
Texto: Rastricinha Dorneles. Revisão: Larissa Lisboa. Imagem: Vanessa Mota/Olhe pra mim (divulgação)
Recentemente, tenho visto veículos do audiovisual e entidades da área do cinema criticando a Lei Paulo Gustavo (LPG). Eu fico abismada com tamanha cara de pau!
O que se espera de uma política pública voltada para a produção industrial? Um país do tamanho do Brasil, que historicamente concentra sua produção em apenas duas cidades, demonstra o total sucateamento do nosso ecossistema. Afinal, o problema é a concorrência? Porque a crítica que vejo é que nasceram filmes demais.
Quem tem medo de um cinema nacional descentralizado? Quem tem medo do sucesso fora do eixo?
É um fato que os filmes nasceram. Os municípios e estados fizeram suas prestações de contas. Nunca se discutiu tanto cinema brasileiro em nível municipal. Outra ideia muito equivocada é a crítica às cotas e às chamadas “minorias”. Política pública só é de minoria quando atende apenas aos ricos. Quando ela adota cotas, garante que o investimento público chegue de forma proporcional aos índices populacionais.
Dentro das regras dos editais, não precisamos devolver o investimento do governo. Fazemos cinema pelo direito de fazer cinema, e a falha é permitida como parte de um processo de desenvolvimento industrial. O eixo falhou muitas vezes e, ainda assim, o investimento continuou sendo justificado. Como vamos desenvolver nossos territórios sem investimento, se também pagamos impostos e assinaturas? Somos público e profissionais que merecem a nossa parte.
Quando poucas pessoas controlam a produção do imaginário, isso enfraquece a soberania e a independência econômica. A União não pode continuar tendo territórios favoritos.
As empresas da internet, como os streamings, nasceram sem regulamentação, e seu comportamento é o mais predatório possível. O governo dos Estados Unidos percebeu que o cinema era uma grande ferramenta de construção de identidades coletivas. Por isso, durante décadas, impôs limites à concentração entre produção e exibição. Havia uma separação entre quem produzia e quem exibia. Os streamings estão alterando essa lógica e ameaçando a soberania cultural ao criar um império desterritorializado.
A LPG e as cotas são mecanismos de preservação dessa soberania imaginária, e não devemos criticar os resultados de uma política tão recente. Até parece que vocês não trabalham com cinema e não entendem que só conseguiremos medir plenamente esses resultados entre oito e doze anos após o investimento.
Mas uma coisa já sabemos: os filmes realmente foram feitos. Os curtas nasceram, começaram sua circulação, estão ganhando prêmios no Brasil e no mundo. Os longas estão chegando, e tenho certeza de que muitos deles farão história.
Isso não é sobre votos. É sobre direitos civis, que não devem ser confundidos com os privilégios de uma minoria rica do Brasil.
Esse dinheiro gerou empregos, aqueceu a economia do país inteiro e provou que o cinema nacional é muito maior do que o cinema da cidade de São Paulo e da cidade do Rio de Janeiro. Esses territórios fazem muito, mas não fazem mais do que o restante do país. Não devemos acreditar em algo diferente disso.
O investimento nacional deve ser proporcional à dimensão do país. Rio e São Paulo podem investir em seus próprios territórios e, inclusive, deveriam compartilhar conhecimento com outros municípios para que eles façam o mesmo. É isso que fortalece o cinema nacional.
Neste mês em que se celebra, o dia do cinema brasileiro – em 19 de junho foram feitas as primeiras filmagens no Brasil por Alfonso Segreto há 128 anos-, convido a celebrar a LPG como uma das políticas públicas mais democráticas e efetivas que já tivemos, porque cumpriu sua função emergencial e movimentou a economia do país inteiro, dando o protagonismo que esta nação merece.
Por sugestão do Alagoar, ilustramos esse texto com um registro dos bastidores da gravação do longa alagoano Olhe pra Mim (dir. Rafhael Barbosa – na imagem o diretor de fotografia Roberto Iuri) que foi financiado através de três editais de incentivo público realizados em Alagoas, entre eles: LPG e PNAB.
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