
Texto: Matheus Olegário. Revisão: Cleber Pereira
Em todo filme há um recorte. Nunca será possível contar a vida inteira de um personagem criado ou já existente, e quanto mais cedo o realizador perceber isso, melhor para a progressão narrativa do seu filme, especialmente se for um curta-metragem. O mesmo vale para as imagens, ao delimitar o que vai ser mostrado em tela, cada uma irá causar mais impacto. Em Alice, faltou dosagem nesses sentidos.
O filme exibido na sessão Redes N’água, da Mostra Sururu, começa com a notícia de que o Brasil é o país que mais mata pessoas trans, depois fala sobre o suicídio do pai da personagem, da transição dela, da relação com o surf, da amiga Helena, da religião, do skate, entre outros. E não, o filme não tem 3h de duração, e sim, 17 minutos. Com isso já é notório que ele não desenvolveu nada disso. Na verdade, desta lista, tem coisas que são apresentadas com uma frase e somem do curta.
Alice diz que sentiu uma diferença de tratamento na comunidade do surf quando começou sua transição. Era de se esperar que isso fosse mais aprofundado ao observar todos os momentos envolvendo água e mar em tela e também pela divulgação do filme relacionando a personagem com esportes, mas ela só apresenta aquilo por cima e nunca mergulha de fato no tema. Os únicos mergulhos aqui são, literalmente, cenas dela mergulhando.
O excesso de narrativas apresentadas ainda se mistura com dispersas ideias visuais. Cenas dela na água, na chuva, no esporte, olhando uma projeção, dançando, na igreja evangélica, etc. A maioria é super estilizada, o que leva a crer que o diretor estava mais interessado em montar seu portfólio o mais rápido possível, colocando tudo que pensou já nesse curta. Essas imagens sozinhas são belas (apesar de algumas serem genéricas e já batidas), mas a sucessão incansável delas tira qualquer impacto. Alice vira uma modelo, e não uma protagonista de fato. A cena dela no skate com um look jeans, por exemplo, que poderia ser impactante se a história dela com o esporte fosse melhor colocada, acaba parecendo um making off de uma sessão de fotos para alguma revista.
A intenção com todo esse exagero deve ter sido realizar uma imersão na subjetividade de Alice. Porém, o filme já começa com a notícia ampla de que “o Brasil é o país que mais mata pessoas trans”. Percebe-se a vontade de incluir essa linha narrativa a todo custo, vista a repetição da informação e o excesso de composições melodramáticas em torno disso. Mas não é necessário reiterar que esse e nenhum comentário social foi bem desenvolvido aqui (assim como todo o resto). E é curioso ele voltar tantas vezes nessa estatística (que é a única presente) tão violenta e fatalista numa obra que, aparentemente, quer exaltar a vida de uma personagem. Que por sua vez parece ser muito interessante, mas é difícil saber por aqui. Pelo menos a diva ganhou um book bacana.
Por Matheus Olegário, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano
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