Entrevista com Leonardo A. Amorim

Perguntas por Karina Liliane, Larissa Lisboa e Rose Monteiro. Respostas por Leonardo A. Amorim. 
Foto em destaque: Ulisses Arthur.

Em setembro de 2019 Leonardo A. Amorim realizou a filmagem de Vamos Ficar Sozinhas, seu terceiro filme, para o qual realizou uma breve campanha e arrecadou os custos de alimentação e logística da equipe. Um mês após as filmagens o projeto do quarto filme dele Queima a Minha Pele foi contemplado no Edital do Audiovisual de Maceió 2019, junto ao projeto do cineclube que ele faz parte, Mirante Cineclube. Nessa entrevista o convidamos a compartilhar um pouco do processo dos filmes realizados por ele, às vésperas do lançamento de seu terceiro filme na X Mostra Sururu de Cinema Alagoano.

Larissa Lisboa: Como você define a sua relação com o cinema?

Leonardo Amorim: Eu sempre tive interesse em fazer algo criativo. Quando criança eu escrevia muitas histórias, pensei que ia fazer livros de ficção, mas com o tempo percebi que não era isso, que a imagem me conquistou mais que a palavra. Então eu encontrei no cinema um local de possibilidade de criação, e encontrei em coisas como a mise-en-scène e a montagem, a interação entre duas imagens, uma realização emocional e criativa bem forte.

Karina Liliane e Rose Monteiro: Você se considera um cinéfilo? Como você  percebeu que estava vivendo a cinefilia?

LA: Digo sim com certa relutância porque nunca me acho o suficiente. Conheço pessoas que veem e viram tão mais filmes que eu. Ao mesmo tempo, seria uma mentira dizer que não, considerando a forma que vejo e como pesquiso, e como busco pessoas que fazem o mesmo. Eu percebi que vivia isso nos assuntos que falava e falo, com as pessoas que interajo, com a maneira que me veem.

LL: Como a sua formação em publicidade dialoga com a sua paixão pela linguagem cinematográfica?

LA: O que eu aprendi em publicidade foi especialmente o que não fazer. Acho que a linguagem publicitária no cinema é uma praga que assola abordagens e imagens de filmes alagoanos, brasileiros e de fora do país também. São coisas filmadas porque são bonitas, porque são legais, porque a história está ali acontecendo, porque devemos movimentar a câmera ao redor com o filtro certo e as regras de composição adequadas. Eu fico puto. Esse filme que se realiza não porque há um pensamento sobre uma direção, uma mise-en-scène que percebe e movimenta esse mundo, mas porque se tem uma “ideia de filme”, como diria Luiz Carlos Oliveira Jr. Ele fala sobre isso na crítica de Ensaio Sobre a Cegueira e Linha de Passe, em que ele descasca os filmes, e trago aqui um parágrafo dele:

“A publicidade e suas práticas mais hediondas se naturalizaram no cinema (brasileiro, mas não só). Nessa visão de cinema, o ‘criar’ não é mais identificado a um trabalho dinâmico com a matéria; é um retrocesso simbólico, onde a idéia passeia livre, leve e solta – a idéia sobrevive à perda de vínculo com o pensamento e com o olhar. É o mar sendo substituído por ‘um grande azul de síntese’; o ator servindo de portfólio para o preparador de elenco. O filme sendo uma embalagem para uma idéia de filme. E essa idéia é sempre rasa, sempre retrógrada, não tem como ser de outro jeito.”

RM: Para você, como é fazer cinema em Alagoas?

LA: É interessante pensar isso porque foi o único canto que eu já fiz né? Então não tenho nem algum comparativo. Mas o que acho interessante destacar são as conexões com as pessoas daqui, a maneira que as pessoas se ajudam, como há uma paixão bem forte pela arte no cenário local.

LL: Quais as funções você já exerceu na área do audiovisual? E com qual(is) delas você mais se identifica?

LA: Eu já fui diretor, roteirista, montador, diretor de fotografia, câmera, som direto e desenho de som. Me identifico especialmente com direção e roteiro, mas quando trabalhando nos filmes de outros diretores e diretoras, me interesso pelo setor de montagem. Depois de ter montado Pornô, A Noite Estava Fria e Vamos Ficar Sozinhas, minha relação com ela se tornou bem forte.

LL: Como foi o processo de realização do seu primeiro curta, “Pornô”? Como surgiu o desejo de construir um filme futurista?

LA: Em 2016 eu tinha uma ideia sobre cinema brasileiro e cinema alagoano que dizia: filmes de gênero não são bem vindos. E eles podem até ser mais bem recebidos hoje, mas é de uma forma bem específica (que eu não vou discorrer tanto agora porque dá outra resposta pra uma pergunta não feita). Tendo em mente essa condição, na época de Pornô eu estava pensando tanto o cinema enquanto o que está na tela quanto o que está sugerido fora dela, no extracampo, então queria explorar isso. Queria fazer um filme que fosse em um universo distópico e se passasse em só 1 local. Que todo o mundo externo pudesse ser construído só pelo que acontece nesse espaço, nas conversas entre as personagens. Na época e assim como hoje, eu me interessava por gênero e sexualidade também, ainda que certas concepções sobre tenham mudado. Então uma história com essas diretrizes se formou. O que me agrada no filme hoje é algo que Nivaldo Vasconcelos salientou, que era um filme que tinha uma irreverência bem potente, uma certa audácia. E eu acho que de lá pra cá eu me afastei disso e estou buscando de novo.

LL: De onde veio a inspiração para “A noite estava fria”?

LA: Eu precisava fazer um filme, TINHA que fazer. Então fui pensando possibilidades e condições, espaços controlados, como esse espaço se relacionava com a história, como pra se fazer um filme pra mim é preciso de um cenário e duas pessoas. Em um nível narrativo, fui confrontado pela forma que os filmes brasileiros no geral e especialmente alagoanos filmam histórias com personagens “não-hétero”, e tenho um incômodo com a forma que fazem e fizeram. Quando escrevi o roteiro enviei a um amigo e ele me recomendou o filme Weekend de Andrew Haigh, que ajudou a desenvolver uma mise-en-scène pro apartamento.

LL: Quais os pontos de encontro e desencontro entre os processos de seus dois primeiros filmes, “Pornô” e a “A noite estava fria”?

LA: Desencontro claramente se dá na abordagem antinaturalista do primeiro em contraste com uma busca do cotidiano pelo segundo. Eu passei de um gênero sci-fi para um filme que buscava ser naturalista, buscava um drama de certa forma cotidiano. Na época, interessantemente, eu lembro que me entristeci quando falaram que os personagens eram muito opostos polares, muito maniqueístas, hoje eu percebo isso como os traços de melodrama que eu já apresentava, que já estavam em mim de alguma forma, então aí está o encontro, uma partida e um retorno ao gênero de certa forma, pazes comigo mesmo e com a forma que faço cinema. Sinto esse atrito especialmente agora com Vamos Ficar Sozinhas.

LL: Como foi estrear “Pornô” e “A noite estava fria” na 7ª e 8ª edições da Mostra Sururu de Cinema Alagoano respectivamente?
LA: Pornô foi meu primeiro filme quando eu não conhecia ninguém do audiovisual alagoano. Imagino que foi visto como um alien naquele local, o “menino” que caiu de paraquedas, bem visto como a criança de 18 anos mesmo. No fim da Sururu me aproximei do Mirante Cineclube, que foi iniciado nesta edição, e disse que tinha interesse em entrar. Houve então durante esse 1 ano certo movimento de inserção minha nesse meio, indo em reuniões do Fórum (FSAL) e conversando.

Em A Noite Estava Fria eu já tinha mais conhecimento e intimidade, conversei com outras pessoas do audiovisual alagoano, e saí da 8ª Mostra com a menção honrosa pela direção. Eu vejo esse processo de trocas com o Mirante e com as pessoas do cinema alagoano como algo que me fez crescer muito. E aí 2 anos depois vem Vamos Ficar Sozinhas, que só existe também graças a esses contatos e afetos.

LL: Como teve início o processo do seu novo filme “Vamos ficar sozinhas”?

LA: Ele surge junto com A Noite Estava Fria, quando eu penso que poderia fazer uma trilogia de apartamento, com casais de homens, mulheres, e um casal de homem e mulher. Uma trilogia que chamei de “Desamor”, porque é sobre desencontros emocionais. Após fazer o A Noite, decidi parar, não tinha energia, não tinha algo me movendo a fazer algum outro, então fiquei 2 anos parado. Em 2019, resgato o roteiro de Vamos Ficar Sozinhas, que se baseava também só no apartamento, e o expando para novos interesses, resgato certas compreensões que tinha antes, as revitalizo, é um processo de renovação que não transformou o roteiro de 2 anos atrás em outra coisa, mas gerou atritos entre modos de fazer e se pensar cinema.

LL: Há um diálogo entre “A noite estava fria” e “Vamos ficar sozinhas”?

LA: Sim. Como falei na resposta anterior, ambos surgem nesse mesmo tempo, mas os 2 anos de diferença entre um e outro mudaram bastante coisa. A base da história permanece, esse interesse pelas duas pessoas no apartamento, mas para além disso se desenvolveram outras coisas, outros caminhos, algumas rimas e ressignificações formais entre um filme e outro. São realmente filmes irmãos.

Registro das filmagens de “Vamos Ficar Sozinhas”. Foto: Larissa Lisboa

LL: Qual a sua expectativa para a X Mostra Sururu de Cinema Alagoano?

LA: Tenho segurança que vai ter o mesmo sentimento que outras Mostras já me deram, que é uma alegria de viver cinema alagoano por uma semana inteira. Vamos Ficar Sozinhas é o filme que finalizo com mais felicidade e conforto. O que eu adoraria que tivesse é algum debate intenso. Que os filmes, o público e a crítica, essa tríade que compõe o Cinema, se articulem em um fermentação de ideias e conversas, que os filmes sejam confrontados, que o fazer e pensar cinema em Alagoas se faça vivo.

RM: Quais são suas referências de diretoras e diretores? Dessas referências quais são as mais explícitas no seus filmes?

LA: Eu tenho uma questão com o termo referência porque hoje em dia se implica em algo visível, que chama atenção pra si, mas além de colocar essa referência na cena (Encontros e Desencontros em A Noite Estava Fria por exemplo), eu não gosto de chamar atenção com elas.

Entre diretoras e diretores que nutro respeito e admiração, seja porque vi boa parte da carreira ou dependendo do impacto só 1 filme que afetou a forma que eu vejo e faço cinema, consigo pensar em Alain Resnais, Todd Haynes, Carlos Reichenbach, Bertrand Bonello, Catherine Breillat, Abbas Kiarostami, Tobe Hooper, Olivier Assayas, Wong Kar Wai, Irmãs Wachowski, Irmãos Safdi, Marília Rocha, Hong Sang-Soo, David Robert Mitchell, Mia Hansen-Love, Eliza Hittman, Anita Rocha da Silveira, Claire Denis, Stanley Kubrick, Kelly Reichardt, Paul Thomas Anderson, Maurice Pialat, Bong Joon Ho, Juliana Rojas, Marco Dutra, David Cronenberg, Paul Verhoeven, Sofia Coppola, David Fincher, David Lynch, Gabriel Mascaro, Andrew Haigh, enfim, pra citar pelos menos alguns

Dito isso, para especificar nos filmes, consigo encontrar Amantes do James Gray e Lírios da Água da Céline Sciamma em Vamos Ficar Sozinhas. A maneira que o Gray lida com a mise-en-scène é algo que almejo muito alcançar, e o desejo adolescente queer que a Sciamma captura é incrível. Em A Noite Estava Fria, a dupla foi Encontros e Desencontros da Sofia Coppola e Weekend do Andrew Haigh.

LL: Como foi o processo de elaboração do projeto de “Queima a minha pele”, contemplado no Edital do Audiovisual de 2019? E o que você pode nos dizer sobre esse que será o seu quarto filme, primeiro realizado com incentivo público?

LA: Foi um trabalho de debate e compreensão sobre o filme, que ganhou muito através de atividades como o curso de Ulisses Arthur Olhar da Direção, o de Elaboração de projetos Audiovisuais de Regina Barbosa, ambos realizados pelo Sesc Alagoas em Maceió, e em um processo constante com o produtor do filme, Janderson Felipe. Queima Minha Pele vai utilizar do cinema de gênero, especificamente os gêneros de corpo, que são o melodrama, terror e pornô, pra lidar com desejos e violências, masculinidades e ausências. Acho que dizer isso é suficiente por agora.

Sobre Larissa Lisboa
É coidealizadora e gestora do Alagoar, compõe a equipe do Fuxico de Cinema e do Festival Alagoanes. Contemplada no Prêmio Vera Arruda com o Webinário: Cultura e Cinema. Pesquisadora, artista visual, diretora e montadora de filmes, entre eles: Cia do Chapéu, Outro Mar e Meu Lugar. Tem experiência em produção de ações formativas, curadoria, mediação de exibições de filmes e em ministrar oficinas em audiovisual e curadoria. Atuou como analista em audiovisual do Sesc Alagoas (2012 à 2020). Atua como parecerista de editais de incentivo à cultura. Possui graduação em Jornalismo (UFAL) e especialização em Tecnologias Web para negócios (CESMAC).

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