Cavalo, entrevista com Joelma Ferreira, Robert Maxwell, Leide Olodum e Alexandrea Constantino

Perguntas: Karina Liliane e Roseane Monteiro. Revisão: Karina Liliane, Larissa Lisboa e Roseane Monteiro. Fotos: Vanessa Mota/divulgação. Respostas: Joelma Ferreira, Robert Maxwell, Leide Olodum e Alexandrea Constantino

Cavalo é o primeiro longa-metragem alagoano produzido por meio de edital público com recursos do Fundo Setorial do Audiovisual – FSA. Após sua estreia no circuito de festivais em Janeiro de 2020, na 23ª Mostra de Cinema de Tiradentes, Cavalo vem atraindo olhares de público, crítica e curadoria e assim já conta com mais seis seleções em festivais no Brasil e no exterior. Durante sua participação no 4º Festival ECRÃ de Experimentações Audiovisuais, no último mês, foi o segundo filme mais visto do festival contabilizando quatro mil e trinta e nove visualizações.

O elenco desse filme híbrido, que mescla ficção e realidade, é composto por sete dançarinos(as)/performers negros que através de seus corpos imergem na ancestralidade afro-diaspórica.

Cavalo é contraste e  polifonia, é cidade e periferia , fincado na lama e na ancestralidade. Essa entrevista tenta exibir um pouco da relação intrínseca entre corpo e energia da natureza a partir da dança e da religião. Nela parte do elenco compartilha como foi participar dessa experiência. Vocês poderão mergulhar em todo processo vivenciado por eles desde a seleção até as filmagens e como se sentiram ao ver o filme finalizado.

Karina Liliane: Vocês já tinham algum contato com audiovisual antes de Cavalo? O que achavam da linguagem?

Joelma Ferreira: Já tinha participado como figurante em 2 propagandas para a TV. Uma foi ao ar e a outra não.

Robert Maxwell: Foi meu primeiro contato Audiovisual, a linguagem para mim foi  fundamental para meu currículo de artista.

Leide Olodum: Sim. Porém Cavalo vem com uma bagagem maior. Confesso que é tudo novo e que ainda estou a entender mais sobre o audiovisual.

Alexandrea Constantino: Sim, o início desse contato foi em 2007 com o curta Bar A.K.A, no Rio de Janeiro, nem sonhava em fazer cinema. Em 2015 (RJ), fui convidado para protagonizar o curta-metragem Ícaro, de Carla Shah com o qual ganhei o prêmio de melhor performance e dança no Festival Experimental de Cinema em Toronto no Canadá, o filme ganhou ainda mais três prêmios internacionais em outros festivais. Além destes, trabalhei em outros quatro filmes entre curtas, médias e longas. Já atuei também em web séries para internet, comercial, e tv.

Algo distante, como uma realidade não construída pra mim. Mas lembro que a minha infância foi muito alimentada por filmes, pelo cinema na tv. Depois que experienciei como ator/performer percebi que é uma experiência sensacional, por vezes frustrante, uma linguagem ponte, que possibilita a utopia da imortalidade…rsrs. Como ator/performer no palco, no teatro, de modo geral, temos toda parte técnica e artística, mas percebo que lá nós estamos no controle, nós somos o termômetro, a ponte entre a obra e o público, nossos erros podem ser ressignificados, a experiência é a obra em vida. Já no audiovisual; a câmera, a direção, a montagem entre outras tantas partes técnicas e artísticas são elementos que também oportunizam a história de ser contada ou apresentada ao público. No cinema depois que as imagens são capturadas, montadas e distribuídas a obra tem sua vida definida, podendo claro provocar diversos estímulos, sensações, emoções, mas a obra em si não será alterada.

Karina Liliane: Como foi o processo de seleção para participar de Cavalo? Como vocês ficaram sabendo do teste, todos participaram ou integraram o elenco de uma outra forma?

JF: Por acaso, na época, eu estava fazendo aulas de tecido acrobático na Sururu Circo e a produtora do filme, Renah Roxo, também. Então o convite aconteceu ali naquele ambiente. Na verdade, ela me disse que estava com meu número para me ligar (antes de nos conhecermos pessoalmente) e falar sobre o teste porque algumas pessoas já tinham falado de mim para ela. Realmente foi mesmo uma coincidência esse encontro antes da ligação acontecer.

O teste foi uma entrevista individual. Nos foi pedido para falar da nossa vida com a dança, da nossa trajetória e depois dançar um pouco. Mostrar o nosso trabalho.

RM: Eu fiquei sabendo da seleção, do teste, através do meu professor de dança Leonardo Emiliano que me informou!

LO: Através de testes. Fui convidada por Rafhael Barbosa para fazer o teste de elenco.

AC: Foi através de testes, vi nas redes sociais. Foi uma conversa acolhedora desde o início e a apresentação de um solo escolhido por nós. Lembro-me de Rafhael e Werner proporem um espaço confortável e amigável, ali o que mais interessava era a troca, a partilha, a escuta sobre nossas vivências e nossas relações com o corpo, a dança, a ancestralidade. Inclusive as entrevistas de nós sete estão liberadas no site do filme, vê lá e compartilha.

Karina Liliane: O filme começa abordando a criação dos seres. Como foi o processo de criação dos seres aos quais vocês dão vida no filme? Quanto tempo durou?

JF: O processo se deu em paralelo às gravações. No meu caso, sinto o trabalho mais coletivo que individual, pois não tive tempo de estudos a sós como outros colegas tiveram. Entendi que essas escolhas dependeram do percurso de cada um no filme e das necessidades que os preparadores iam encontrando no decorrer “das aulas”. No entanto, tudo que foi trabalhado em conjunto contribuiu diretamente para a criação do meu solo. Tudo estava interligado. Acredito que durou em torno de 10 dias.

RM: O que deu vida aos seres foi a história individual de cada um dos sete atores, o processo de criação foi com base na vida de cada um.

LO: Através da genialidade dos preparadores [Flávio Rabelo e Glauber Xavier] que conduziram os ensaios e a busca pela construção do filme gerou um processo sensível, caloroso e principalmente ancestral.

AC: O filme começa abordando a criação do ser humano a partir de uma perspectiva afro diaspórica, atentando para a ideia de mundo como uma cosmologia, com é em África.  Vale dizer que quando dizemos África estamos falando de um continente com mais de 50 países. Cavalo é um filme híbrido; passeia entre a realidade, que não é o real,  e o ficcional, assim também foi à criação de nossas participações no filme.

Acompanhados por dois preparadores de elenco, Flávio Rabelo e Glauber Xavier, fomos instigados a pesquisar, mergulhar em nossa ancestralidade, motivados/direcionados em um processo artístico de cocriação, buscando o que nos movia de encontro a nossa ancestralidade, nosso desejo. O que movia nosso corpo, nossa dança? O que é o candomblé, onde se fundamenta? Onde África vive em mim? O que são e como se fundamentam essas narrativas ora marginalizadas, distorcidas? Dentre outras perguntas, essas eram algumas das que me rondaram para construção da minha performance, da minha presença no filme.

Um exercício nada fácil esse de mergulhar em nossa ancestralidade visto que o Brasil foi o último país do ocidente a abolir a escravidão (1888), além é claro de em Alagoas termos sofrido em 1912 o Quebra de Xangô que desmobilizou todo nosso processo, nossa tentativa de restabelecimento social e cultural enquanto povo descendente de África.

A preparação em sala de ensaio foram de 5 dias antes do set e as filmagens duraram 28 dias.

Preparadores e elenco em cena de Cavalo.

Roseane Monteiro: Algum de vocês (Alexandrea Constantino, Joelma Ferreira, Leide Serafim Olodum e Robert Maxwell) já tinha atuado em algum projeto de audiovisual antes de Cavalo? Se sim, qual foi a maior diferença o que você sentiu para a filmagem desse longa? E se nunca atuou, me conta como foi essa experiência?

JF: Nunca participei de um projeto audiovisual antes. Foi uma experiência incrível, forte!  “Experiência” no entendimento de Larrosa Bondía, sendo aquilo que nos passa, que nos acontece. Algo pra mim, precioso.

Depois do filme meu olhar sobre a cidade voltou a ser mais afetivo, como se houvesse um pedaço de mim nos lugares onde gravamos e assim reafirmando um sentimento de pertencimento desse meu território, desse meu lugar, desse povo que resiste e se torna criativo diante dos embates opressores à cultura negra aqui em nosso estado. Além disso, sinto que o trabalho segue reverberando com intensidade quando percebo que fui escolhida pelo meu objeto de pesquisa, no mestrado, Oxum.

RM: Nunca atuei antes do filme Cavalo. A experiência foi única, enorme, aprendi muito mesmo durante o processo do filme. Foi tudo mágico, forte, emocionante. Profissionalismo em tudo, carinho, disciplina, controle corporal e emocional também.

LO: Há uma diferença grandiosa por conta dos lugares das gravações, dos ensaios específicos e a experiência única com todos os envolvidos.

AC: Dos filmes que tive a satisfação de trabalhar até hoje, Cavalo não só trata sobre a questão de ser afrodescendente no Brasil, mas estimulou em nós a busca, a pesquisa por essa ancestralidade pouco estimulada por nosso país, nossos pais, nossa sociedade. No curta Ícaro, a personagem estava inconformada, havia o incômodo, mas a personagem ainda estava presa ao passado só no final que decide uma nova criação, decide um novo começo. Em Cavalo as personagens já começam em estado de potência, assumindo sua narrativa.

Karina Liliane: O processo de criação/ensaio foi guiado por dois preparadores de elenco (Flávio Rabelo e Glauber Xavier). Vocês já tinham passado por uma vivência desse tipo? Como cada um interferiu no processo? Os estímulos propostos por ambos vinham de métodos/caminhos similares, contrários, complementares?

JF: O processo guiado por eles foi complementar, como eles já se conhecem e já trabalharam juntos por bastante tempo havia essa similaridade nas propostas, e como eu venho do curso de Dança da Ufal e trabalho na Companhia dos Pés que é uma companhia de Dança Contemporânea aqui de Maceió, já estava familiarizada com as proposições lançadas.

LO: Já tinha  experiência, mas nada comparado a esse porte. A interferência no processo fez com que eu utilizasse meu corpo com propriedade em acordá-lo com movimentos da minha natureza ancestral, também da natureza de cada um dos protagonistas.

RM: Foi uma experiência única de máximo aprendizado, mas nossas vidas já tinham a mesma vigência, tipo, em comum, a dança, a musicalidade e a herança de matrizes africanas.

AC: Sim, de modo geral nos outros trabalhos/filmes que participei tivemos a figura do preparador corporal, ou do coreógrafo. No longa de René Guerra que está em pós produção Serial Kelly, Flávio Rabelo foi nosso preparador corporal. Em Ícaro (2015), eu também era acompanhado, não por um preparador, mas por um coreógrafo. Com Ícaro eu vivi a busca de um jovem afro inconformado, indagando seu lugar no mundo, ele não se encaixa no que estava socialmente determinado, sai em busca de sua liberdade. Em Cavalo não há desencaixe, há potência, espaço de cocriação.

Flávio e Glauber se conhecem há anos e trabalham juntos, o modo como cada um se colocou pra mim foi onde cada um se sentia potente. Em Cavalo, Flávio me trazia a presença, o corpo; Glauber me convocava através da música. Sintonia perfeita. Complementares.

Making of: Joelma Ferreira

Roseane Monteiro: Como foi a preparação individual para atuar nesse filme?

JF: O único momento em que estive só foi na performance. E a preparação foi uma breve massagem, alongamento e aquecimento para entrar em cena. Ah, houve também uma pesquisa na internet sobre Oxum e os elementos que a cerca. Isso durante todo o processo do trabalho.

LO: Através dos ensaios diários respeitando o processo de criação da direção, tornando-se fundamental e favorável ao meu dia a dia diante da minha vivência na cultura afro. 

RM: O meu preparo foi montar uma coreografia individual para fazer uma cena específica com base contemporânea e movimentos complexos do break.

AC: O filme nos pedia algo que transitasse entre a realidade e a ficção, busquei mergulhar em minhas sensações e percepções afro indígenas em diáspora, um estudo que unia autoestima, autoconfiança e uma dose de fé, sem deixar de pedir um aprofundamento no que em mim pulsa ancestral. Estivemos juntxs por 5 dias, mas antes deles muita dança, corrida, alongamentos diários.

A preparação de Cavalo, pra mim tá sendo uma preparação para a vida, um ajuste com  minha história, com meu lugar, com minha ancestralidade, com meu país, com meus pais, amigxs e familiares. Com meu corpo preto, diversidade sexual em diáspora.

O filme nos impulsionou a ir de encontro a África, a nossa ancestralidade, nossa arte, nosso corpo, nossa potência.

Roseane Monteiro: A sequência de abertura de Cavalo foi realizada no manguezal. Você pode comentar como foi o processo de filmagem nesse ambiente?

RM : O processo de filmagem começou durante a manhã, retratando o nascimento do ser quando mamãe Nanã Burukê traz o homem do barro. Ficamos o dia inteiro na lagoa.

LO: Momento único, experiência incrível, o contato com o manguezal me fez lembrar e sentir que minha natureza é viva, confesso que não fui até a natureza ela veio até a mim. Quem estava lá sentiu o quanto ela é viva, que fomos abençoados por mãe Nanã.

AC: Foi mágico, delicado, cuidadoso. Estivemos em pesquisa de locação no espaço e pude percebê-lo, senti-lo, vivenciá-lo.

O lugar é lindo e logo me soltei, mas de fato não foi dos mais fáceis. Eu estava gripado e tossindo muito, segurei e não disse nada para a equipe, não queria por nada atrapalhar aquele momento, era na água então imaginem..rsr  Optei por fazer nu e descalço, senti que tinha haver com o clima e a proposta, machucou muito meus pés enquanto eu tentava encontrar equilíbrio e dançar. Por outro lado tinha uma pesquisa minha acontecendo ali, como fazer parte daquele espaço/tempo ancestral, em meio às pedras, restos de madeira, cascas de crustáceos, raízes, a equipe. Tinha vida ali, fui aos poucos percebendo que mais do que procurar um resultado, deveria vivenciar aquela relação, o que acontecia ali. No mais o processo foi bem conduzido e cuidadoso, de muita escuta.

Roseane Monteiro: Como foi dançar sentindo o poder que emana da terra, das raízes? 

RM: Foi uma sensação de poder máximo em contato com a terra e as raízes. Todo meu sentimento emocional aflorou e despertou em mim um pouco da raiz africana de cada orixá me trazendo muita confiança, enorme satisfação e bênção.

LO: Sou de religião de Matriz Africana posso dizer que sou suspeita em falar sobre os elementos da natureza, minha religião cultua a natureza que vem de um matriarcado ancestral.

AC: Foi muito profundo, poderoso, me forneceu uma conexão até então não experienciada, me possibilitou sentir a grande árvore avó!

Leide Olodum e Alexandrea Constantino em cena de Cavalo.

Karina Liliane: Como essa experiência mexeu com cada um de vocês e com seus fazeres artísticos?

JF: Me colocou de forma mais profunda diante da minha negritude através da ancestralidade, através da dança. Chegando a lugares íntimos na minha vida. Foi muito emocionante viver Cavalo e assisti-lo continua sendo. Sinto que há em mim, uma ligação infindável com toda a equipe e com o sagrado e isso vai reverberar nos meus próximos trabalhos, com certeza. E como falei anteriormente, meu projeto de pesquisa do mestrado é sobre a dança de Oxum, sem viver essa experiência certamente não seria.

LO: Incrivelmente. Abrindo portas e janelas, acordando para mudança.

RM: Bom, mudou muito. Tanto o lado artístico quando o lado de cultura negra e vários outros fatores benéficos para a alma e companheirismo!

AC: Sempre que sou afetado cocrio uma obra, o indivíduo em mim também é afetado, mexido. Em Cavalo fomos convidados a mergulhar de maneira potente em nossas vidas/obras, essa relação com a vida a qual não fomos estimulados, nem encorajados, essa potência que é ser afro brasileiro. Uma vez tocado por essas questões vida e obra se atualizam.

Karina Liliane: Qual o momento mais marcante, para cada um, durante as filmagens?

JF: Sem dúvidas meu solo. O jogo dos búzios também foi super importante, mas o solo foi indescritível.

LO: A filmagem no manguezal.

RM: O momento mais marcante pra mim foi o processo de criação coletiva. Tivemos um enorme afeto uns pelos outros e a energia me fez sentir em família.

AC: Os primeiros encontros com toda equipe. Sou curioso, amo conhecer novas pessoas, acessar novos saberes, o primeiro momento com a equipe geral foi lindo, saudoso, forte.

Karina Liliane: Como se deu a decisão por desnudar ou não os corpos em suas performances? Como o nu é encarado por cada um de vocês dentro dos seus processos artísticos/de criação além do filme?

JF: Vejo a nudez no meu trabalho como poesia, como posicionamento político, como figurino, como corpo de animal que somos, vejo pureza, sexualidade. Um corpo nu é abrangente demais, somos imensidão. E no caso do filme, primeiro eu pensei na beleza estética de um corpo nu dançando na escuridão. Criei essa imagem na cabeça e achei bela. Depois fui percebendo que a sensação era de um reencontro ou “nascimento” e para mim precisava ter porque eu me sentia provocada, descamada, em conflito com uma outra Joelma. Enfrentando desafios prazerosos onde medo e desejo guiaram essa minha trajetória. A equipe do filme tinha um figurino para mim, dancei com ele também, mas não fazia sentido para mim não ter nudez.

LO: Então, no processo da filmagem chegou certo momento que eu com certeza já não estava mais ali no manguezal, deixei-me levar pela força da natureza e quando vi e senti já estava sem a parte de cima da roupa e encarei profissionalmente.

RM: Eu encaro super normal, até quando a gente nasce já viemos nus a esse enorme mundo!

AC: O processo foi aberto a cocriação, cada performer, bailarino tinha livre escolha para sua elaboração e criação. Como ator eu já havia sido convidado e me recusado a participar de algum trabalho onde meu corpo ficasse exposto, nu. Não tinha maturidade para tal ato.

Em 2007 quando fui morar no Rio de Janeiro depois de um mergulho profundo como ator no grupo de teatro Tá na Rua, sob a direção de Amir Haddad no qual fiquei por quase três anos comecei a experimentar outras possibilidades, mas de fato a compreensão do poder que a utilização do corpo nu tem artisticamente se deu em um processo pessoal e acadêmico na época que estudava psicologia na PUC-Rio, lá comecei uma pesquisa acadêmica sobre performance art e passei a experimentar vivências nesse sentido. Aos poucos fui percebendo o quão potente era, mas ali também ficou claro o quanto que o corpo nu em pleno século 21 ainda era um tabu. E sendo eu um corpo afro (preto) o que representava socialmente esse corpo e os controles e estigmas a ele direcionados? Hoje meu corpo afro indígena é minha casa, meu veículo, minha comunicação, meu templo. E trago com ele todos os atravessamentos vivenciados, assim como todo seu potencial.

Making of: Alexandrea Constantino, Leide Olodum e Rafhael Barbosa.

Roseane Monteiro: O corpo é um dos instrumentos do ator assim como é um elo perante as forças da natureza. O que você leva dessa experiência sensorial, religiosa e corporal? 

JF: Um pouco mais de compreensão no processo (complexo) que antes era totalmente desconhecido por mim, mais respeito e admiração pela preciosidade dos conhecimentos religiosos afro-brasileiros e carinho por esses agentes da cultura africana em Alagoas.

A experiência no corpo às vezes nos deixa sem palavras para dimensionar, para descrever. Do ponto de vista de um estudo artístico de aproximação à religiosidade como metodologia para construir espetáculos é formidável. Há saberes que só o corpo vai compreender, nesse caso, o corpo negro.

LO: Levo comigo a certeza que estou no caminho certo, o corpo é a morada sagrada para nossos ancestrais.

RM: Gratidão, absorvição, sempre aprendizado e consciência corporal e de alma!

AC: O corpo é o instrumento do ator, do performer, do bailarino, os demais sentidos provém do corpo. Tudo é corpo, ou o corpo é tudo. No candomblé o corpo é esse possível receptáculo para manifestação, sem o corpo não temos notícias dessas interações dimensionais.

Essa experiência faz parte de uma expansão pela qual venho passando desde o ano de 2015 quando voltei a Maceió, um chamado, uma conexão que se estabelece a partir de uma tomada de consciência histórica e ancestral. Trago aprendizados que me impulsionam ainda mais a investigar, pesquisar, mergulhar, vivenciar a cultura afro, a minha história, meus ancestrais.

Roseane Monteiro: Alguns estudiosos dizem que o Orixá da cidade de Maceió é Nanã, depois dessa experiência fílmica, você pode comentar sobre essas sinergias no set?

JF: Tudo se apresentava mais intenso. Seja nas gravações com todos juntos ou no solo. Existia um clima de tensão no ar, mas não uma tensão que paralisa e sim uma tensão pelo nosso estado de atenção e escuta do corpo do outro. Uma inteireza provocava essa tensão e como estávamos lidando com os elementos da natureza, nada estava desvinculado de uma energia outra, ao meu ver, de uma energia ancestral em que a musicalidade dos atabaques nos ligava nos momentos em grupo. Já ao fim meu solo, feito no silêncio, o clima era de suspensão.

LO: Bem, somos banhados por lagoas como não poderíamos ser filhos de Nanã a mulher que está ligada a criação? Somos massapê. Quando nos juntamos senti que a direção de um modo geral se deparou com seres artísticos que tinham algo em comum. A ancestralidade aflorava na pele de todos os que já tinham experiência com o espiritual. Havia curiosidade e busca por conhecer mais a matriz africana, também por igualdade e respeito em geral. Então vi que o respeito foi o sentimento chave para tudo acontecer.

AC: Eu tive a satisfação de fazer uma visita ao set ainda em processo de pesquisa do filme então pude conhecer o local e sentir a energia que emanava dali e de fato foi surpreendente, pude mergulhar no rio e sentir o manguezal, sentir meus pés se conectarem com aquele espaço, passar Nanã em meu corpo, pedir licença e a conexão se estabeleceu de cara. Claro que no dia da filmagem muita coisa muda, muita gente, a responsabilidade de dar certo, câmeras, me alteram e alteram o espaço, mas no caso de Cavalo, penso que conseguimos um bom resultado, eu perfeccionista que sou sempre acho que pode melhorar, mas agora é com o público e com o que eles captarem do filme. E conhecendo Maceió como conheço é muita água, muito manguezal, não podia dar outra, é de Nanã.

Uma coisa posso dizer essa força esteve presente o tempo todo nos abençoando.

Salve Nanã Buruquê! Salve Maceió! Salve o cinema alagoano no mundo!

Making of: Glauber Xavier e Robert Maxwell

Roseane Monteiro: Vocês sentiram algum tipo de dificuldade nas cenas de performance ou nas cenas documentais?

JF: Não. Porém senti medo da liberdade que eles estavam me dando para criar. É difícil essa opção de ter todas as opções rsrs. Será que eu vou dar conta? Será que eles vão gostar? Será que eu vou gostar? Será que vai ser o que eles esperam? Enfim.

LO: Tenho que confessar que senti medo em minha travessia pela lagoa Mundaú. Quando entramos no barco começou a chover muito, doía em minha pele, por mais que estivesse com uma sombrinha. O trajeto era de Fernão Velho ao Pontal da Barra, teve início aproximadamente 01h30min da manhã, retornamos depois com o vento forte, umas 15hs em um barco só eu e pescador.

RM: Senti uma leve dificuldade em processo de performance, mas consegui realizar mantendo meu pensamento alinhado e fluido.

AC: Como falei sofri um pouco no manguezal, meus pés ficaram doloridos. Fora isso não lembro agora de nenhuma dificuldade específica além da já citada.

Karina Liliane: Por fim o que é Cavalo para cada um de vocês?

JF: O filme Cavalo foi uma experiência forte, arrebatadora. Um atravessamento de afetos. Mas não consigo dizer: Cavalo é… Parece limitar o que foi ou o que é.

LO: Um grande divisor de águas. É uma oportunidade para que todos que assistam Cavalo conheçam nosso estado, nosso trabalho e a cultura Alagoana. Somos plurais!

RM: Cavalo significa para mim ser abençoado. Uma ligação eterna diretamente com seu orixá e Exù, vai além da percepção humana.

AC: É a arte, a cultura do povo alagoano, o cinema afro futurista, fazendo história e eu feliz demais por estar nessa equipe vivendo esse momento histórico. É o desabrochar de uma flor que terá muitas pétalas e novas flores pra mostrar.

É o novo cinema, a vanguarda. Este cinema não é só Cavalo. Cavalo é o primeiro longa, mas já temos no estado alguns exemplos de jovens diretores promissores que trazem a narrativa e a dramaturgia afro em seus filmes em seu estado de potência, não mais nos representando como ex escravizados, mas mostrando nossa narrativa repleta de vida.

Basta pensar, sentir que depois de tantos anos o primeiro longa vindo de um edital de fomento é fundamentado no candomblé e traz como mote a potência de sete artistas, sete corpos, sete afros apresentando ao mundo nossa potência. Cavalo é nosso Xangô rezado alto!

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