No mundo dos sonhos não existem limites: uma entrevista com Rafhael Barbosa

Foto destacada: Walter Thoms / Olhar de Cinema
Texto e entrevista: Amanda Duarte

Neste mês, o longa-metragem alagoano Olhe Para Mim, do diretor Rafhael Barbosa, fez uma promissora estreia mundial na mostra competitiva brasileira da 15ª edição do festival internacional Olhar de Cinema, em Curitiba. A obra ficcional foi muito bem recebida pelo público e pela crítica, além de ter sido reconhecida pelo Júri Oficial do evento com três prêmios técnicos.

Lucas Coelho recebeu o prêmio de Melhor Som e Nina Magalhães o de Melhor Direção de Arte. Já Rafhael Barbosa, com quem pude conversar sobre a obra e sua participação no festival, recebeu o prêmio de Melhor Direção. Na cerimônia de premiação o diretor emocionou-se e fez um belo discurso político-afetivo, enaltecendo sua equipe e reconhecendo a resistência do Audiovisual Brasileiro.

Olhe Para Mim é o primeiro longa de ficção alagoano financiado por meio de edital público a entrar no circuito comercial e também é o primeiro longa de ficção dirigido por Rafhael, que também assina obras como Cavalo — junto a Werner Salles Bagetti — e O Que Lembro, Tenho. O filme queer tem como protagonista Marcelo (Ulisses Arthur), que conhece e acompanha os viajantes Sandra (Rejane Faria) e Ivan (Luciano Pedro Jr.) numa jornada atravessada pelo mítico, o terror, o acolhimento e os sonhos.

Na breve entrevista a seguir, Rafhael comenta sobre a experiência da estreia e o que ela tem reverberado.

Amanda Duarte: Imagino que ter estreado seu primeiro longa de ficção na mostra competitiva de um renomado festival internacional tenha sido uma grande experiência, mas antes de comentar sobre essa aventura, peço que comente um tanto sobre Olhe Para Mim. De onde surgiu esse mundo singular que tem sido evidenciado pela crítica e como foi o processo criativo do filme?

Rafhael Barbosa: Acredito que essa singularidade que tem sido percebida no filme se deve ao seu nível autoral. Olhe Para Mim é o meu filme mais pessoal. Sem dúvida ele não seria concebido por qualquer outra pessoa. Isso não quer dizer que se trata de uma obra biográfica. Ele de modo algum conta minha história, mas tem muito da minha alma. O roteiro foi construído a partir de sentimentos e elaborações nem sempre racionais. Olhando de hoje, com algum distanciamento de um processo criativo que foi muitas vezes doloroso, eu vejo o filme como uma alegoria da minha relação com o cinema. Sobre como o cinema tantas vezes me salvou e me levou a vivenciar experiências transformadoras, que contribuíram para moldar minha personalidade.  

O processo de criação do filme foi muito longo. Eu criei a premissa dele quando tinha uns 13 ou 14 anos de idade. Escrevi o primeiro tratamento do roteiro em 2016, há 10 anos. Nesse tempo ele se transformou muito e foi encontrando sua forma, sendo influenciado pelas coisas que eu vivia. Foi o roteiro mais difícil que já escrevi. Me perdi muitas vezes no processo, e acho que finalmente encontrei o filme quando entrei no mundo dos sonhos, onde pude libertar a narrativa e impregná-la dessa força que só a subjetividade pode construir. 

AD: A presença de tantas pessoas da equipe do filme na sua sessão de estreia me fez lembrar de outras ocasiões em que profissionais do cinema alagoano viajaram em caravanas para representar filmes em eventos nacionais. Já é uma marca, não é? Como foi pra você vivenciar essa estreia junto a essas pessoas?

RB: A equipe alagoana de Olhe Para Mim foi a mais numerosa entre todos os longas do festival. Maior até do que as equipes dos filmes locais, do Paraná. Isso chamou muita atenção e revela sobre o que nós somos enquanto coletivo.  

Essa força coletiva tem sido uma marca não só de como o cinema alagoano se apresenta para o cinema brasileiro, mas também de como nós fazemos cinema aqui. O movimento do audiovisual alagoano contemporâneo está se construindo com uma identidade coletiva e que busca uma prática profissional mais humana e respeitosa do que se costuma vivenciar no audiovisual industrial. Ainda somos uma cena mais artesanal que industrial,  e isso nos permite trabalhar com mais afeto e com um certo senso de amizade e família.

Esse sentimento muitas vezes atravessa a tela e fica impresso nos filmes. Torço para que o crescimento inevitável da nossa cena não mude essa característica que é uma das nossas maiores potências. 

Grupo de vinte pessoas estão em pé em semi círculo num hall erguendo taças de champanhe.
Rafhael e várias outras pessoas da equipe de Olhe Para Mim acompanharam o filme em sua estreia. Foto: Walter Thoms / Olhar de Cinema.

AD: Além de ter tido uma nítida boa recepção da crítica e do público, o filme foi reconhecido com três prêmios técnicos pelo Júri Oficial do Olhar de Cinema. O jovem arapiraquense que apenas sonhava em fazer cinema em Alagoas imaginou isso para a estreia do seu primeiro longa de ficção? Quais sonhos ainda vão se realizar?

RB: No mundo dos sonhos não existem limites. Mas a realidade colocou barreiras que às vezes pareciam intransponíveis para alguém da minha origem. Sou um realizador autodidata, negro, de origem muito simples. Cresci em Arapiraca numa época em que sequer tinha acesso a salas de cinema. Mas sempre fui movido por uma paixão, um desejo, uma vontade de cinema que me carregou até aqui. Não sei para onde essa paixão ainda irá me levar, mas a experiência de estrear meu primeiro longa de ficção no Olhar de Cinema, e viver todo o carinho e reconhecimento proporcionado pelo festival, renovou esse sentimento que tantas vezes é posto à prova diante dos obstáculos do caminho.    

AD: Durante a cerimônia de premiação do Olhar de Cinema você agradeceu a todas as pessoas que militam e militaram pelo Audiovisual Brasileiro, chegando a citar a Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), a Associação Brasileira de Documentaristas e Curtametragistas (ABD) e outras instituições. Você também destacou o programa de arranjos regionais do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), política pública que possibilitou a realização dos seus dois longas e que tem mudado a realidade do segmento em diversos estados brasileiros. Faço essa recapitulação porque sei que você também é um militante do segmento e gostaria de entender a sua percepção sobre a dimensão política dessa participação alagoana no festival. Como você acha que essa estreia vai repercutir entre as pessoas que fazem filmes em Alagoas? Como você espera que ela reverbere?

RB: Olhe Para Mim é fruto de uma política pública que transformou o cinema de Alagoas e transformou vidas. A minha e a de muitas outras pessoas. Hoje temos um número considerável de profissionais vivendo do mercado audiovisual. Um número expressivo de empresas produtoras, empresas locadoras de equipamentos, etc. Algo que era impensável há 20 anos. E tudo isso só aconteceu como resultado de muita luta organizada. 

O cinema brasileiro vive hoje muitos desafios e eu acredito que só há uma saída: a coletividade. A organização coletiva permitiu que os movimentos políticos se fortalecessem a ponto de não apenas cobrar, mas contribuir para a construção das políticas públicas. Torço para que essas entidades ganhem cada vez mais representatividade e capilaridade, porque ainda temos e teremos muitas lutas pela frente.

No contexto alagoano, Olhe Para Mim é um lançamento pioneiro, um abre-alas para toda uma safra de longas-metragens muito potentes, que apresentam os olhares de artistas alagoanos extremamente talentosos.  Antes mesmo de o filme estrear em Alagoas, já há uma reverberação imediata, de orgulho, pertencimento. 

Estou curioso para testar essa recepção quando  o filme estrear em Alagoas. Olhe Para Mim mostra o estado com muita paixão e muita beleza, registrando alguns lugares nunca antes mostrados no cinema. 

Rafhael, homem negro careca e com barba, segura troféu retangular e fala ao microfone. Ao fundo, um telão desfocado.
Rafhael Barbosa representou Olhe Para Mim na cerimônia de premiação do festival internacional de cinema de Curitiba. Foto: Victor Burda / Olhar de Cinema.

AD: Por fim, a estreia de Olhe Para Mim deixou muita gente — inclusive eu — com bastante vontade de assistir ao filme. O longa já tem dia marcado para estrear nas salas de cinema? Alguma exibição em Alagoas prevista para antes disso? O que está por vir?

RB: Ainda não temos uma data definida para as primeiras exibições em Alagoas. Mas com certeza elas devem acontecer nos festivais locais até o fim do ano. A estreia comercial do filme irá acontecer no mês de abril de 2027, com lançamento exclusivo da distribuidora Olhar Filmes.

Sobre Amanda Duarte
Amanda Duarte é comunicóloga e multiartista. É uma das idealizadoras e fundadoras do Alagoar e já foi coordenadora de comunicação da iniciativa. Há vários anos, é uma de nossas colaboradoras eventuais.

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