
Texto: Gabriela Luz. Revisão: Cleber Pereira
Movimento Perpétuo, longa-metragem de Leandro Alves, foi o filme de abertura da Mostra Sururu em 2025. Lançado no mesmo ano, é um filme do interior de Arapiraca que aborda, de forma híbrida, entre o documentário e a ficção, a vida de seu protagonista, Edvaldo, dono de uma fazenda e com interesses peculiares sobre os astros, o cinema, o rádio e a música. Apesar da presença de outras personagens, ele é o fio condutor da obra.
O dilema inicial de Edvaldo é a questão com o seu coração, que nos conduz à cena do hospital, onde descobrimos que ele precisa fazer uma nova cirurgia. No entanto, ao longo do filme, esse conflito vai sendo dissipado por outras camadas que a obra coloca em cena. A atenção se desloca para a construção quase mítica do protagonista, suas facetas, seus gestos e símbolos. O coração permanece ali, mas perde centralidade, diluído em meio a outras tentativas de significação. Somente nos últimos minutos do filme voltamos ao coração. Essa falta de definição revela uma hesitação da obra, tenta construir mito ou ficção, mas não sustenta os caminhos que escolhe. A tentativa de construir sentido a partir dos signos também se esvazia. Um deles é o cometa verde, gerado por inteligência artificial, que aparece repentinamente até a cena em que se sobrepõe ao coração de Edvaldo, sugerindo uma conexão. Essa relação encontra alguma justificativa na ligação do protagonista com os astros e com a natureza, elementos que atravessam a obra, mas que surgem de forma esparsa, pouco elaborada. O que torna o “cometa” quase um recurso estético, mais do que uma metáfora. E este é o grande ponto negativo do filme; a sua falta de coragem em se definir.
É justamente na representação feminina que essa falta de coragem se torna mais evidente. Quando somos introduzidos à história de sua esposa, Morena, ela aparece sempre em função dele. No hospital, lembrando-lhe das medicações. Na mesa do café da manhã, ao lado e em segundo plano, numa configuração patriarcal hierárquica. Na sua própria história de vida, quando descobrimos que ela se refere a ele como “Seu Edvaldo”, pois sua família trabalhava para ele.
Essa personagem retrata bem o arquétipo persistente da mulher alagoana interiorana, cuja existência é validada exclusivamente pela relação com o homem. Enquanto em Edvaldo são ressaltados seus interesses intelectuais, Morena fica com o trabalho na roça e o cuidado dos animais. E, tratando-se de uma mulher negra, podemos enxergar o quanto essa realidade é problemática e urgente por si só. Mas, ao invés de reconhecer e enfrentar essa questão, considerando que são personagens reais, o filme escolhe recuar. Opta por um movimento que funciona quase como um pedido de desculpas, um parêntese no meio da narrativa, introduz uma nova mulher que narra sua trajetória naquele espaço de forma mais progressista. No entanto, ela não possui relação com o núcleo central de personagens, funcionando mais como uma tentativa de compensar o apagamento anterior do que como uma peça coerente da trama. O resultado é uma solução artificial, desconexa, que não repara nem complexifica o problema, apenas o desloca.
No fim, apesar de apresentar personagens interessantes, um som com construção etérea que compensa algumas questões rítmicas e cenas com elementos que entregam veracidade à história, o filme enfraquece a potência desses elementos ao submetê-los à lógica dos signos, que aparenta mais uma tentativa de prolongar o tempo de tela do que de construir sentido narrativo. Movimento Perpétuo peca ao não acreditar em si.
Por Gabriela Luz, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano
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