Vitor Pirralho & Unidade se unem a Ney Matogrosso em clipe sobre questão indígena no Brasil

Texto:  La Ursa Cinematográfica (Rafhael Barbosa). Imagem: Divulgação.

Em 2019, a questão indígena entrou em pauta mais uma vez no nosso país com o desejo do governo em passar a demarcação de terras indígenas para o Ministério da Agricultura. Os índios continuam sua luta para que o trabalho fique com a Fundação Nacional do Índio (Funai). Tratar do tema se transformou numa coisa urgente e o novo clipe do rapper alagoano, Vitor Pirralho chega em boa hora.

“Rumos e Rumores” é a canção escolhida para dar o start no lançamento de seu terceiro disco A invenção é a mãe das necessidades e conta com a participação especial do grande cantor Ney Matogrosso. A questão indígena não é novidade para Vitor Pirralho & Unidade. O disco anterior Pau- Brasil (2009) foi desenhado sob o olhar dos índios (saiba mais abaixo).

“Essa é uma discussão perene no Brasil e na América Latina como um todo. Eu tenho muito interesse pela causa, que nos remete direto à situação de país colonizado, é uma questão identitária mesmo. E como eu tenho como mastro poético de minhas composições o Oswald de Andrade, poeta modernista que tão bem trouxe às artes brasileiras o conceito de Antropofagia cultural, que resgata o primitivismo, a cultura indígena e como ela foi sufocada e catequizada, eu sempre discuti esse tema em minhas composições. Muitos antes de mim já levantaram artisticamente essa questão, talvez a minha contribuição seja aproximar o rap dessa discussão”, conta Pirralho.

O clipe coloca a narrativa em imagens e traz a fusão do passado com o futuro. Nele, Ney Matogrosso faz o papel de um pajé que recebe informações do futuro e vê que há muita luta para o povo indígena nos próximos anos. O mensageiro do futuro que coloca em uma garrafa um pen drive com todas essas informações também é visto como um subversivo e sofre as consequências de seu ato quando descoberto.

“É o apocalipse da era digital-virtual-tecnológica. Eu tinha uma imagem-conceito em minha cabeça para este disco, um pen drive dentro de uma garrafa (em alusão a pergaminhos que eram lançados com alguma mensagem pelos navegantes) com uma mensagem do presente/futuro – de forma tecnológica, tendo o pen drive como representação disso – para alguém ainda no passado, que até então não presenciara a colonização. Um cruzamento de dois tempos: a era pré-colonial e a era contemporânea – uma espécie de “de volta para o futuro”. Para tanto, retomei conceitos distópicos previstos pela literatura, como no livro 1984, de George Orwell, e também fatos históricos como As Grandes Navegações e toda colonização. Linkando assim à colonização tecnológica que a humanidade vive hoje”, explica Pirralho

“Rumos e Rumores” também é entrecortado de imagens e palavras de ordem que foram usadas pela população nos últimos anos exaltando a importância desses movimentos. A única palavra que talvez não seja conhecida do público em geral é “tortura 101”, uma alusão ao quarto 101, usado na já citada obra de George Orwell, onde o Ministério do Amor torturava os cidadãos indesejados ao estado totalitário representado do livro.

O clipe tem direção e direção de fotografia de Henrique Oliveira (Panan Filmes), roteiro assinado por Henrique, Vitor Pirralho e Raphael Barbosa e conta com os dançarinos Leide Serafim Olodum, Tamylka Viana, Tiago Sutério, Leonardo Doullennerr, José Marcos (Topete).

A parceria com Ney Matogrosso

A parceria com Ney Matogrosso aconteceu de maneira bem natural e foi meio que sem querer. Ney foi se apresentar em Maceió, capital de Alagoas e viu num jornal uma entrevista com o rapper Vitor Pirralho, onde ele explicava todo o conceito de seu então recém-lançado álbum, Pau-Brasil (2009). Ney perguntou a produtora sobre o artista e ela, Sue Chamusca, logo marcou um encontro entre os dois.

“Esse disco é oswaldiano. E isso foi o que chamou atenção de Ney. Ele mesmo disse que o que chamou a atenção dele ao ler aquela matéria foi exatamente o eu-lírico de minhas composições ser o índio, pois ele nunca tinha visto ninguém colocar no Rap o índio como a voz ativa, como o narrador lírico. Portanto, essa não é uma questão importante para mim, é de suma importância para a nação”, conta Pirralho.

O encontro virou amizade e Ney Matogrosso escolheu a música “Tupi Fusão”, que está no disco Pau-Brasil para fazer uma versão em seu disco Atento aos Sinais (2013). O convite para participar da canção e do videoclipe de “Rumos e Rumores” só aconteceu.

O terceiro disco de Vitor Pirralho & Unidade chamado A invenção é a mãe das necessidades está previsto para sair em fevereiro deste ano, terá 13 faixas e tem as participações especiais de  Ney Matogrosso, Zeca Baleiro, Pedro Luís, Ellen Oléria, Tonho Crocco, Luiz de Assis e Boby CH. O álbum foi produzido com apoio da Prefeitura de Maceió (AL), pela Fundação Municipal de Ação Cultural (FMAC).

Informações: 11 94552-5625

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