Crítica: Ainda Escuto o Céu Embaixo d’Água (dir. Alice Lovelace, Céuva, Kalina Flor, Lua de Kendra, Marina Bonifácio, Morgana Neves, Nara Dos Santos, Pérolla Negra e Samantha de Araújo)

Texto: Kaique Wendel e Mariana Carvalho. Revisão: Larissa Lisboa.

O curta-metragem Ainda Escuto o Céu Embaixo d’Água constrói uma narrativa sensível e profundamente simbólica ao transformar a água em memória, silêncio e sobrevivência emocional. Mais do que contar uma história linear, o filme aposta na sensação, criando uma experiência quase íntima para o espectador. O título já antecipa essa proposta poética: “escutar o céu embaixo d’água” sugere um estado de sofrimento emocional, mas também de contemplação e resistência.

O diálogo emocional construído entre as personagens merece destaque pela forma sensível e verdadeira com que é apresentado ao longo da narrativa. Logo nas primeiras cenas, os momentos de desabafo entre elas ajudam a criar uma forte conexão afetiva, aproximando não apenas as personagens, mas também o público da realidade vivida por aquela comunidade. As conversas revelam medos, inseguranças e dores que surgem diante do preconceito e da transfobia ainda tão presentes na sociedade.

Além disso, a obra consegue transmitir sentimentos profundos sem perder a delicadeza em sua abordagem. A fala da personagem principal ao afirmar que “é difícil sonhar” sintetiza, de maneira marcante, as dificuldades enfrentadas por pessoas que vivem constantemente à margem da aceitação social. Essa declaração carrega um peso emocional importante, fazendo o espectador refletir sobre os obstáculos impostos pela intolerância e pela exclusão.

Outro ponto que chama atenção é a estética visual da produção, construída de forma cuidadosa e simbólica. As cenas em que as personagens aparecem usando trajes ligados ao candomblé valorizam elementos culturais e espirituais que reforçam a identidade delas dentro da narrativa. A fotografia e os figurinos contribuem para criar uma atmosfera sensível, bonita e cheia de significado, ampliando ainda mais a força da mensagem transmitida.

Por fim, a obra ressalta a importância da fé, da esperança e da união diante das adversidades. Independentemente da religião ou crença, a narrativa mostra como o apoio coletivo e a resistência podem servir como ferramentas para enfrentar a dor e o preconceito. A mensagem final transmitida é de força e acolhimento, destacando que, mesmo em meio às dificuldades, permanecer unido é essencial para acreditar em dias melhores.

Este texto foi escrito como exercício da disciplina Oficina de Produção Audiovisual (UFAL), ministrada pela professora Gabriela Palmeira.

Sobre Larissa Lisboa
É coidealizadora e gestora do Alagoar, compõe a equipe do Fuxico de Cinema e do Festival Alagoanes. Contemplada no Prêmio Vera Arruda com o Webinário: Cultura e Cinema. Pesquisadora, artista visual, diretora e montadora de filmes, entre eles: Cia do Chapéu, Outro Mar e Meu Lugar. Tem experiência em produção de ações formativas, curadoria, mediação de exibições de filmes e em ministrar oficinas em audiovisual e curadoria. Atuou como analista em audiovisual do Sesc Alagoas (2012 à 2020). Atua como parecerista de editais de incentivo à cultura. Possui graduação em Jornalismo (UFAL) e especialização em Tecnologias Web para negócios (CESMAC).

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