Crítica: Maceió é Massacrada (dir. Vivian Drielli)

Texto: Nara Almeida. Revisão: Cleber Pereira

Maceió é Massacrada, dirigido por Vivian Drielli, traz à tona a ironia da burguesia maceioense, que se incomoda mais com as pichações em muros do que com os descasos do poder público em incontáveis setores que empobrecem a atmosfera urbana. Pichações são referidas como crimes. Já o que o governo faz, como desviar verba pública para cantores milionários e para embelezar a orla, enquanto deixa toda a população em perigo à margem de crateras no solo, passa ileso. Bom, tudo isso, massa.

O filme busca uma dinâmica muito sagaz e retrata, ou melhor, denuncia diversos assuntos que poderiam ser abordados por horas e ter filmes à parte, mas de forma sintética consegue não deixar ponto sem nó, o que é louvável, por ser um desafio e tanto para um curta-metragem.

A introdução é inegavelmente perspicaz e instigante; sequências de imagens explícitas de omissão pública, problemáticas que serão pinceladas ao decorrer do curta, contrastadas com um jingle de propaganda da prefeitura.

Os depoimentos de opiniões díspares são colocados em sequência para reforçar tal ironia. Ainda que com ar artificial e engessado, fica evidente que as falas de quem critica o picho e exalta a estética da orla são encenações. Mesmo assim, funciona como um bom recurso satírico.

A quantidade de personagens de diferentes áreas atribui mais credibilidade ao documentário com moradores jovens e mais velhos de bairros afetados pela Braskem e das periferias historicamente apagadas, somadas às intervenções de especialistas. Outros artifícios também são utilizados com esse efeito, como gravações no celular por moradores, momentos após o desabamento do solo, de modo que anunciam: existe gente aqui, vivenciando tudo e resistindo.

Os que esperam um tom incisivo e agressivo serão surpreendidos. O objetivo do documentário é trazer uma crítica clara e rigorosa, mas que não ultrapassa níveis de revolta, mesmo que justificáveis. Ao apontar as lacunas da gestão, em nenhum momento a direção cita nomes ou recorre a ataques diretos. As imagens do real e os discursos de quem vive na pele o abandono já são agressivas e revoltantes o suficiente. Isso é um ponto fortíssimo do curta.

O assunto das pichações é abordado com pontualidade e não é o foco central da narrativa, mas surge como um fio condutor para destacar a força da voz do povo que, mesmo para quem não vê, tem voz e grita, e se expressa de todas as formas que pode, seja com o picho ou pelo cinema. Com isso, o filme aproveita bem a linguagem cinematográfica como instrumento didático e ferramenta de denúncia poderosa, de uma riqueza informativa que prende a atenção de todos os públicos, que saem com a frase-título gravada na mente. 

Abre os olhos para as feridas abertas da cidade paraíso das águas.

Por Nara Almeida, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano

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