Joga pedra na Geni? 

Texto: Alice Muniz

A inclusão e permanência de pessoas dissidentes no audiovisual brasileiro

A história de Geni, imortalizada na música de Chico Buarque, ecoa ainda hoje nas estruturas do audiovisual brasileiro. Corpos trans e não-bináries seguem sendo alvo de violências simbólicas e materiais. Sofrem com a exclusão, o assédio, o silenciamento e o apagamento, não só como personagens, mas também como profissionais. E no entanto, como Geni, seguem sendo poços de bondade, imaginação e potência. E por isso, resistimos.

Este artigo nasce da urgência de falar sobre a transfobia estrutural no setor audiovisual, mas também da necessidade de ir além da denúncia. Porque não queremos ser reconhecidas apenas como vítimas de violência, queremos ser vistas como agentes criativas da transformação do cinema brasileiro. Queremos não só denunciar a exclusão, mas reivindicar o nosso direito à memória, à narrativa e ao protagonismo.

Segundo pesquisa da UNI Global Union e da Federação Internacional de Atores, 95% das pessoas trans e não-binárias relataram ter sofrido violência ou assédio no mercado audiovisual da América Latina. Esse dado por si só já deveria mobilizar uma resposta institucional imediata. Mas a realidade segue marcada por silêncios convenientes e mudanças cosméticas.

No Brasil, ainda são raros os corpos trans e não-bináries que ocupam funções de liderança na cadeia produtiva do audiovisual. Quando estamos nos sets, estamos frequentemente relegades a posições de base, sem autonomia, sem segurança e, muitas vezes, sem remuneração justa. E isso não é por falta de talento, nem de formação, nem de ética profissional. Isso é transfobia estrutural.

É diante desse cenário que nasce a APTA – Associação de Profissionais Trans do Audiovisual, uma entidade jovem, que atua na interseção entre luta política, ação institucional e reivindicação de espaço para corpas dissidentes em todas as etapas da produção audiovisual. A APTA nasceu para romper com a lógica de exclusão e afirmar: nós temos currículo, temos experiência, temos talento. E queremos estar da assistência à chefia. Da sala de roteiro à distribuição das obras cinematográficas.

Porque a questão não é apenas ocupar lugares: é contar histórias a partir de nós mesmas. Histórias que sejam complexas, reais, múltiplas, e que não estejam a serviço do olhar cis, branco, masculino e heteronormativo que historicamente dominou a linguagem do cinema. O cinema precisa de outras estéticas, outras narrativas, outros corpos em cena e atrás das câmeras. E isso só virá se o setor reconhecer o valor criativo e político da nossa presença.

Mas a questão vai além de representatividade. Trata-se de linguagem. De criação. De imaginação. O cinema brasileiro precisa com urgência oxigenar suas estruturas e narrativas, que se repetem, se reciclam, se esgotam. O público já não se emociona com as mesmas histórias. E os profissionais também já não suportam os mesmos bastidores. O cinema precisa de renovação. Precisa de novos imaginários. 

E ninguém melhor do que pessoas dissidentes para realizar esse deslocamento. Porque são essas vivências que, historicamente, tiveram que inventar caminhos onde não havia estrada. Temos muito a oferecer e não apenas como personagens ou como pautas. Mas como roteiristas, diretoras, fotógrafas, produtoras, atrizes, pensadoras e líderes. A presença trans e não-binária no audiovisual não é concessão: é potência.

A diversidade que queremos não é vitrine. É transformação profunda, estrutural e comprometida com dignidade. Queremos condições reais de trabalho, queremos segurança nos sets, remuneração justa, acesso à formação, políticas públicas específicas e permanência em todas as etapas da cadeia produtiva da indústria do audiovisual.

E a APTA quer construir esse caminho em aliança. Associações, coletivos e profissionais precisam se articular politicamente para garantir que a inclusão não seja pontual, mas estrutural. Para isso, propomos a criação de grupos de trabalho interassociativos, com apoio jurídico, institucional, financeiro e comunicacional. Porque a fotografia do audiovisual que queremos precisa estar à altura da pluralidade e diversidade do nosso Brasil, e não apenas como nosso Brasil tem sido fotografado.

O cinema brasileiro está exausto de suas repetições. E não há salvação possível sem escuta real às vozes historicamente silenciadas. É hora de abrir espaço para a força criadora das travestis, mulheres trans, das transmasculinidades, das pessoas não-binárias,  indígenas, negras, periféricas e descentralizadas do “eixo” Rio-São Paulo. Não como favor. Mas como direito.

A Constituição Brasileira garante a todas as pessoas o direito à cidadania, à dignidade, à cultura, ao trabalho. Isso também vale para nós. Cabe agora à indústria audiovisual decidir se seguirá ignorando essa garantias, ou se escolherá ser parte ativa de um país mais justo, mais criativo e mais plural.

Afinal, como Geni, já fomos de tudo e de todas. Mas agora queremos ser de nós mesmas. Donas das nossas imagens. Donas das nossas palavras. Donas de nossas produtoras. Donas da nossa própria narrativa.

E a indústria do audiovisual só tem a ganhar com isso. É a indústria que perde excluindo e discriminando pessoas dissidentes. Então, fica a dica.

Be the first to comment

Leave a Reply

Seu e-mail não será divulgado


*