Rosa Mossoró: uma ficção em dois tempos

Texto: Beatriz Vilela.

Exibidos na Mostra Paralela nomeada Rosa Mossoró, Angustura e Bolacheiras, abriram o primeiro dia de sessões da Mostra Mulheres +. São dois filmes alagoanos que trazem consigo a atuação de Rosa Mossoró, uma das mulheres mais importantes da vida cultural maceioense, cuja trajetória se confunde com os roteiros dos dois filmes. A escolha por começar as atividades da mostra com esses filmes, que estão fora do padrão cinematográfico heteropatriarcalbranco, foi um gesto muito importante não apenas pra gente fortalecer a produção de autoria feminina, mas também para gente criar um registro visual que fomente nossa memória sobre quem são as mulheres que movimentam a cena cultural da capital alagoana. Afinal, se a história do mundo é uma grande ficção, porque não realinhar nossas ficções sociais a partir da trajetória de mulheres pretas?

Em Angustura, de Duda Moreira e Eduarda Sofia, Rosa Mossoró interpreta uma dona de bar, ofício que a acompanhou por muitos e muitos anos, como também conformou sua trajetória familiar. Para quem conhece as boas histórias de Maceió sabe que ela é filha do Mossoró, um dos donos das maiores boates da cidade, Areia Branca, que ficava na terra prometida, o bairro do canaã. Nessa atuação Rosa também se coloca como uma espécie de mentora que incentivará os outros personagens que estão ao seu redor a não esmorecer ou desistir da sua atividade cultural. Algo que foi muito presente na militância de Rosa, incentivar e proteger aqueles que chegavam perto dela. Fortalecidos pela palavra de Rosa, os jovens partem para um ensaio final de sua apresentação, o que deixa o clima tenso, é o fato de que há um decreto proibindo a realização dessas atividades. Uma forma de censura. A ideia do roteiro é muito boa, no entanto, ao meu ver, faltou mais elementos dramáticos para sustentar essa resistência cultural do espaço.

Outro filme que acompanhou Angustura na sessão foi Bolacheiras, dirigido por Aislan Benedito, Camila Silva, Luciele Silva e Luiza Leal. Neste documentário o público é convidado a entrar na casa de Rosa e conhecer sua intimidade, suas histórias de dor e luta e sua versão mais cômica. Isso ocorre principalmente pela escolha do ambiente cênico, e claro, Rosa demonstra estar bem confortável no espaço, esparramada no sofá, com seus quadros, essa escolha se soma ao modo despojado como ela interage com sua interlocutora. Um dos principais desafios dos documentários que focam uma  personagem, ao me ver, é construir uma montagem que permita ativar um encantamento constante pela personagem, com o intuito de evitar no público um desinteresse pela sua fala, e também nos despertar o desejo de ouvi-la mais. Parece simples, mas é muito desafiador recortar trechos de fala, e fazer ter um sentido.

Bolacheiras faz muito bem isso. Uma técnica muito utilizada no filme é entremear as imagens da personagem com os elementos afetivos da casa dela, e junto disso, escolher planos mais fechados em seu rosto, isso nos aproxima dela, é como se estivéssemos em um bar ouvindo suas histórias. Um ponto alto do filme, é quando as duas rosas se encontram: a jovem rosa emoldurada no quadro contemplando a madura rosa. Duas rosas.
Os dois filmes estetizam a vida e a luta de Rosa Mossoró, seja pela interpretação de si mesma junto a um elenco, ou na interpretação de si de modo mais espontâneo. Na ficção dramatizada ela reencena o seu cotidiano e na ficção documental ela se abre para o público e quebra a quarta parede. São duas formas diferentes de estetizar a personagem, a primeira foca na atuação e a segunda foca no depoimento. São dois tempos de uma mesma ficção. Apesar das diferenças entre os dois filmes, num só tempo eles se encontraram no mesmo território: A luta e a trajetória de Rosa Mossoró.

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