Crítica: Ainda escuto, Futuro e Delícia

Texto: Larissa Lisboa. Revisão: Amanda Nascimento. Imagens: Malec (1 - destaque) e Thomas Falcão (2, 3 e 4).

A Maremoto Filmes, em parceria a Casa Sambacaitá, realizou a 2ª Mostra Xica Manicongo de Cinema Trans e Travesti no dia 10 de julho de 2026, no Centro Cultural Arte Pajuçara, composta por cinco filmes brasileiros exibidos em duas sessões: APTA e Formatura. Esta é uma mostra realizada como finalização do ciclo formativo do Ateliê Xica Manicongo de Cinema, não competitiva e que convida os espectadores a celebrarem o cinema e a comunidade LGBTQIAPN+.

Meu foco neste texto será a sessão Formatura, composta por três filmes alagoanos: Ainda Escuto o Céu Embaixo D’água, Futuro Decadance e Credo que Delícia. 

A sessão teve início com uma exibição comemorativa de Ainda Escuto o Céu Embaixo D’água, filme realizado pela turma da primeira edição do Ateliê Xica Manicongo de Cinema (também realizado pela Maremoto Filmes, idealizado por Marina Bonifácio e Samantha Araújo). Assisti Ainda Escuto em 2024 no Lançamento da 2ª edição do Ateliê das Xicas e vibrei a cada seleção e premiação que ele foi recebendo nos últimos anos. 

Para mencionar algumas das seleções, ele foi exibido na 1ª Mostra de Cinema Trans da APTA, no 15º Festival Internacional de Cinema Rio LGBTQIA+, no 48º Festival Guarnicê de Cinema, na VIII Mostra Sesc de Cinema – Panorama Brasil, no Forumdoc.bh 2025, na 9ª EGBÉ- Mostra de Cinema Negro, na 16ª Mostra Sururu de Cinema Alagoano, no Festival LGBTFlix Alagoas, no Cine Conexões, na 1ª Mostra Luminosa, entre outras.

As realizadoras de Ainda Escuto o Céu Embaixo D’água buscaram abrir os caminhos do cinema para elas e para todas as outras pessoas trans e travestis que desejem ocupar espaços dentro e fora do cinema. E conseguiram conquistar janelas e reconhecimento ao persistir no processo de inscrição deste filme em mostras e festivais de cinema.

Tive o privilégio de trabalhar com uma das diretoras de Ainda Escuto, Samantha Araújo, que é uma das autoras e pesquisadoras do e-book Ateliê de Filmes Possíveis – que conta com um capítulo dedicado ao Ateliê Xica Manicongo de Cinema, no qual Samantha compartilha sobre a vivência dela na primeira e segunda edições deste projeto, que é o único espaço de formação e criação artística voltado especialmente para pessoas trans e travestis em Alagoas.       

Estava celebrando desde que vi o anúncio da 2ª Mostra Xica Manicongo de Cinema Trans e Travesti, pelo impacto de ver essa iniciativa chegar a sua segunda edição, e também por saber que conheceria através dela dois filmes alagoanos em pré-estreia. 

Como na primeira edição desta mostra saí grata e inspirada pelo que vi e vivi. Desta vez, diferente da primeira, consegui elaborar o que vivi em palavras. A seguir, compartilho breves considerações sobre os filmes da sessão Formatura da 2ª Mostra Xica Manicongo de Cinema Trans e Travesti.

Ainda Escuto o Céu Embaixo D’água (dir. Alice Lovelace, Céuva, Kalina Flor, Lua de Kendra, Marina Bonifácio, Morgana Neves, Nara Dos Santos, Pérolla Negra e Samantha Araújo)

Ainda Escuto o Céu Embaixo D’água é um filme sobre a desesperança e a busca por combatê-la em comunidade e individualmente. As diretoras Alice Lovelace, Kalina Flor, Lua de Kendra, Morgana Neves e Samantha Araújo compõem o elenco, junto a Natasha Wonderfull e Suham Torres.

A cena de abertura é o prenúncio do que o filme vai revelar, funciona como uma ponte entre a transcestralidade e uma esperança de futuro. Pode ser vista como uma miragem ou delírio, pois as personagens aparecem reunidas na água e na sequência elas aparecem em uma mesa em um bar. A troca entre elas no bar é animada até que Samantha dá voz a sua desesperança e muda o rumo da conversa para focar no sonhar.

Cada uma fala sobre como se relaciona com o sonhar ou com o que sonha, e elas juntas inconscientemente confabulam um sonho futurista e trancestral que chega na tela. Testemunhamos um ritual de acolhimento e empoderamento de Samantha, que por fim encontra com duas deusas da cena LGBTQIAP+ brasileira e alagoana Natasha Wonderfull e Suham Torres (que são vistas na tela e fora dela como mães das trans e travestis).

A cena do bar provoca aproximações e afastamentos nas pessoas espectadoras; já a cena do ritual, que tem início quando as atrizes usam folhas longas de plantas como espada  e prosseguem até o rio para acolherem Samantha, estimula a curiosidade, conexão e admiração.

Vi este filme umas cinco vezes ou mais, e toda vez que as vejo nesta cena de sonho e ritual transcestral fico conectada, sinto como se fosse possível me transportar para aquele momento, receber aquela energia, renovar as esperanças e acreditar nos sonhos de um mundo em que as pessoas trans possam ocupar o lugar que elas desejem, e sejam mais contratadas para atuar na tela e além dela.

Futuro Decadance (dir. Leviathan)

Futuro Decadance é um filme híbrido que conecta passado, presente e futuro da cena clubber de Maceió. É um filme criado por uma artista, Leviathan, que é DJ, apaixonada pela música eletrônica, moda e arte que cria um mosaico futurista sobre a cultura que rola dentro e fora da pista eletrônica.

Futuro apresenta memórias da Substation, festa idealizada por Adriano Soares, DJ Bacana, que é realizada desde 1996, espaço que consolidou e dá palco para a cena clubber e underground de Maceió.

A narrativa da Substation, que está em Futuro Decadance através de imagens de arquivo e falas do DJ Bacana, é entremeada pela preparação de um dos personagens que foi convidado para participar da festa Futuro Decadance.

A Festa Futuro Decadance também foi um evento produzido pelo DJ Bacana e, ao escolher nomear o filme com o nome desta Festa, Leviathan convida os espectadores a expandirem a sua visão sobre futuro, passado, presente, decadência, dança e arte.

O filme construído por Leviathan me revelou o quanto a persistência do DJ Bacana e das outras personagens que o filme nos apresenta estão conectadas pelo amor, pela criação artística, pelas formas que aquelas pessoas encontraram para continuar vivas, e acreditando que podiam seguir sonhando.   

Leviathan criou o filme em colaboração com performers que, como ela, procuram espaços para exercitar suas artes nas festas e eventos realizados em Maceió. Com maestria, ela foi montando o material gravado durante as filmagens, com o elenco e as pessoas entrevistadas para Futuro Decadance, junto às imagens de arquivo pessoal de pessoas que registraram festas que deram espaço para artistas da cena local clubber, drag e alternativa.

Credo que Delícia (dir. Cauê Assis, Céuva e Rubi Couto)

Credo que Delícia é um filme solar que celebra a vida, aborda os encontros e os desencontros de jovens. A narrativa apresenta cinco personagens e suas interações em uma pequena festa à beira de um rio, em meio à celebração de aniversário de 30 anos de um dos personagens. 

O filme aborda o desejo das pessoas jovens LGBTQIAPN+ de compartilhar bons momentos alegres e lúdicos entre amigues, viagens ébrias e conversas sobre a existência humana. Credo que delícia foi realizado pela turma do 2º Ateliê Xica Manicongo de Cinema.

Foi inegável que o filme provocou o regozijo de várias pessoas que o assistiram na sessão Formatura da 2ª Mostra Xica Manicongo de Cinema Trans e Travesti, principalmente na cena em que as personagens cantam um trecho de uma música da cantora alagoana Danny Bond.

A narrativa construída passeia entre as cinco personagens buscando apresentar enquadramentos que adicionem e conectem o público, com destaque para os momentos em que as personagens são enquadradas compondo trios e duplas; também na cena do duelo de pistolas de água, que usa a referência dos filmes de velho oeste com uma pegada divertida e autêntica. As personagens despertam curiosidade e fica o desejo de poder saber um pouco mais sobre elas, além do que é possível acompanhar pelo que foi apresentado no roteiro.

Enquanto espectadora que partiu da informação que Credo que Delícia tinha autoria de pessoas trans, vi as personagens como representação de pessoas trans, assim fiquei emocionada quando vi que uma delas estava comemorando 30 anos. Compreendi que não era uma celebração qualquer, diante de ter conhecimento de estudos acadêmicos e de organizações da sociedade civil que apontam que a expectativa de vida de uma pessoa trans tem sido de 35 anos. Acredito que podemos fazer muito mais do que fazemos para construir um mundo melhor, principalmente para combater a transfobia e a violência contra pessoas trans. 

O filme me levou a refletir sobre o desejo de celebrar existências diversas e sobre o sonho de ver um futuro em que seja possível viver sem normalizar violências. Sua narrativa cria uma realidade para as suas personagens sem defini-las por suas identidades de gênero, nem pela forma como se relacionam com suas sexualidades. 

Irei levar a cena do bolo e do parabéns como uma inspiração e combustível para seguir sonhando em celebrar o envelhecimento de tantas pessoas da comunidade LGBTQIAPN+ brasileira e alagoana que desejo testemunhar e celebrar.

Também levarei a sessão Formatura como inspiração para refletir sobre o passado, presente e futuro, e como um convite para esperançar, sonhar e continuar dialogando sobre arte e principalmente sobre cinema.

Sobre Larissa Lisboa
É coidealizadora e gestora do Alagoar, compõe a equipe do Fuxico de Cinema e do Festival Alagoanes. Contemplada no Prêmio Vera Arruda com o Webinário: Cultura e Cinema. Pesquisadora, artista visual, diretora e montadora de filmes, entre eles: Cia do Chapéu, Outro Mar e Meu Lugar. Tem experiência em produção de ações formativas, curadoria, mediação de exibições de filmes e em ministrar oficinas em audiovisual e curadoria. Atuou como analista em audiovisual do Sesc Alagoas (2012 à 2020). Atua como parecerista de editais de incentivo à cultura. Possui graduação em Jornalismo (UFAL) e especialização em Tecnologias Web para negócios (CESMAC).

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