Universos sonoros: uma entrevista com Lucas Coelho de Carvalho, editor e mixador de som de “Olhe para mim”

Perguntas: Amanda Nascimento. Respostas: Lucas Carvalho. Imagens: Vanessa Mota (primeira e terceira imagens), Rafhael Barbosa (segunda) e Larissa Marinho (quarta).

Em entrevista, o editor e mixador de som de “Olhe para mim”, Lucas Coelho de Carvalho, fala sobre processo de criação e o papel do som na narrativa cinematográfica e na sua vida

Olhe para mimé o segundo longa-metragem do diretor alagoano Rafhael Barbosa. Incorporando elementos do terror, suspense, drama, fantasia e roadmovie, o filme traz a popularmente conhecida história da ave rasga-mortalha para uma trama de relações humanas sensíveis e complexas. Foi vencedor de três categorias no festival Olhar de Cinema 2026, em Curitiba: Melhor Direção, Melhor Direção de Arte e Melhor Som. Sobre esta última, tivemos a oportunidade de conversar com Lucas Coelho de Carvalho, responsável pela edição e mixagem de som, sobre o universo sonoro criado para o filme. Deixamos vocês com a entrevista:

ALAGOAR-Amanda Nascimento (AN): Em primeiro lugar, muito se fala e se pensa sobre a imagem quando o assunto é cinema. Mas nas produções audiovisuais, o som é a metade… da palavra pelo menos. Para você, qual é a importância do som em um filme?

Lucas Coelho (LC): Sobre esse assunto, tive uma aula em Cuba do professor Claude Baible que me marcou bastante, cujo título era algo como: Imagem e som no audiovisual, 1+1=5. Essa fórmula ficou na minha cabeça, porque nunca pensei na imagem e no som no cinema como metades, e sim como números inteiros, que quando somados extrapolam a ‘matemática’. A relação entre som e imagem explode a lógica, e possibilita criarmos uma miríade infinita de sensações e sentidos, universos inteiros.

Dessas tantas possibilidades, acho que vale destacar três aspectos que são fundamentais e ainda assim não são óbvios (talvez o 3 para além do resultado matemático da soma de 1+1): o som cria espaços, consegue contextualizar uma mesma imagem em um lugar claustrofóbico e isolado, ou ao contrário, abrir um extracampo enorme e te colocar no meio de uma multidão. O som dá forma ao tempo, e através de sua continuidade ou ruptura, cria ritmo e manipula a unidade entre os diversos planos de uma mesma sequência e entre as diversas sequências do filme. O som em si conta uma história, sem que a ação precise se repetir na imagem, ainda que reaja a ela, potencializando as narrativas que se querem criar.

Como dizia  o professor, um diretor/a que joga com esses três aspectos, consegue entrever um dos grandes poderes da banda sonora em um filme: o de criar expectativa — fazer chegar as coisas antes mesmo que elas aconteçam — ao mesmo tempo em que nos oferece a surpresa, que irrompe tanto do fora de campo quanto do que se revela em cena; o poder de sustentar a tensão interna da narrativa, conduzindo o espectador por um percurso íntimo, onde o previsto e o imprevisto permanecem em constante diálogo, o fazendo participar continuamente da montagem a partir de sua própria escuta.

ALAGOAR-AN: Você lembra o que despertou seu interesse pelo desenho de som no audiovisual?

LC: Lembro, foi quando botei um fone de ouvido pela primeira vez em uma aula de som direto, em 2010, na Vila das Artes – Escola de Audiovisual de Fortaleza, onde fiz o curso de realização em audiovisual. Fui completamente tomado por aquela sensação de escutar o que estava acontecendo na minha frente, transduzido de pressão atmosférica em energia elétrica pela membrana de um microfone, amplificado e digitalizado pelo gravador e novamente transformado em energia acústica, do fone em meus ouvidos. Era como se aquilo que eu estava ouvindo fosse outra coisa do que o que eu via; me relacionar com a materialidade daquele som, foi como a faísca que precede a explosão, uma abertura para um prazer completamente novo que mudaria a minha vida. Muitos meses depois, já no caminho de me aprofundar nesse campo, li algo que me ajudou a entender aquela sensação que havia me impactado tanto. Foi a definição de escuta reduzida de Pierre Schaeffer, que resumo aqui como – um modo de ouvir em que suspendemos o interesse pela causa e pelo significado de um som para concentrar nossa atenção exclusivamente em suas qualidades sonoras. Esse conceito é um dos pilares da composição da música concreta, e diria também que do desenho de som. Um dos exemplos mais recorrentes utilizados por Schaeffer é o do sino; ao ouvi-lo, nossa tendência espontânea é perguntar se se trata do sino de uma igreja, que horas ele está marcando ou onde está localizado. A escuta reduzida consiste justamente em suspender essas questões relativas à origem e à função do som para concentrar a atenção em suas qualidades perceptivas: seu ataque, sua duração, seu decaimento, seu brilho, seu espectro harmônico e sua evolução. Em outras palavras, trata-se de deixar de ouvir “um sino” para ouvir um objeto sonoro. Trabalhar com objetos sonoros é o que faço desde então.

ALAGOAR-AN: Em “Olhe pra mim” há uma cena em que a personagem do Marcelo fala que achava que o canto da rasga-mortalha fosse um anúncio, um presságio; mas depois entendeu que, mais que um presságio, seu canto era um chamado hipnótico. Gostei dessa passagem para fazer a primeira pergunta sobre o filme. Sua abertura é com som e tela vermelha, antes de que possamos ver as primeiras cenas. Você diria que esse som é um chamamento hipnótico para o público adentrar ao filme?

LC: Sim, queríamos que o som da rasga mortalha fosse como um chamado hipnótico, mais que um presságio, e que se repetisse várias vezes ao longo do filme, de diferentes maneiras. Tive um período longo de intervalo entre a edição dos diálogos e o começo do trabalho do desenho de som propriamente dito do filme. Durante esse tempo o que mais me ocupava o pensamento era como ia fazer para esse som da rasga mortalha ultrapassar essa camada do presságio/mau agouro tão conhecida popularmente e comumente a ela associada, e tantas repetições. A ideia veio no meio de um show de uma banda de Fortaleza que gosto muito, o Máquinas. Convidei o saxofonista, Gabriel de Sousa, que têm uma pesquisa muito interessante com o som do sax passando por pedais normalmente usados em guitarras, para criar camadas do metal “rasgando”, ainda assim melódicas, que eu pudesse somar aos sons da coruja mesmo, e construir objetos sonoros complexos e ter mais possibilidades interessantes de variação.

No início do filme fazia sentido que esse som viesse quase como um “canto da sereia”, para isso usei um reverb infinito, segurei um pouco a intensidade do ataque desse som e fui aumentando à medida que o reverb ia distanciando, para tirar ao máximo a sensação de susto e trazer mais esse caráter de grito que vai nos tragando.

Uma curiosidade é que a sessão de gravação com o sax ainda rendeu um som parecido com uma buzina de navio, que funcionou muito bem como uma transição para a trilha na cena da procissão fluvial.

ALAGOAR-AN: Vou tomar a liberdade de dizer um pouco do que percebi assistindo ao filme. Há uma mistura terror, road movie, suspense, drama e realismo fantástico, contando uma história dentro de uma lenda nossa bem conhecida. A minha sensação também é que talvez seja possível dizer que a história é uma viagem em muitos sentidos. Sem me estender muito, a viagem da mãe e seu filho; a viagem dos filhos; as famílias que procuram se ajustar, se recompor. Também a viagem mais literal: a balsa, o carro. Você poderia contar como foi o processo para fazer o desenho de som para esses diversos gêneros e diversas viagens? 

LC: A mistura de diversos gêneros, influências, e “temas” nos filmes do Rafhael Barbosa sempre me instigaram muito. Quando vi o corte do Cavalo pela primeira vez (longa anterior de Rafha em que também fiz o desenho de som e mixagem) e começou a tocar Sigur Rós no auge das performances de danças ligadas ao Candomblé fiquei muito impressionado com a ousadia e com a irreverência do que eu estava ouvindo. Foi parecida a sensação que fiquei quando vi o corte do Olhe Para Mim pela primeira vez. Essa mistura de arquétipos da cultura popular nordestina com os códigos de gênero do terror, do road movie, e uma vibe que me lembrava muito o Mumblecore, e sentir que tudo isso funcionava muito bem juntos, me impressionou bastante. A questão era entender como entrar nessa dança sem criar um frankenstein sonoro (risos). Mas, por sorte, cada vez menos me preocupo em definir um conceito ao início do trabalho do desenho de som, traço certas diretrizes e propostas de abordagem que ajudam a encontrar um caminho para o que estou criando (nesse caso por exemplo já sabia que precisava caprichar nos foleys, e que usaria também muitos sons de livrarias gringas para fugir do naturalismo e jogar mais na chave do gênero) mas sinto que o desenho de som vai se fazendo de fato ao longo do caminho. E foi o que aconteceu, cena a cena fomos achando o tom do que queríamos, e que afinal ficou bem mais “pesadão” do que o que eu imaginava a princípio. Entendemos também que uma parte importante do desenho de som estava em trabalhar bem as transições para criar uma fluidez maior entre os capítulos, dando mais ênfase a essa sensação imersiva da viagem, do atravessamento, do que da lógica narrativa. A liberdade que o Rafha proporciona e a intimidade que eu já tinha com ele por conta de outros trabalhos também contribuíram bastante.

ALAGOAR-AN: Chamou a minha atenção os sons ambientes, muito cuidadosos e detalhados: os passos, a respiração, as folhas de papel quando voam da janela do carro… Você poderia comentar a presença desses elementos e sua importância para a narrativa?

LC: A maior parte desses sons bem marcados no filme como os passos, as presenças, as folhas que voam da janela do carro, são Foleys: efeitos sonoros recriados em estúdio, em sincronia à imagem, para representar as ações dos personagens e têm uma função muito importante de reforçar a expressividade e fortalecer o vínculo com os personagens. No Olhe para mim, desde o início eu sentia a necessidade de ter foleys de todo o filme, e esse belo trabalho de foley foi feito no Atelier Rural, coordenado pela Letícia Belo, também artista de foley, e gravado pela Larissa Marinho.

ALAGOAR-AN: E por último: qual foi a sensação de receber o prêmio de Melhor Som pelo trabalho feito em “Olhe pra mim” na Mostra Competitiva Brasileira do Olhar de Cinema?

LC: Fiquei muito feliz com o prêmio, especialmente porque o Olhe para mim, além de dirigido pelo Rafhael Barbosa, que é uma pessoa que admiro muito e com quem já havia trabalhado algumas vezes antes, é protagonizado pelo Ulisses Arthur e pelo Luciano Pedro Jr. que também são diretores com quem já trabalhei algumas vezes e que fazem parte desse meu envolvimento com o Cinema Alagoano, que além de trabalhos muito prazerosos e filmes de que eu realmente gosto, já me trouxe muitas alegrias e amizades sinceras. Me sinto honrado em fazer parte desse movimento, e muito contente pelo reconhecimento ao som desse filme. O Olhar de Cinema também já exibiu muitos filmes em que trabalhei e tive a oportunidade de ir anteriormente, é um festival que leva muito a sério a curadoria e a composição do Júri, e onde as pessoas vão para ver muitos filmes. Então fico novamente (em 2024 também fui premiado pelo som de A Mensageira, de Cláudio Marques) muito alegre pelo destaque entre tantos outros belos trabalhos. Por fim gostaria de ressaltar que esse trabalho foi feito por uma equipe, desde o som direto do Léo Bulhões, com Aparecido Santos como assistente de edição de som, Letícia Belo comigo na edição de Ambientes e Efeitos e também como Artista de Foley e Larissa Marinho como gravadora de Foley.

 

Lucas Coelho de CarvalhoNascido no Ceará em 1988, é realizador audiovisual formado pela Escola de Audiovisual de Fortaleza – Vila das Artes – e Sonidista egresso do curso regular (2012-2015) da EICTV – Escuela Internacional de Cine y Tv de San Antonio de los Baños – Cuba. Trabalha em todas as etapas da criação sonora para audiovisual: som direto, edição de som e mixagem, além de contribuir com obras de artes visuais e artes instalativas. É fundador e mixador do Atelier Rural e tem um estúdio de edição de som 5.1 e mixagem para broadcast em Fortaleza. Os filmes em que trabalhou participaram e foram premiados em alguns dos principais eventos cinematográficos do Brasil e do mundo, como o Festival de Cannes, Berlinale, Tribeca Film Festival, IFRR-Rotterdam, Locarno Film Festival, FIDMarseille, Cínema du Réel, IndieLisboa, Festival del Nuevo Cine Latino-americano de La Habana, Festival de Cartagena, Festival de Cinema de Brasília, Festival do Rio, Mostra de Cinema de Tiradentes, Janela Internacional de Recife, entre outros.

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