
Texto: Samantha Araújo. Revisão: Larissa Lisboa
Ultimamente tenho pensado bastante sobre como me comporto no presente em relação aos trabalhos que desenvolvo e dos quais estou envolvida, e uma das coisas que me acalenta é pensar no passado, em como o meu desejo de trabalhar com arte e cultura sempre existiu e como é importante lembrar constantemente que isso é uma das coisas que me move.
Pensando no processo de como foi escrever para o E-book Ateliê de Filmes Possíveis, muito desse sentimento de voltar ao passado me retoma. Minha intimidade com a escrita tem sido maior nos últimos anos, e meu último trabalho enquanto autora, pesquisadora e colaboradora me ensinou bastante também sobre mim mesma e os atravessamentos da escrita, sentimentos esses que foram proporcionados através de minha participação na pesquisa sobre formações audiovisuais que resultaram em obras cinematográficas alagoanas.
O convite de Larissa para acrescentar à sua pesquisa, no ano de 2024, surgiu em um momento em que trocamos figurinhas sobre a semana de abertura do II Ateliê Xica Manicongo de Cinema, onde estreamos o filme Ainda Escuto o Céu Embaixo D’Água, que foi um acontecimento grandioso para o audiovisual trans alagoano e que conversava intimamente com sua pesquisa. A partir disso, acrescentei à pesquisa e vou discorrer sobre como foi a experiência de participação enquanto co-idealizadora e aluna dos dois ciclos de formação cinematográfica do Ateliê Xica Manicongo de Cinema.
Falar sobre o ateliê sempre aquece meu coração. Hoje em dia, vendo como esse espaço se tornou mais do que um espaço formativo, mas uma família, sempre volto a pensar em como é importante pensar no ontem para vislumbrar o amanhã. Essa semana vi um vídeo de uma entrevista com Erika Hilton, onde ela diz que seu trabalho atravessa quem veio antes dela e quem virá depois, um trabalho que atravessa gerações e que estar vivas faz parte de um plano Transcestral.
Essa fala da deputada ressoou em mim. Esse foi um dos argumentos que inicialmente fez o ateliê nascer. Lembro muito de uma vontade incessante de estarmos registradas na história, e o que as travestis alagoanas fizeram não foi apenas um registro histórico, mas a revolução de um cenário até então não visto em Alagoas e que, hoje em dia, atravessa as fronteiras brasileiras.
Pensando hoje, percebo que existe uma linha que conecta todas essas experiências. O desejo de registrar nossas histórias no Ateliê Xica Manicongo também está presente no E-book Ateliê de Filmes Possíveis. Ambos, cada um à sua maneira, partem da compreensão de que a memória precisa ser cultivada para que possamos conhecer quem veio antes de nós e imaginar os caminhos que ainda estão por vir.
O Ateliê de Filmes Possíveis, com autoria de Larissa Lisboa, Rosana Dias e minha, é o resultado de um processo de pesquisa e mapeamento de informações que durou mais de um ano sobre oficinas, cursos, minicursos, laboratórios, ateliês e movimentos que resultaram em obras cinematográficas. É de extrema importância ressaltar que Alagoas segue sendo um dos estados que não oferta um curso superior e técnico de artes cinematográficas; e que reunir informações sobre essas formações que gerarem filmes alagoanos e mapear 102 obras audiovisuais neste e-book é de suma importância para visibilizá-las e seguir lutando por mais vitrines para o nosso cinema.
Uma das ações mais importantes para a preservação da memória e difusão do cinema alagoano é o website independente Alagoar, criado em 2015 por Amanda Duarte e Larissa Lisboa. Mantido com recursos próprios, o projeto reúne informações sobre produções audiovisuais locais, como roteiros, cartazes e outros materiais, constituindo um importante acervo digital que valoriza, documenta e amplia o acesso à produção cinematográfica de Alagoas, e que atualmente, já soma 891 obras catalogadas no site.
Assim como o Alagoar, este e-book contribui para a preservação da memória do audiovisual alagoano ao reunir informações sobre ações formativas que resultaram na realização de filmes. Ao registrar esses processos de aprendizagem e criação, a publicação fortalece a circulação de conhecimentos, valoriza o fazer cinema no estado e evidencia a importância da formação cultural como elemento fundamental para o desenvolvimento e continuidade da produção audiovisual em Alagoas.
Particularmente, estar dentro do processo também enquanto revisora foi extremamente frutífero para minha bagagem audiovisual, pois estive em contato com produções que eram feitas quando eu nem pensava em fazer cinema, e essas produções despertaram ainda mais o desejo de fomentar, produzir e interpretar novas narrativas. Mas, sobretudo, foi muito prazeroso conhecer os filmes que foram resultado de formações importantes e notórias no audiovisual alagoano.
Em muitos momentos no desenvolvimento do relato, me vi enfrentando alguns impasses que até então não sabia nomear, mas ficou nítido, quando precisava buscar alguma lembrança para aprofundar a experiência, que eu me encontrava cansada e desanimada. No processo de escrita sobre o Ateliê Xica Manicongo, e até mesmo vivendo o ateliê, me via dividindo o tempo que tinha entre sobreviver artisticamente e trabalhar em uma empresa de telemarketing que sugava minhas forças e me travava de muitas formas. Avalio que essa dualidade de sobrevivências me consumia ao ponto de não olhar com afeto e cuidado para o trabalho que estava desenvolvendo.
Meu relato enquanto co-idealizadora e aluna do Ateliê Xica Manicongo tem um grande valor poético e sentimental, mas avalio que poderia haver mais informações técnicas e objetivas para discorrer enquanto um relato que também pede informações institucionais, pensando que nosso espaço existe para formar profissionais trans em um curso livre de audiovisual. Contudo, um dos processos do e-book era colher essas informações através de um formulário, sendo possível visualizá-las dentro da própria publicação. Apesar de compreender isso, vejo também esse percurso como um processo que me ensinou bastante sobre como estar presente em determinados trabalhos e, principalmente, vejo o e-book como um dos projetos que mais reverberam em mim atualmente.
Fico muito feliz com o resultado dos processos que integrei e que acrescentaram tanto à minha vivência. Desde o lançamento do e-book, em abril de 2026, percebo que, sempre que retomo a leitura do que escrevi para o livro digital, ganho um novo olhar, com novas perspectivas e formas de me acolher em um trabalho pelo qual tenho tanto carinho.
O processo de ler o que escrevi se torna doloroso em alguns momentos. A autossabotagem e o sentimento de inadequação muitas vezes batem forte, e é difícil se acolher quando isso acontece. Durante o processo de escrita, tive trocas com Larissa sobre muitos desses sentimentos, e o retorno sempre foi generoso e compassivo. Além disso, ela também me presenteava com livros que amenizavam a dor. Sou grata por essa partilha e me sinto feliz em cultivar essa amizade que gerou tantos frutos.
Por fim, gosto de pensar que a escrita, apesar de desafiadora em muitos momentos, me trouxe muitos presentes e aprendizados, principalmente quando escrevo sobre projetos que, de toda forma, conversam sobre quem eu sou e como me senti nas experiências. Além dos aprendizados, esses projetos registram memórias que me presenteiam quando estou no futuro. Sigo escrevendo e sendo desafiada pelos meus desejos, pela poesia e pelo ato de registrar memórias. Nunca posso esquecer que sou o sonho de meus ancestrais e que eles se interessaram pelo que escrevo.
Sou Samantha Araújo, travesti, negra, das Alagoas, e estou falando sobre minha vivência de escrita enquanto autora, pesquisadora e colaboradora do E-book Ateliê de Filmes Possíveis.
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