Crítica: Santo Errado (dir. Daniel Ricardo)

Texto: Isa Soares. Revisão: Cleber Pereira

Santo Errado, de Daniel Ricardo, traz para à atualidade um enredo muito visto em mídias com uma representação mais antiga e “tradicional” do Nordeste: as crenças religiosas populares. As tão conhecidas simpatias amorosas para Santo Antônio aparecem aqui com um lado mais obscuro e oculto representado nas energias sobrenaturais de uma sexta-feira 13, também muito conhecida entre os nordestinos mais interessados nas teorias do mundo espiritual. 

A mistura de elementos católicos e pagãos consegue mostrar a variedade existente dentro da religiosidade nordestina e intensifica o misticismo do filme acompanhada do som, da iluminação em tons quentes e da animação em traços de cordel e xilogravura que abre o curta no tom certo de suspense e o encerra num clímax muito bem desenvolvido ao longo da narrativa. No entanto, essa intensidade poderia ser melhor trabalhada no jogo de câmera e de luz em alguns momentos, a exemplo da cena de Ezequiel e Rita, que acontece em um só plano e cujo final acaba perdendo um pouco de sua força por conta disso. Essa perda de força também ocorre nos diálogos das personagens femininas com Ezequiel, que poderiam trazer o mistério do filme em conversas mais sucintas e, dessa vez, com menos intensidade.

Algo que chama muita atenção é a representação do desejo de amor a partir de uma figura masculina. É muito comum ver em histórias como Santo Errado a idealização amorosa vinda de uma personagem feminina ou, quando vem de um homem, aparecendo geralmente na busca de uma mulher perfeita dentro de moldes misóginos ou egoístas. Contudo, a figura aquileana de Ezequiel tem em si uma vontade latente de amar e ser amado com muita inocência e pureza – mostrada por Gaba Gabriel com uma sensibilidade que foge dos estereótipos nos quais o personagem poderia cair se fosse mal compreendido por seu intérprete – e sem a tentativa de atribuí-lo outro gênero que não o masculino, trazendo uma visão de homem pouco desenvolvida em um contexto como o deste curta.

O filme traz uma perspectiva contemporânea para temas antigos brincando com o tom caseiro do terror trash e com a ideia de magia, aparentemente mais intencionada aos dons de Rita, na bruxaria, e à aparição de Antônio. 

Entretanto, essa magia pode ser percebida até melhor em outras coisas, como no cenário residencial mais moderno – provando que as histórias nordestinas não se tornam menos regionais fora da cenografia sertaneja do século XX, a qual as produtoras geralmente estão condicionadas –, na atuação natural e cuidadosa de Gabriel, dando vida (e morte) a Ezequiel, e na animação – a qual, além de bonita e bem feita, pareceu um ótimo artifício para resolver potenciais problemas no progresso do curta, se feito inteiramente em live-action, a exemplo de uma reprodução pouco marcante do contexto narrativo no prólogo e da necessidade de efeitos práticos na cena final, que poderiam ser difíceis de executar dentro das condições de produção.

Por Isa Soares, com supervisão do Mirante Cineclube, para o Laboratório de Crítica Cinematográfica da 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será divulgado


*