
Texto: Larissa Lisboa. Revisão: Guilherme de Miranda Ramos.
Falar de cinema passa pelos filmes, mas não se encerra neles. Antes de me debruçar sobre a curadoria da IX Mostra Sesc de Cinema, contextualizo brevemente a relação entre o Sesc Alagoas e o cinema alagoano.
Na memória do maceioense pode haver pelo menos uma, senão muitas lembranças de exibições de filmes que iluminaram o Cineteatro Jofre Soares, no Sesc Centro – unidade fechada desde outubro de 2025, deixando-nos saudosos e carentes dos espaços que oferecia.
Entre os eventos que o cineteatro abrigou em seus 29 anos, destaco as exibições de edições da Mostra Sesc de Cinema em 2017, 2018, 2019, 2022 e 2023. Mostra que há nove anos estimula a exibição de filmes brasileiros junto às unidades em todo o país que aceitam realizar sua programação.
Em Alagoas, ela é uma das poucas janelas de exibição sistemática que apresenta anualmente um panorama do que é produzido neste estado e que busca iluminar telas na capital e em outros municípios. É inegável o quanto a produção audiovisual em Alagoas se fortaleceu e se expandiu, com os repasses de recursos públicos federais recentes, neste que ainda é um dos poucos estados no Brasil sem ensino formal técnico e universitário em audiovisual.
Cada ano que passa, mais pessoas procuram formações artísticas, especialmente no audiovisual. Algo desejado por muitos e ainda acessado por poucos. Cada edição do Ateliê Sesc de Cinema que se torna uma realidade permite que ao menos uma turma possa estudar gratuitamente o processo de criação de um filme. Projetos de formação como este estimulam quem participa, e quem vê de longe, a persistir.
Dois livros digitais já buscaram dimensionar o impacto de ações formativas realizadas em Alagoas: Ateliê Sesc de Cinema: 10 anos (2023)1 e Ateliê de Filmes Possíveis (2026)2. Este segundo livro aborda outros projetos, entre eles o Ateliê Xica Manicongo de Cinema, uma das formações transcentradas brasileiras, idealizado por Marina Bonifácio e Samantha Araújo.
O Panorama Alagoas da 9ª edição da Mostra Sesc de Cinema é composto por treze filmes: dois longas – realizados através de editais de incentivo público alagoanos (um de Arapiraca e outro de Traipu/Penedo) – e 11 curtas, 80% dos quais também foram realizados com recursos públicos (um de Arapiraca, um de Teotônio Vilela, um de Piranhas, um de Paripueira e cinco de Maceió). Apenas 30% dos filmes que compõem este panorama são dirigidos por mulheres.
Foi indicado pela equipe de curadoria (Larissa Lisboa e Samuel Cabral) para representar Alagoas no Panorama Brasil um filme que expandiu a nossa percepção sobre o impacto da arte e da formação artística; lembrou-nos que é urgente renovar e ampliar a luta contra o racismo e investir na educação antirracista. As lentes que fotografam, em Um olhar sobre nós (dir. Roger Silva), “atravessam imagens para revelar presenças” das pessoas participantes do ClickNiggas e dão acesso ao registro e relatos de vivências negras que tensionam histórias e modos de ver de uma cidade (Maceió) marcada por desigualdades e silenciamentos. A presença da comunidade negra já foi abordada em vários filmes do cinema alagoano, mas faltava um filme manifesto como este para ecoar vozes dentro e fora da tela, por aqui e em outros horizontes.
Também indicamos para destaque estadual o documentário Dança pela Cidade (dir. Rosana Dias). Traz, como outros filmes selecionados, a potência de ações cotidianas e estimula a lembrarmos que a busca por conexão não tem idade.
Sentimos a ausência de filmes dirigidos por pessoas de gêneros dissidentes, e chamamos atenção para que possam ser implementadas ações e editais que priorizem projetos de autoria de pessoas trans, não binárias, intersexo, agênero, entre outras.
Diante da impossibilidade de exibir todos os 21 filmes que tiveram suas inscrições habilitadas nesta edição, reforçamos o desejo de ver mostras e festivais daqui e de fora abrigando mais filmes alagoanos. E desejamos que as pessoas com filmes selecionados (e os não selecionados) persistam colaborando com o audiovisual alagoano e brasileiro na medida em que puderem.
Para finalizar e celebrar que a mostra chega em sua nona edição, sendo esta a oitava vez que Alagoas participa, menciono Rosana Dias (2017–2019), Nadja Rocha (2017), Regina Barbosa (2018), Tatiana Magalhães (2019), Guilherme de Miranda Ramos (2022), Laís Santos Araújo (2022), Allexandrëa Constantino (2022) e Ronald Silva (2024–2025), curadores das edições anteriores, para simbolicamente evocar e reconhecer o rico caminho que a Mostra Sesc de Cinema percorreu nas terras alagoanas. Foi um caminho com erros e obstáculos. Mas também com acertos, superações, exibições, bate-papos, formação de público, oficinas e circulação de filmes.
Vida longa ao cinema brasileiro, alagoano e à Mostra Sesc de Cinema!
A lista completa do filmes selecionados para o Panorama Alagoas e os demais está disponível aqui.
1 O livro Ateliê Sesc de Cinema: 10 anos foi organizado por Larissa Lisboa, enquanto analista do Sesc Alagoas, reunindo textos de Amanda Duarte, João Paulo Santos, Karina Liliane e Roseane Monteiro.
2 O livro Ateliê de Filmes Possíveis conta com a pesquisa e escrita de Larissa Lisboa, Rosana Dias e Samantha Araújo e foi realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo (LPG).
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