Crítica: Ainda Escuto o Céu Embaixo D’Água e Ajude os Menor

Texto: Ari Denisson. Revisão: Cleber Pereira

É muito bom poder atestar, no primeiro dia de exibição competitiva da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano, uma disposição à aventura. A curadoria aparentemente se esforçou em apresentar diferentes temas e olhares. No entanto, ela constrói para nós diferentes atos de como as violências intrínsecas a este Estado afetam a todos nós. Vamos aqui nos ater às pontas da mostra do dia, olhando mais atentamente como as questões de gênero perpassam as obras inicial e final.

Ainda escuto o céu embaixo d’água (dir. Alice Lovelace, Céuuva, Kalina Flor, Lua de Kendra, Marina Bonifácio, Morgana Neves, Nara dos Santos, Pérola Negra e Samantha de Araújo) com o olhar de nove diretoras travestis. O filme tem momentos de prosa e poesia. A primeira, uma conversa literal, em tom que lembra debate universitário, entre as personagens sobre as diferentes vivências trans/travestis em meio à agressividade do modelo cis-heteronormativo sobre as pessoas. É no final, porém, que as coisas vão ficando interessantes: as personagens, em meio à brutalidade do cenário de fundo, juntam-se para se ampararem umas às outras, demonstrando força na delicadeza, e logo são transportadas para uma mata mística, onde se submetem a uma espécie de batismo e ensaiam lutas com espadas-de-são-jorge. A planta aparece logo no início, o que de certa forma amarra as pontas da narrativa. O filme deriva de uma iniciativa de formação de um cinema feito por e para pessoas trans e travestis. É de se esperar que haja longevidade no projeto, e que as próximas narrativas explorem ainda mais as possibilidades estéticas decorrentes desses olhares.

Ajude Os Menor, de Lucas Litrento e Janderson Felipe, apresenta-se como o faroeste alagoano possível, fruto talvez de farta pesquisa que os diretores vinham fazendo em cima do gênero. O filme fechou a mostra da quinta-feira, 11 de dezembro de 2025, e nele é possível ainda reconhecer alguns elementos da produção anterior da dupla, Samuel Foi Trabalhar, em especial os diálogos com a cadência do jovem periférico, esse ser que na nossa sociedade é quase sempre visto com desconfiança. A trilha inicial nos remete ao Ennio Morricone e os faroestes de espaguete, enquanto vemos o caubói — ou melhor, o motoboi — desbravando os poucos rincões inabitados da cidade. Os jogos de câmera, a ideia de fazer o filme em preto e branco, as estilizações de interpretação são recursos que trazem algo de novo e ousado em relação ao que nossa cena cinematográfica geralmente apresenta, mas trazem ainda alguma estranheza, que pode decorrer do inusitado ou mesmo do fato de ser uma linguagem ainda em aprendizado dentro do nosso cinema.

E vejam só que coisa: a mostra começa com um coletivo de travestis de espadas em punho, prontas pra briga diária que é existir fora do “cis-tema”, e termina com um faroeste alagoano de elenco quase todo masculino. As mulheres aparecem apenas no tchauzinho da personagem de Wanderlândia Melo, em meio à grandiosidade inicial, e nas falas objetificantes dos trabalhadores, num dos poucos momentos onde lhes é dado respirar. É o tributo a se pagar para ser reconhecido como homem, pedreiro e caubói. Reproduzir, ainda que numa chave possivelmente irônica, as convenções de um gênero tão marcante na história do cinema, e ao mesmo tempo bastante polêmico, é um gesto ousado, que também pode cobrar um preço.

Por Ari Denisson, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano

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