Crítica: Alice (dir. Gabriel Novis) e Deyse Ex Machina (dir. Jasmelino de Paiva)

Texto: Isa Soares. Revisão: Cleber Pereira

A sessão Rede N’água trouxe dois filmes que, mesmo sem intenção, estabelecem uma relação entre si: Alice e Deyse Ex Machina têm os nomes das suas protagonistas e histórias centradas em ambas, porém com escolhas narrativas e técnicas que criam diferenças significativas de um curta para o outro.

Alice traz a perspectiva de sua protagonista acerca da sua transição de gênero, em meio a aspectos e momentos delicados de sua vida: o suicídio de seu pai, um relacionamento de altos e baixos com sua mãe, sua conexão com o surfe e a amizade como uma das coisas mais importantes em sua trajetória de autodescobrimento. O filme soa como um relato muito resumido de Alice sobre si, o que apesar de ser compreensível, levando em conta a aparência introvertida da protagonista, gera curiosidade para ver um aprofundamento em certos temas – como a relação dela com a mãe e a igreja, seu contato com o skate, o início das suas amizades, algumas impressões sobre si própria dentro dos seus processos e outros assuntos com potencial para contextualizar melhor a história – e isso poderia até render conteúdo para um formato de longa-metragem, mesmo que nesse caso o filme desapegasse um pouco da fotografia – a qual, apesar de ser muito bonita e poética, talvez precisasse assumir um caráter ligeiramente mais narrativo ao invés de optar pelo tom ilustrativo usado para sustentar a falta de detalhamento no curta.

Por outro lado, Deyse Ex Machina tem um apelo narrativo bem construído na sua fotografia, que impacta diretamente no desenrolar cômico da trama, a qual acompanha a protagonista Deyse no dia de seu aniversário, atrapalhada por pequenas inconveniências e embalada pelo deslumbramento das pessoas do seu convívio com uma nuvem em formato de animal. Aqui, o jogo do bicho aparece mais como elemento simbólico do que em materialização direta. Muitas cenas trazem referências visuais de animais, como o volante com estampa de onça do carro de Deyse, as cenas mostrando animais nas ruas do Mercado da Produção e a nuvem, cuja forma é sempre descrita como a de um animal diferente. E em alguns momentos surgem na tela os nomes dos bichos sorteados no jogo, os quais nunca se relacionam com as demais referências animalescas evidentes no curta, num artifício sagaz para demonstrar a má sorte da protagonista naquele dia. 

Também é muito perspicaz o jeito que o filme brinca com a ideia do “deus ex machina”, sendo este um elemento geralmente fantástico que surge para resolver e/ou concluir conflitos de uma narrativa. Existe, em alguns momentos, uma expectativa de que algo muito extraordinário aconteça para mudar a sorte da protagonista, sendo essa expectativa mais concentrada na figura da nuvem. No entanto, a maior parte das resoluções da trama é bem simples e o “deus ex machina” vem da atitude da própria Deyse, que, gerando uma comicidade presente no que há de inesperado na cena, a partir disso se reafirma na sua própria história independente das suas pequenas desventuras – afinal, seu sobrenome não é Ex Machina à toa.

A análise conjunta dessas duas obras consegue instigar uma observação interessante: Alice apresenta ao público as histórias da protagonista de modo que, apesar de deixar escancarada a importância delas para fazer Alice se tornar quem ela é, não dão tanto espaço para ela se mostrar além disso; já Deyse não conta muito sobre si, seu passado ou seu presente logo de cara, mas ao longo do filme, é possível percebê-la nas suas vivências, no seu comportamento, nos seus desejos e nas suas atitudes, e esse desenrolar da personagem é justamente o que gera a vontade e a curiosidade de acompanhá-la e descobrir quais serão seus próximos passos, à medida em que as coisas acontecem no seu dia. A partir disso, surge um questionamento: conhecemos mais Alice ou Deyse?

Apesar de serem dois filmes com premissas distintas, ambos têm dinâmicas temporais desafiadoras de se representar e conciliar num curta-metragem. Contudo, Deyse Ex Machina parece compreender melhor suas intenções e para alcançá-las, além de escolhas inteligentes de roteiro e fotografia, se apoia em atuações cheias de uma naturalidade muito bem utilizada e em aprofundamentos explorados de maneira coerente com a duração e o contexto do curta, criando assim uma obra coesa e divertida de assistir.

Por Isa Soares, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano

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