O que para a gente funciona como barreira, para quem pratica parkour vira caminho

Entrevista realizada por Kei Ferreira para o Parkour Nacional.

Diretora de Virada na Jiraya, Acássia Deliê fala sobre a construção de uma protagonista inspirada em Chris Terra, a presença feminina no parkour, a ocupação da cidade e a potência dos encontros que transformam vidas.

Quando começou a desenvolver Virada na Jiraya, Acássia Deliê não pretendia fazer um filme sobre esporte. O que a interessava era outra coisa: contar uma história sobre transformação. Inspirada pela praticante de parkour Chris Terra, pela periferia de Maceió onde cresceu e pelo álbum homônimo de Flaira Ferro, a diretora encontrou no movimento dos corpos pela cidade uma forma de falar sobre desejo, autonomia, pertencimento e afeto.

No curta, o parkour não aparece apenas como prática física. Ele se torna uma metáfora para as travessias da protagonista, uma mulher que tenta reencontrar espaço para si mesma em meio às exigências do trabalho, da família e dos relacionamentos. Ao transformar obstáculos em possibilidades de passagem, a personagem também revisita a própria história.

A relação entre cidade e corpo atravessa toda a obra. Filmado em espaços que fazem parte da memória da diretora, Virada na Jiraya apresenta uma Maceió distante dos cartões-postais turísticos. Escadarias, conjuntos habitacionais e pontos de encontro ganham protagonismo em uma narrativa que discute permanência feminina no esporte, sexualidade, colaboração e ocupação dos espaços urbanos.

Em entrevista ao Parkour Nacional (PN), Deliê fala sobre as origens do projeto, a participação da comunidade na construção do roteiro, os desafios de representar o parkour sem estereótipos e as conversas que espera provocar dentro e fora da cena.


PN: Como surgiu a ideia de Virada na Jiraya e por que o parkour foi escolhido como linguagem central da história e não apenas como cenário?

Deliê: Virada na Jiraya surgiu a partir de três grandes inspirações: a primeira é a periferia de Maceió, onde cresci. A segunda, que responde diretamente a essa pergunta, é a própria Chris Terra, a protagonista, que eu conheço desde adolescente e sempre achei lindo vê-la praticando Parkour em Maceió. E a terceira é o álbum homônimo, Virada na Jiraya, da cantora pernambucana Flaira Ferro. Sempre quis fazer um filme com a Chris por achar aquela prática do Parkour esteticamente e visualmente muito bela, ver o corpo dela se movimentando pela cidade radicalmente. Quando a Flaira lançou esse álbum, em 2019, me veio a ideia de criar esse roteiro. Eu não queria fazer um documentário, queria fazer uma ficção para homenagear os clássicos pop do cinema que fizeram a minha cabeça na adolescência. Então, o Parkour aparece aí como uma ideia central, uma das três inspirações centrais.

PN: A Chris vive esse conflito entre o desejo de voltar ao parkour e as expectativas externas. Esse sufocamento vem de vivências reais que vocês observaram, especialmente dentro da cena?

Deliê: Muito legal essa pergunta porque permite falar sobre uma das grandes referências do filme, que foi uma reportagem da TV Vanguarda de São Paulo, sobre o encontro nacional do Parkour feminino, na cidade de Taubaté-SP, em 2020. Essa reportagem mostrava imagens de meninas e jovens mulheres praticando Parkour desde o nível iniciante e essas imagens acabaram viralizando de uma forma negativa entre os homens nas redes sociais, principalmente no Twitter. Na época, fizeram chacota das meninas e eu lembro que isso gerou um movimento de resposta também intenso das parkouzeiras. Isso me marcou e foi uma das referências que trouxe ao dirigir Virada na Jiraya.

PN: O filme apresenta uma “virada” a partir da chegada da Sol. Ela funciona mais como apoio, espelho ou confronto para a protagonista?

Deliê: Acho que ela funciona como essas três coisas ao mesmo tempo. É como funcionam, afinal, os encontros mais profundos que a gente tem ao longo da vida: de alguma forma a gente se apoia nas pessoas que a gente ama, ao mesmo tempo em que as apoia; a gente também serve de espelho nesses encontros; e, quanto mais eles se aprofundam, mais nos confrontam com a nossa própria realidade, com as nossas ideias sobre a vida e sobre nós mesmas. Então, a Sol é essa figura que representa o poder de um grande encontro em nossa vida.

PN: O retorno da Chris é mais sobre o parkour ou sobre se reconectar com ela mesma?

Deliê: É sobre se reencontrar consigo mesma por meio do Parkour. O Parkour tem uma filosofia muito bonita: como a gente transforma aquilo que seriam barreiras no nosso dia a dia em molas propulsoras, em ferramentas que nos auxiliam a chegar em um outro lugar. Isso eu aprendi com a própria Chris. Quando ela leu o roteiro, pedi que ela me apontasse possíveis imprecisões em relação à comunidade e um dos apontamentos foi justamente esse: no roteiro inicial, a gente tinha uma competição de Parkour e ela me disse que isso não era muito comum no Brasil, que aqui se organizavam mais em encontros. Mais colaboração e menos competição. Então, o que para a gente funciona como barreiras (os muros, as calçadas, as valetas), para quem pratica Parkour estes são elementos usados para atravessar, para chegar a outro lugar. Quando você transpõe uma barreira, você vai para um outro lugar. O Parkour para a Chris é justamente essa virada: usar essa barreira como mola para atravessar a própria história.

PN: Sendo uma produção com presença feminina forte, isso impactou a forma como o corpo, o risco e a cidade foram filmados?

Deliê: Absolutamente. A escolha da Rita Moura como diretora de fotografia passa por aí. A Rita tem um olhar muito especial, muito contemplativo da nossa realidade. A escolha mais óbvia para filmar o Parkour seria trazer o ritmo frenético dos movimentos corporais, mas a Rita traz uma visão mais poética. Tivemos bastante cuidado, inclusive eliminando cenas que apresentavam um risco maior à integridade física da Chris. O importante pra gente não era desafiar os limites dela enquanto “corpo intérprete”, mas apresentar a beleza do Parkour e sua própria filosofia.

PN: Qual foi a principal preocupação de vocês ao representar o parkour sem cair em estereótipos ou simplificações?

Deliê: Mesmo em uma obra de ficção, a gente sempre retrata algo da realidade. A Chris é muito importante para a comunidade do Parkour no Brasil e eu não podia fazer um roteiro sem que ela se identificasse com aquele texto. Minha maior preocupação foi que cada fala da Chris fosse entendida por uma jovem mulher praticante. Ela ajudou a inserir detalhes sutis, mas profundos, como o cumprimento de braços entre ela e o Adriano no início do filme, é um cumprimento da comunidade do Parkour em Maceió. Acredito que praticantes vão reconhecer essa imagem e esse cuidado. Reforçamos também a filosofia da colaboração em detrimento da competição, inclusive revisando atentamente as traduções do filme para outros idiomas, que inicialmente haviam utilizado o termo “competição”.

PN: A atriz principal já tinha contato com o parkour ou esse corpo foi construído durante o processo?

Deliê: Sim, a Chris é praticante de Parkour há mais de 20 anos, muito respeitada no Brasil, especialmente em Alagoas, que é a terra natal dela. Ela me inspira enquanto corpo em movimento nessa cidade, desde que eu era muito jovem. O que foi construído no filme foi o lado emocional dessa esportista fictícia, que eu acho que a Chris fez de forma fantástica.

PN: Houve participação de praticantes na construção das cenas? Como isso influenciou o resultado?

Deliê: Sim. Além da própria Chris, convidamos um grupo de homens jovens praticantes de Parkour em Maceió, com apoio do Igor Couto. Junto com o Igor, esse grupo participou da cena inicial do filme que mostra a Chris sendo afastada dessa prática pelos amigos. Na ficção, claro.

PN: Maceió aparece apenas como cenário ou interfere diretamente na forma como a personagem se move e vive a história?

Deliê: Acredito que Maceió é parte do elenco, é personagem também. Trazemos uma Maceió que não é turística. A praia aparece como lugar de contemplação, encontros, trabalho e reflexões, e não de exploração turística. É como muito jovens da periferia, como eu, enxergávamos a praia. Filmamos também na periferia onde cresci, em um conjunto residencial onde minha avó mora até hoje, na parte alta da cidade. Mostramos a escadaria do Santo Amaro, na Grota Santa Helena. É o corpo dessa jovem periférica se relacionando com esse espaço urbano e ocupando a orla com esportes ativos e sexualidade liberta.

PN: O filme toca em uma questão importante: permanência. Na visão de vocês, o que mais afasta alguém — especialmente mulheres — do parkour?

Deliê: O que afasta as mulheres é uma soma de elementos. No filme, a Chris traz as respostas para essa pergunta: ela é responsável pela renda da casa, trabalha durante o dia e estuda à noite para melhorar de vida, tem tempo curto para si mesma. Tem também o impeditivo da mãe, que se preocupa com esse corpo na rua, e tem a camada do namorado que, sob pretexto de protegê-la, acaba afastando-a do esporte. Recentemente, vi uma palestra da historiadora Aira Bonfim, que estuda o futebol feminino, falando que o futebol feminino é um “outro futebol”, pela forma diferente como as mulheres se relacionam dentro do esporte. O Parkour é um tanto assim. É um esporte muitas vezes mal visto porque ocupa radicalmente o espaço urbano e atravessa as barreiras da arquitetura. Agora imagina essa ocupação radical realizada por mulheres.

PN: O que alguém do parkour vai reconhecer como verdadeiro no filme? E o que pode causar estranhamento?

Deliê: Acredito que os praticantes vão reconhecer a maioria dos elementos como verdadeiros, porque trabalhamos o roteiro com a própria Chris, retirando o que não fazia sentido para ela. O que pode causar estranhamento talvez seja justamente a fotografia contemplativa do Parkour, algo não tão comum em filmes de ação.

PN: O filme já passou por festivais e recebeu prêmio. Em que espaços ele é mais compreendido: dentro da cena do parkour ou fora dela?

Deliê: Até agora as exibições foram para público geral em festivais. Ainda não recebi esse retorno da cena do Parkour no Brasil e espero que essa reportagem possa levar o filme à comunidade para podermos escutar como foi essa recepção.

PN: A seleção para o festival LGBTQIA+ abre outra camada de leitura. Essa dimensão já estava presente desde o início?

Deliê: Sim, desde o início eu queria fazer uma história de amor entre duas mulheres. Quando surgiu a oportunidade de criar esse roteiro em Maceió, com o Parkour e com a música da Flaira, que é uma ode à potência feminina, eu quis homenagear romances do clássicos pop do cinema pelo viés sáfico. Imagine um Dirty Dancing ou um Flashdance entre duas mulheres, com muita música e a trajetória da heroína abraçando essa história de amor.

PN: Que tipo de conversa vocês esperam provocar com o filme dentro e fora da comunidade?

Deliê: Dentro da comunidade do Parkour, esperamos promover debates sobre a presença de gêneros e sexualidades dissidentes, sobre a importância de formar meninas e jovens no esporte. E, de modo geral, queremos falar sobre a importância das mulheres ocuparem as cidades com segurança, sem medo. O filme também permite conversar sobre questões de trabalho, questões de classe, as dificuldades que jovens mulheres enfrentam para realizar seus desejos em uma sociedade que exige excelência em vários papéis sociais, além de questões familiares, amorosas e transportes ativos.

PN: Se Virada na Jiraya pudesse deixar uma marca na cena do parkour, qual seria?

Deliê: A resposta está na direção de arte assinada pela Maísa Cavalcanti: é uma cena da Chris ensinando Parkour a três crianças na orla de Maceió e, ao fundo, uma ilustração da jogadora Marta com três meninas que representam o futuro do futebol brasileiro. Essa imagem ficou famosa na última Copa do Mundo feminina. Essa é a marca: o esporte sendo passado para novas gerações como forma de gerar autoestima e confiança nessas futuras mulheres.

PN: O que vocês escolheram não mostrar sobre o parkour ou sobre a personagem e por quê?

Deliê: Algumas cenas foram eliminadas porque entendemos no set que ofereciam riscos desnecessários à Chris. Eram imagens desejadas, mas optamos pela segurança. Também descartei trechos do roteiro que a Chris não via sentido, pois eu queria que ela ficasse extremamente à vontade com a personagem, e acho que deu muito certo.

PN: Existe algum tipo de leitura sobre o filme que preocupa vocês, algo que possa ser interpretado de forma diferente do que foi pensado?

Deliê: Acredito que, quando colocamos uma obra artística no mundo, ela está passível de receber diversas leituras, inclusive as que nunca passaram pela nossa cabeça. Isso não me preocupa, o filme foi construído com mais de 30 pessoas que respeitaram muito a história e os processos do filme, então as interpretações são livres. Estou curiosa para ver o que mais pode surgir.

PN: Essa história se encerra no filme ou vocês enxergam possibilidade de continuidade seja da personagem ou desse universo?

Deliê: Possibilidades e ideias sempre existem, mas, no momento, nada muito concreto. Se acontecer uma continuidade desse universo, certamente vamos convidar a comunidade do Parkour Nacional para estar junto.

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