Crítica: Movimento Perpétuo (dir. Leandro Alves)

Texto: Isa Soares. Revisão: Cleber Pereira

Em meio à natureza de Arapiraca, “Movimento Perpétuo” traz histórias separadas que constroem a narrativa se entrelaçando umas às outras, criando uma circulação que, inclusive, se faz presente em algumas imagens do filme, como a vitrola e as máquinas do sítio de Edvaldo. Os objetos nos cenários são simples e antigos em sua maioria, porém a composição de cena e a fotografia ajudam a notar o caráter valioso que esses objetos têm para os personagens – por mais que essa relação pudesse ser mais aprofundada em alguns momentos. A sonoplastia chama muita atenção, visto que o filme tem poucos momentos de silêncio e todos os sons têm propósitos muito claros e até sugestivos, especialmente para construir um suspense nos primeiros minutos e no início dos arcos de cada personagem – o que foi compreensível para gerar uma expectativa sobre as cenas em questão, porém exagerado depois de entender que o que há por trás das cenas é, na verdade, o mais puro encanto.

Esse encanto representa o que move cada figura ao longo do filme: a curiosidade de Edvaldo pelos astros, a paixão de Dudu pela tecnologia e pelo cinema, o chamado de Mago para a música. Chamado é uma palavra que também descreve bem esse encanto, uma vez que esses interesses e aspectos dos personagens surgem no filme como coisas extraordinárias demais para fazer parte do dia a dia deles, mas que acabam se tornando rotina, mesmo assim. Sabendo disso, os artifícios de suspense usados para apresentar esses arcos fazem com que o encanto se perca na primeira metade do filme e sobreviva apenas na segunda metade, quando essas tramas começam a ser apresentadas como coisas mais corriqueiras e menos ocultas – no entanto, urge a necessidade desse encanto não só sobreviver, mas sim viver o máximo possível durante o filme.

Há uma construção muito interessante entre o velho e o novo, a tradição e a tecnologia, o sagrado e o mundano, o ordinário e o extraordinário: cada um desses conceitos opostos tem sua transição e sua mescla mostrados principalmente nas relações dos personagens uns com os outros – a exemplo de Edvaldo e Dudu – e com o que é natural nas suas vidas, como o dilema da menarca de Letícia e a espiritualidade do Mago. Também é possível perceber o equilíbrio entre a valorização não só do cotidiano dos personagens numa Arapiraca, ao mesmo tempo antiga e em desenvolvimento, mas também dos aspectos dessas figuras que perpassam o regional e a tradição para dar um toque místico e até mágico às histórias de cada uma delas, sendo este o verdadeiro movimento perpétuo que permeia os 70 minutos do longa.

O uso da encantaria brasileira e das crenças populares na trama teve uma intenção muito boa, porém peca ao imprimir um mistério que se torna desnecessário em cenas cujo caráter é de naturalidade e, tocando novamente no ponto do natural, a inteligência artificial na cena da aparição do cometa foi algo incômodo, pois acabou quebrando a organicidade desenvolvida e mostrada durante todo o longa, e talvez houvesse outras formas de causar o efeito fantástico desejado pelo diretor, sem trazer uma plasticidade desconexa de toda a fotografia.

Por Isa Soares, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano

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