Crítica: Era uma Vez Diversiones (dir. Henrique Arruda e Sharlene Esse)

Texto: Gabriela Luz. Revisão: Maria Bogado. Imagem:: divulgação

Quais são as narrativas mais importantes para este momento histórico?
A maioria das produções que assistimos na “Mostra Que Desejo” deste ano tenta responder a essa pergunta, não apenas numa tentativa de apresentar filmes relevantes pelo conteúdo das suas representações, mas de impactar quem assiste com sua força das formas narrativas. “Era uma vez Diversiones”  faz isso ao acompanhar o movimento que o cinema queer tem feito em retratar, de forma mais plural, personagens dissidentes. O roteiro não tem medo do que é caricato, mas se diverte reconfigurando os estereótipos midiáticos aos quais pessoas LGBTQIA+ geralmente são associadas. A opacidade da obra se encontra exatamente na reivindicação do existir, nas singularidades e semelhanças entre as personagens que guardam sempre algum mistério.

Apesar de ser um filme biográfico, ele não se limita a isso e nos leva, de forma cômica, ao início da história de Sharlene Esse, primeira-dama trans do teatro pernambucano. Sharlene tem uma trajetória fundamental para a história das artes cênicas no Brasil e atuou durante a ditadura, período em que as artes cênicas passavam por processos de censura e perseguição por parte do governo. A grande premissa da obra acompanha as discussões que estamos tendo no cinema nacional atualmente, a dívida histórica que o Brasil, por conta da censura, tem com os grupos minorizados e/ou militantes que se opunham ao regime militar. Com um roteiro de ritmo de diálogos que dialoga com as produções de comédia contemporâneas e uma montagem marcada por cortes rápidos, o filme ganha força ao se tornar acessível para o grande público, mesmo abordando uma temática tão delicada.

Em uma montagem cênica cômica que remete aos anos 1960, a maior parte do filme é em preto e branco, com diversos efeitos sonoros que evocam filmes antigos. A direção de arte  reforça essa atmosfera, é criado um ambiente nostálgico, habitado por personagens extremamente carismáticas, que nos recebem com afeto, como se nós fôssemos a própria Sharlene. Somos convidados a sentar junto à plateia de um espetáculo que, a todo momento, é colocado à desaprovação de quem o assiste na tela, mas, para nós, é um vislumbre que tece reflexões a respeito da liberdade e da vida dessa população de forma simples e quase pedagógica, o que não é um ponto negativo, pois o objetivo do filme desde o início, parece ser personalizar essas personagens, humanizá-las.

E esse é, sem dúvidas, o aspecto que mais nos fascina ao ver a obra, as atuações de personagens icônicas que representam pessoas reais, celebrando suas memórias. É uma homenagem que, apesar de não explorar de forma muito profunda as violências, escolhe narrativamente enxergá-las por outro ângulo. Em um momento histórico em que o cinema brasileiro busca reparar suas lacunas de representação, “Era uma vez Diversiones” opta pelo caminho da esperança, e, nesse caso, isso significa finalizar o curta com Sharlene Esse interpretando “Eternamente”, de Gal Costa.

 

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