociedade brasileira perpetua mecanismos de exclusão e apagamento e forja um povo sem memória e sem consciência da própria história. 

Produções como essa, se tornam potentes ao abrir espaço para que artistas como Zumba sejam reconhecidos a partir da força de suas obras e do impacto que possuem na construção da identidade cultural de um povo.

Este texto foi escrito como exercício da disciplina Oficina de Produção Audiovisual (UFAL), ministrada pela professora Gabriela Palmeira.

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