
Texto: Rosana Dias. Revisão: Larissa Lisboa. Imagem: divulgação
Nesta quinta-feira, 25 de setembro de 2025, teve início o “Festival Luz, Câmera, Conexão“, um festival de cinema realizado na cidade de Penedo com sessão no Cine Penedo. O município que já é palco do Circuito de Cinema, recebe mais um evento com uma programação diversificada voltada não somente ao Audiovisual, mas com espaço para empreendedores locais.
O evento, idealizado e produzido por Luiza da Mata (Opará Produções), com patrocínio do Sebrae teve em sua abertura as falas de Pauline Reis, representando o Sebrae em Penedo, Jairo Schmitt, coordenador da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) em Penedo, Sérgio Onofre, coordenador do Cine Penedo, Fred Fonseca, do Banco Nacional do Nordeste (BNB); da secretária de cultura Tereza Machado, da diretora de Economia Criativa da Secretaria Municipal de Turismo, Karlinne Cordeiro e do Secretário de Desenvolvimento Econômico, José Marinho.
Cine Penedo foi fundado em 1958, sendo espaço de exibição para o Festival do Cinema Brasileiro de Penedo, fechado na década de 1980, foi cedido para a UFAL e reinaugurado em 2023.
“Nazo dia e noite Maria” (dir. Andréa Paiva) foi o filme homenageado da noite. Aborda sobre a vida de Nazo, mulher trans que reside em Penedo. Perpassa pela sua infância com relatos de abusos e violência física, de sua trajetória e de seu desejo e luta em se assumir como mulher diante de uma sociedade transfóbica.
A competitiva Mostra Primeiro Ato com exibição dos curtas-metragens selecionados foi composta pelos filmes: “A Pisada é Delas”, “Facção”, “Aléfia”, “Tapando Buracos” e “Dentro de Mim“.
“A Pisada é Delas– Mulheres do Coração Nazareno” (2025), documentário de Patrícia Yara Rocha, aborda sobre um grupo de maracatu rural formado por mulheres, o Maracatu Feminino Coração Nazareno, na cidade de Nazaré da Mata (PE). Com falas da Mestra Gil e de outras mulheres que compõem o folguedo. O documentário transborda nas cores e em registros fotográficos sobre essa resistência cultural e sobre o papel da mulher dentro de uma manifestação cultural dançada e conduzida tipicamente por homens. As mulheres que deram seus depoimentos nas entrevistas contidas no curta-metragem reforçam que a história de um fenômeno também pode sofrer modificações que possibilitem a inclusão de pessoas que antes eram impossibilitadas de o exercer. A partir de suas vivências nos bastidores essas mulheres se tornaram as protagonistas dentro desse grupo.
Com direção de fotografia de Leonardo Lopes e Patrícia Yara Rocha, o filme nos conduz a esse saber de forma majestosa. A trilha sonora é do Maracatu Rural Coração Nazareno.
Quanto custa um produto, e o valor da força de trabalho de um indivíduo? A lei da mais-valia é retratada em “Facção” (2024), um filme de Henrique Corrêa. Facção de roupas é o nome dado a uma empresa terceirizada que realiza os trabalhos de corte, modelagem, costura, num processo de produção em massa. Muito trabalho, várias horas dedicadas aos afazeres produtivos e pouco dinheiro. Nesse drama contextualizado na cidade de Santa Cruz do Capibaribe (PB), a personagem Ana, interpretada por Ana Nunes, tem seu trabalho interrompido por não aceitar cobrar um menor valor pela sua produção, ela e sua família que vivem dessa labuta não têm lucro, apenas exploração de seus trabalhos. Ana não desfruta de lazer, ela se dedica a realizar suas entregas, o patrão tem que lucrar, e ela trabalhar. A exploração da mão de obra na qual o trabalhador que vive no limite da pobreza e tem de repensar acerca de suas escolhas.
Em “Aláfia”, de Cecília Fontenele (2025), um enredo que nos conduz, como em um transe para o universo singular de Sandra, interpretada por Manoa Meliza, mulher-mãe-filha-esposa. Essa mulher se divide entre o cuidado doméstico, com o filho, o marido e seu pai, além de sua ancestralidade e fé. O filme tem três atos: O bode, Riacho e o Homem. Numa narrativa que encontra o real e o imaginário, ser e o não estar.
O bode, em algumas religiões de matriz africana pode representar o sacrifício, a força ou a purificação. Seria mais um dia comum, mas Sandra além de deixar o filho na escola, tem de visitar seu pai, ir ao mercado, interagir com seu marido e realizar seus rituais.
O Riacho é o fluxo da vida, a passagem e conexão com o sagrado.
O Homem, as figuras masculinas na vida de Sandra, pai-passado, marido- presente e filho-futuro.
Ficção alagoana que conta com duas mulheres na direção “Tapando Buracos”, de Laura Fragoso e Pally (2025) é um tapa na cara, um sacolejo. De acordo com o estudo promovido pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) 19% das pessoas que menstruam no Brasil não têm dinheiro para comprar absorventes, a pobreza menstrual é um problema complexo e nos últimos anos algumas medidas foram tomadas para amenizar essa situação em nosso país, como Programas de distribuição de absorventes em escolas, abrigos, penitenciárias e para a população em situação de rua.
Com uma narrativa desconstruída em “Tapando Buracos” temos as duas jovens, Rosa e Janaína (Pally e Gabriela Cravicanela), sobreviventes do árido sertão nordestino, elas tentam “ganhar o pão” tapando buracos na estrada rural. Abre buraco e tapa buraco, o miolo do pão é usado como absorvente interno por Rosa, uma moça que não tem perspectiva de futuro, pois seu presente é a pobreza e a falta de dignidade humana. Se “os fortes confiam em Deus” em quem os fracos e oprimidos devem confiar?
Existe um trecho bíblico, um versículo que descreve a formação do homem a partir do barro ou argila, encontra-se em Gênesis 2:7, onde está escrito: “O Senhor Deus modelou o homem com barro da terra. Soprou-lhe nas narinas e deu-lhe respiração e vida. E o homem tornou-se um ser vivo”. Na obra fílmica “Dentro de Mim”, com direção de Dayane Teles (2023) o artista de Limoeiro de Anadia, Jackson Lima dá vida à argila, ao barro, por meio de suas mãos, de sua criatividade. Quando criança, sua família não tinha condições de comprar brinquedos para ele, foi naquele período que começou a fazer seus próprios brinquedos, carrinhos de lata e objetos criados com argila. Mas somente na idade adulta, esse artista tomado por visões acerca de um ser sem rosto definido resolve criar, dando vida à sua imaginação. “Dentro de Mim” é um documentário acerca do processo de criação e da inquietação artística de Jackson Lima.
A programação segue até dia 27 com exibição de filmes e se encerra dia 28 de setembro com a cerimônia de premiação dos curtas-metragens, feira cultural e criativa e show musical com Maxylene Cruz, na Praça Marechal Deodoro em frente ao Cine Penedo.
Link para votação júri popular https://linktr.ee/mostraprimeiroato
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