Do que sei sobre Elinaldo

De Elinaldo Barros, sei de um homem forjado na luz e que se projeta por trás dos projetos.

De Elinaldo, sei mais que a imagem na TV, o rosto e a voz na tela então pequena, anunciando os filmes em cartaz, as sinopses saltando aos ouvidos em um sotaque de um inglês existente na fluidez do seu falar.

(Flashback: Um estudante de jornalismo lhe pergunta se ele fala Shuacineguer para fazer tipo. Risada baixa, sorriso no canto da boca. Elinaldo responde que é porque aprendeu inglês em algum lugar obscuro dos EUA, onde morou por alguns anos.

“Você só conhece o inglês de Hollywood, meu rapaz.”

Sim, a credibilidade é um dom.)

Sala da Assessoria de Comunicação da Secretaria de Estado da Educação. Sentada no computador, eu, concursada como agente administrativo, estudando jornalismo, atuando como profissional, mas sem o salário – que nunca foi grande coisa –correspondente. Ao meu lado, uma cadeira. Nela, Elinaldo. Possivelmente era uma sexta-feira. E mais uma vez sua risada explodia ao me contar essa história.

E é por esses momentos que, de Elinaldo, sei mais que os registros e anotações impressos nos livros que guiam os passos sobre o passado do nosso cinema.

Eu sei tão pouco, e já é tanto!

(na verdade não sei mais coisas do que o silêncio que fui capaz de imprimir em pouco mais de um ano de convivência. Logo eu, de tantas palavras, com ele, me resguardava).

De Elinaldo, sei da empolgação e das paixões, das palestras particulares, os filmes (re)contados na escolha dos DVDs, as explicações de 2001, o desprezo por algumas escolas de cinema, o desejo vivo de que as palavras e as imagens ganhassem as escolas e as crianças.

À época, ele assessorava o saudoso Ranilson França, que coordenava o setor de cultura voltado à educação do Estado.

De Elinaldo, sei de todos os projetos que criou ali e sobre os quais escrevi a respeito (aqueles que a memória de mais 15 anos idos me deixam lembrar). Seu xodó era “O Escritor vai à escola”. Mas, mais que isso, sei de revistas e cartazes e ingressos, do sorriso aberto, de ser ele um dos maiores presentes que ganhei no trabalho, somente por receber, todos os dias, sua visita, repassando releases e me trazendo deveres de casa: três filmes em VHS, geralmente exibidos nas sessões de arte do Iguatemi.

“Segunda-feira me diga o que achou.”

Se têm duas palavras que definem Elinaldo para mim são simplicidade e generosidade. E é estranho eu achar que sei algo sobre Elinaldo, apenas porque ele compartilhava comigo, de graça, suas histórias de vida, umas bonitas e outras tantas duras. E talvez porque eu também ficcione as afetividades e recorte os frames dessa convivência, consiga montar na minha mente a tela grande da memória (meus olhos fechados por esse instante) e de repente é como se nela se projetasse agora sua voz: “Bom dia, garota! Chegou o homem quase sexy, mas que Bruno não saiba disso”. A brincadeira soava quando ele estava prestes a fazer sessenta anos, a pele lisa e sem rugas e o humor inabalável. Eli, o quase sexagenário.

Os anos 2000 estavam no começo, e o meu namoro também. O DVD era comercializado pelas ruas e em sites. Eu digitava seus textos, escritos à mão, e enviava pelo seu e-mail – que criei e tinha a senha – para as editorias de cultura dos jornais da cidade em um tempo em que havia jornais da cidade. E, uma vez por semana – ele sempre sondava o dia em que eu teria menos pautas – olhávamos o catálogo virtual de dvds das Lojas Americanas. Ele comprava dobrado, dizendo ser presente, e era. Todos os Almodóvares da vida me chegaram pelas suas mãos, e deles não consigo me desfazer até hoje.

Elinaldo pagava os DVDs com boletos bancários. Confiava em mim, não na internet.

Elinaldo alardava que spoiller não existe, e alguns muitos filmes precisei esperar e esquecer o final que havia me sido revelado em detalhes. E ele tentava sempre extrair o que o filme trazia de bom. Em detalhes. Eu ouvia tudo, e ouvia muito, e ouvia atenta, mas começava a discordar de algumas impressões. Ele me achava mais inteligente por isso, e sugeria mais três filmes para cada fala minha. No dia seguinte, trazia-os para que eu os assistisse. Foi assim quando falei que não gostava de western, e então chegaram dois. Eu me vi obrigada a vê-los. Bruno adorou porque nunca tinha ouvido falar naqueles. E Elinaldo ficou feliz quando eu disse: “Não é tão ruim”, respondendo: se você assistir mais, vai começar a gostar.

No meu aniversário, me deu O Estranho sem Nome dizendo: veja esse, acho que faz mais o seu tipo.

E fez.

Elinaldo compartilhou comigo afetos e histórias. Gostava do meu então namorado (hoje companheiro) por ter uma característica muito dele: ambos se desfaziam de uma roupa sempre que ganhavam uma nova. Ambos tinham apenas um sapato de cada tipo, para cada ocasião. E ele passou a gostar de Bruno de graça, e nossas sextas-feiras à noite sempre começavam no Iguatemi, com a benção e o desapego de Elinaldo, que me deixava entrar no cinema com quem mais eu convidasse.

Elinaldo colecionava afetos e cenas, nunca coisas.

Eu escrevo essas palavras porque hoje estava olhando o Instagram quando vi que Elinaldo é, mais uma vez, homenageado. Desta vez, na Mostra Sururu de Cinema Alagoano. E ver seu nome ali, estampado, e estando com o Mirante Cineclube envolvida com o Laboratório de Crítica Cinematográfica que integra a Mostra me trouxe de volta a convivência com essa pessoa tão especial e as memórias de um tempo em que escrever narrativas educacionais e notícias de assessoria era para mim uma atividade cotidiana nem sempre repleta de verdade, mas que ganhava mais luz, som e ação todas as vezes em que ele entrava na sala.

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