Crítica: Alice (dir. Gabriel Novis)

Texto: Gabriela Luz. Revisão: Cleber Pereira

O protagonismo de pessoas dissidentes tem ganhado força nas produções deste século numa tentativa de reparar as lacunas históricas de representatividade e desigualdade. Porém, é válido refletir que nem todo filme protagonizado por uma pessoa queer, de fato, cumpre esta função política e cultural. Alice é esse filme.

Dirigido por Gabriel Novis, o curta alagoano, exibido no penúltimo dia da 16ª edição da Mostra Sururu, aborda a vida de Alice, uma mulher trans apaixonada pelo esporte, e é ao praticá-lo que vemos os melhores momentos da produção. Com os cabelos ao vento, ela faz manobras de skate de um jeito avassalador. As imagens retratam bem o amor que ela tem por isso. No mar, entre as ondas, encontramos a verdadeira Alice. Ela é forte, ágil, grandiosa. Esses momentos revelam uma personagem viva, que poderia sustentar o filme por outros caminhos. É realmente uma pena que esse não tenha sido o escolhido pela produção.

A protagonista, na maior parte do filme, revela uma tristeza profunda, quase como se estivesse a todo momento em sofrimento por ser trans. Existe um discurso nas imagens que é reforçado pela trilha sonora, que carrega um peso depressivo constante, pela fotografia escura, com contrastes e texturas agonizantes, pela voz em off, com textos que, por vezes, parecem ser plásticos, vazios, e pela sensação persistente de que Alice não está viva, ela está fugindo da morte. 

A obra tem a premissa de construir a personagem a partir de sua dor, que em grande parte se relaciona ao falecimento do pai, com o objetivo de mostrar o seu luto e, ao final, libertá-la no mar, quase como um renascimento simbólico. Isso é reafirmado por ela quando diz que se tornar Alice a salvou. No entanto, a violência estética e narrativa é tão extrema que as imagens acabam por produzir exatamente o oposto do que o discurso propõe. O curta não apenas retrata o sofrimento, mas insiste nele, como se celebrasse o peso de ser uma pessoa trans no Brasil. Um exemplo que sintetiza essa escolha está nas cenas em que se repete o noticiário “o país que mais mata pessoas trans no Brasil”, quase como um mantra. O que poderia operar como denúncia política perde força pela insistência e passa a funcionar como reforço simbólico da violência. A repetição não emancipa a personagem, apenas a submerge ainda mais num discurso de ódio.

Não parece existir, na obra, uma tentativa genuína de representar Alice para além desse enquadramento. O estilo do diretor é marcante, mas são imagens rápidas que não permitem mergulho e isso sobressai tanto à narrativa que pouco nos deixa saber sobre Alice, além de sua realidade triste e esmagadora enquanto travesti brasileira. A direção, nesse sentido, soa arrogante, especialmente ao priorizar uma estética calculada da dor, quase publicitária, que afasta a personagem de si e a coloca como um tipo de produto para o exterior. 

Como diz a cantora Urias em sua música “Voz do Brasil”: “Tudo muito bom”, na qual ela denuncia “eles” que tentam vender um Brasil que não existe, estereotipado. E se no Brasil que Urias imagina também queremos estar, o Brasil que Novis nos mostra é um país em que não queremos, nem precisamos, permanecer.

Por Gabriela Luz, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano

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