
Texto: Marcela Karapotó. Revisão: Larissa Lisboa.
Irinéia & Antônio filme fala sobre o amor e companheirismo na produção de bonecos de Cerâmica
O curta-metragem produzido e sob direção de Pedro Rocha, traz a história de Irinéia e de seu Antônio, um casal de idosos que produziam bonecos de cerâmicas, lá no povoado Muquém em União do Palmares, pertencente à Zona da Mata Alagoana.
O amor por seu Antônio fez dona Irinéia redescobrir o talento para esculpir bonecos de barro, no início ela realizava apenas a confecção de partes do corpo como braços, pernas, pé e cabeça (sua encomenda mais solicitada e sua maior especialização). As peças feitas por ela eram bem rudimentares e não eram queimadas, com matéria-prima bruta.
O casal relembra no filme, a cheia que teve no Rio Mundaú no ano de 2010, onde 50 pessoas sobreviveram, pois subiram em cima de um pé de Jaca, me fez lembra dar minha infância, subindo, escalando algumas plantas, do chão de barro batido. Eles dois tiveram muitas perdas, mas conseguiram sobreviver pois subiram em uma pilha de madeira que tinha atrás dá casa.
Quando olhamos para fotografia, do curta vemos imagens bem características e específicas do Agreste Alagoano, um interior bem roceiro e pobre. Em uma das sequências vemos como Antônio faz a retirada do barro, a queima das peças, intercalando entre enquadramentos mais fechados e algumas cenas de plano aberto.
Durante todo o filme fomos apresentados apenas aos dois personagens principais. Com cenas muito próximas do rosto, e focando muito na mão dos personagens, modelando o barro para formar os bonecos.
Seu Antônio, um senhor muito emocionado, criou a peça conhecida como “beijo”, que ele brinca dizendo que são eles se beijando, relatando que sua mulher sente vergonha e não gosta de fazer essas coisas. Outro exemplo é a escultura que representa pessoas em cima de uma jaqueira, peça muito conhecida de dona Irinéia.
A jaqueira se tornou objeto de memória, pois remonta a uma enchente, durante a qual ela e suas três irmãs ficaram toda a noite em cima da árvore, esperando a água baixar. O manejo da matéria-prima é feito com a retirada do barro que depois é pisoteado, amassado e moldado. As peças são então queimadas, ganhando uma coloração naturalmente avermelhada.
Para quem mora no interior, é bem forte a tradição de fazer promessas para curas de comorbidades, onde são feitas peças que remetem a parte do corpo, normalmente no mês de setembro muitas famílias do interior do estado fazem romaria para Santuário Santa Quitéria localizada no município São João lá em Pernambuco. Onde colocam essas esculturas na busca da cura e remissão dos pecados. No fim, o curta emociona porque entende que aquelas esculturas não são apenas bonecos decorativos. São fragmentos de uma vida inteira moldados manualmente.
Pedro Rocha consegue captar isso sem transformar os personagens em símbolos distantes ou folclóricos. Eles continuam sendo humanos: simples, engraçados, tímidos, sobreviventes. E talvez seja justamente por isso que o filme permanece depois que termina. Porque ele mostra que, mesmo depois da enchente, da pobreza e do desgaste do tempo, ainda existe gente tentando reorganizar o mundo com as próprias mãos.
Este texto foi escrito como exercício da disciplina Oficina de Produção Audiovisual (UFAL), ministrada pela professora Gabriela Palmeira.
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